Política

Oposição em bloco critica mensagem de Natal de António Costa por “pintar” país que não existe

26 dezembro 2022 12:53

clara azevedo

Partidos viram primeiro-ministro desfasado dos “principais problemas das pessoas”, sobretudo do aumento do custo de vida. Dizem que há um país “cada vez mais pobre” e um primeiro-ministro que faz “uma espécie de autoelogio”. Chega aproveita para chamar ministros ao Parlamento

26 dezembro 2022 12:53

Da esquerda à direita, a oposição viu com ceticismo a habitual mensagem de Natal de António Costa. No sétimo ano como primeiro-ministro, Costa pôs Portugal no “pelotão da frente para vencer os desafios do futuro” e mostrou “confiança” para lá da incerteza internacional. Os partidos responderam com exemplos, da saúde à educação, mas sobretudo do aumento dos preços, de que o momento é outro. “Dificilmente os portugueses se reconhecem neste país que o primeiro-ministro pintou”, resumiu o PCP.

Do lado do principal partido da oposição, o secretário-geral, Hugo Soares, acusou Costa de não ter “uma palavra para os principais problemas das pessoas que vivem o dia a dia em Portugal”. O secretário-geral do PSD afirmou mesmo que o primeiro-ministro “já não apresenta nada de novo ao país”, e que Portugal está “cada vez mais pobre, com impostos no máximo e serviços públicos no mínimo”.

Os serviços públicos foram, aliás, um dos exemplos mais vezes referidos nas reações dos partidos ao discurso de pouco mais de quatro minutos de António Costa. Na educação, “não se veem evoluções na recuperação das aprendizagens, nem sequer na saúde mental das crianças e jovens”, disse João Cotrim Figueiredo, ainda líder do Iniciativa Liberal. Sobre a saúde, “nem vale a pena falar”, porque “o caos do SNS é testemunhado pelos portugueses todos os dias”.

Para o IL, o primeiro-ministro limitou-se “a uma espécie de autoelogio”, principalmente quando disse “que recuperou a economia”. O tema do crescimento económico é caro aos liberais, que veem Portugal “a crescer menos do que os países com que se pode comparar” e por isso a ser “paulatinamente ultrapassado pelos países do espaço europeu”.

“Perplexidade” à esquerda

À esquerda, as preocupações são diferentes, mas a crítica a um primeiro-ministro desfasado dos problemas do país são mais ou menos as mesmas. Jorge Pires, da comissão política do PCP, notou que a “confiança” de que falou Costa — “uma expressão que usa muitas vezes” — só serve se for para “resolver o problema dos salários, da inflação e do aumento dos preços”. Ora, não é isso que os comunistas têm visto e por isso, continuou Jorge Pires, “dificilmente os portugueses se reconhecem neste país que o primeiro-ministro pintou”.

“País cada vez mais pobre, com impostos no máximo e serviços públicos no mínimo”, acusa PSD

Há outras expressões que o Governo tem repetido a propósito dos apoios sociais dos últimos meses, na sequência da escalada inflacionista. Uma delas é a de que eles servem para “não deixar ninguém para trás”, palavras que Costa voltou a usar neste Natal. “Olhamos para essa afirmação com perplexidade”, comentou o Bloco de Esquerda, já esta segunda-feira.

Beatriz Gomes Dias, dirigente bloquista e vereadora em Lisboa, notou o “aumento da desigualdade e da injustiça social”, afirmando que “há muitas pessoas com trabalho que têm salários tão baixos que vivem na pobreza”. “É preciso responder ao empobrecimento do país”, insistiu, algo que o discurso do primeiro-ministro, na leitura do Bloco, ignorou. “A mensagem não trouxe nenhuma alternativa à situação de empobrecimento que as pessoas vivem em Portugal.”

Também o PAN se referiu à expressão “não deixar ninguém para trás”. E para dizer que é isso que acontece se, “perante este fenômenos de inflação e aumento das taxas de juro, não são postas em prática medidas concretas que protejam direitos”.

No discurso, António Costa voltou às “contas certas” (mais uma expressão omnipresente deste mandato), que servem para garantir a tal “confiança no futuro”, para “reduzirmos as desigualdades, acudirmos à emergência climática, assegurarmos a transição digital e vencermos o desafio demográfico”.

Mas nem com essas palavras Inês Sousa Real viu o primeiro-ministro falar na aposta “numa economia verde e numa transição energética, de forma coerente”. Para a líder do PAN, só assim se garante “justiça intergeracional, mas também uma verdadeira preocupação ambiental”.

Chega deixou-se ficar para o fim à procura de “esclarecimento”

O Chega foi o último partido a reagir às declarações de António Costa, ao fim desta manhã de dia 26. E foi através do líder, André Ventura, que o partido aproveitou a ocasião para cavalgar a polémica sobre a indemnização de meio milhão de euros paga pela TAP à secretária de Estado do Tesouro, Alexandra Reis, pela cessação antecipada do cargo de administradora executiva.

Sobre a mensagem de Natal, o Chega tinha a dizer o mesmo que os outros partidos. “Nem uma palavra para os portugueses sobre as matérias que verdadeiramente importam”, afirmou Ventura, lembrando a também polémica entrevista de António Costa à revista “Visão” na semana passada. “Tanto para dizer” nessa altura e agora, acusa o Chega, “cara a cara com os portugueses, nem uma palavra” sobre o aumento do custo de vida.

Ventura diz que o Chega esperou para reagir porque aguardava explicações sobre o caso de Alexandra Reis. Mas que agora, “na ausência de respostas”, o Chega entregou um requerimento a chamar ao Parlamento os ministros das Finanças e das Infraestruturas, Fernando Medina e Pedro Nuno Santos, a própria secretária de Estado do Tesouro, Alexandra Reis, e ainda a atual CEO da TAP, Christine Ourmières-Widener. “Não temos informação suficiente para dizer que há crimes neste momento”, mas, concluiu Ventura, é preciso “um esclarecimento”.