Política

Marcelo considera ser "muito tentador" voltar a soluções energéticas do passado

22 novembro 2022 16:54

paulo cunha

Presidente da República reafirma que 2023 vai ser “um ano muito difícil”

22 novembro 2022 16:54

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, disse esta terça-feira que é "muito tentador" voltar a soluções energéticas do passado, como a reabertura das centrais a carvão ou o regresso ao nuclear.

"Houve, de repente, no aperto económico, quem defendesse que era de pôr entre parêntesis as preocupações que eram as preocupações da ação climática, para, durante um tempinho, enquanto durasse a crise e fosse necessário recuperar, voltar a algumas soluções do passado", afirmou Marcelo Rebelo de Sousa, recuando ao tempo em que "surgiu a pandemia e as economias pararam e depois a guerra e a crise económica acentuou-se".

Numa aula debate na Escola Secundária Domingos Sequeira, em Leiria, onde a temática central foi a COP27, conferência do clima da Organização das Nações Unidas, o chefe de Estado frisou que "isto era perigosíssimo", mas reconheceu que "é muito tentador, porque as opiniões públicas não querem aumento de preço de energia".

Enumerando aspetos que considerou positivos e negativos da COP, Marcelo Rebelo de Sousa admitiu que a conferência "foi marcada pela ressaca da pandemia, pela guerra, pela recuperação económica que não está a dar-se no mundo ao ritmo a que se pretende e, portanto, por um impasse e por um não avanço".

O chefe de Estado alertou ainda que na "balança de poderes que pode emergir da guerra" na Ucrânia "vão pesar muitíssimo potências" para as quais a questão das alterações climáticas "não é uma prioridade fundamental", situação que classificou como "problema preocupante"

Segundo o chefe de Estado, "é preciso que nos Estados Unidos da América se converta numa prioridade nacional" e que "a emergência da China como grande potência económica obriga" a que "também mude a sua posição, comece a mudar mais aceleradamente a sua posição sobre alterações climáticas". "A emergência da Índia como potência mundial obriga ao mesmo", defendeu ainda.

Sobre Portugal, considerou que o país tem "obrigação de acelerar" o passo nas energias renováveis. "Chegar, se possível, antes de 2030, com perto 80% da energia renovável, porque isso significa, também, menor dependência energética em relação ao exterior", declarou, destacando a importância de o país não depender tanto "de contingências que obrigaram grandes economias como a Alemanha, como a Itália, como os países de Leste, isto é boa parte dos países europeus, que, quando de repente surgiram problemas no fornecimento do gás russo, a terem de procurar a correr gás, por todo o lado e, nalguns casos, até a acentuar a quota de petróleo ou de combustíveis petrolíferos".

Questionado sobre a energia nuclear no caso específico de Portugal, o Presidente da República admitiu não ver vantagem, "tendo havido a opção que foi feita num tempo devido e que permitiu o crescimento das renováveis, a estar a infletir a política no sentido de introduzir o nuclear".

Quanto à exploração de lítio, Marcelo Rebelo de Susa assinalou que "é um debate que está em curso e tem havido o bom senso, até agora, de o fazer com serenidade, com protestos também e com petições muito diferenciadas antes de se tomar decisões, quer a nível global, quer sobretudo a nível de cada uma das localizações das potenciais explorações".

Ainda antes de entrar na aula, o Presidente da República voltou a afirmar que 2023 vai ser “um ano muito difícil” ao comentar as projeções da OCDE que apontam para que o crescimento económico português abrande de 6,7% este ano para 1% em 2023.

“2023 vai ser um ano muito difícil. Ninguém sabe quão difícil. Depende de a guerra durar muito ou durar pouco, depende dos efeitos da guerra continuarem muito elevados ou não, depende de a inflação começar a descer ou não crescer, depende da resolução dos problemas da energia e do custo da energia”, declarou Marcelo Rebelo de Sousa, considerando que “está todo o mundo consciente de que vai ser pior que 2022”.

O chefe de Estado comentava, em Leiria, o relatório com as previsões económicas mundiais divulgado hoje pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE).

No documento, a OCDE prevê que o crescimento económico português abrande de 6,7% este ano para 1% em 2023 e 1,2% em 2024, situando-se a inflação nos 8,3% em 2022, 6,6% em 2023 e 2,4% em 2024.