Política

Marcelo alerta para "pressão sobre democracias" e pede "compromissos políticos sólidos"

Marcelo alerta para "pressão sobre democracias" e pede "compromissos políticos sólidos"
JOSÉ COELHO

"Hoje mais do que nunca precisamos que a democracia seja capaz de mobilizar os cidadãos para os grandes debates contemporâneos, para os grandes desígnios de Portugal, para os perigos que assolam a nossa segurança coletiva", considerou

O Presidente da República alertou esta quinta-feira para "uma profunda pressão sobre as democracias" em todo o mundo e pediu em Portugal "compromissos políticos sólidos e estáveis" que deem previsibilidade à execução das políticas públicas.

Marcelo Rebelo de Sousa falava na sessão solene de abertura do ano académico de 2022/2023 do Instituto da Defesa Nacional (IDN), em Lisboa, numa intervenção em que descreveu Portugal como "um país vulnerável" à conjuntura externa, mas que também pode ter "ganhos objetivos em tempos de maior incerteza, risco ou aleatoriedade".

"O investimento externo em curso, o turismo, a procura de residência segura aí estão para o confirmar, como o estiveram durante a II Guerra Mundial", apontou.

Em tom de alerta, o chefe de Estado afirmou que "o mundo em 2022 é caracterizado, entre outras dimensões, por uma profunda pressão sobre as democracias, com a concorrência alastrada de modelos autoritários e híbridos cujo encanto colhe não só em países dentro e fora da Europa mas também em partidos que conquistaram espaço nos sistemas democráticos ocidentais do que nos últimos anos".

"Hoje mais do que nunca precisamos que a democracia seja capaz de mobilizar os cidadãos para os grandes debates contemporâneos, para os grandes desígnios de Portugal, para os perigos que assolam a nossa segurança coletiva", considerou Marcelo Rebelo de Sousa.

"Essa mobilização deve partir de compromissos políticos sólidos e estáveis, dando a consistência indispensável à permanência dos nossos interesses nacionais, independentemente dos sucessivos contextos estratégicos, fazendo da previsibilidade na execução das políticas públicas uma virtude comparativa", acrescentou, sem especificar a que compromissos se referia.

O Presidente da República salientou que existem atualmente "à escala global menos democracias do que há dez, vinte anos".

"A democracia precisa de ser cuidada na forma e no conteúdo, preservada nos seus valores inegociáveis, reformada nos seus elementos mais cristalizados, rejuvenescida nos seus protagonistas, numa adaptação às grandes transições que o mundo de facto atravessa e numa capacidade de resposta a problemas concretos de pessoas de carne e osso que formam as comunidades e são tantas vezes tão diferentes da visão dos ciclos políticos e mediáticos específicos", defendeu.

A crise do "modelo chinês" e "atenção redobrada" ao Irão

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, considerou ainda que o mundo está a assistir "a um modelo chinês em crise" e pediu "atenção redobrada" à situação no Irão.

"O Irão vive um processo de revolta anti-teocrática assente na defesa dos direitos das minorias étnicas com origem fora das grandes cidades, com papel fundamental das mulheres e dos jovens, que precisa de atenção redobrada e bem informada", afirmou.

Quanto à China, o chefe de Estado assinalou que "desde 1990 que a economia chinesa não crescia abaixo da média asiática", que "a dívida pública aumentou 40 pontos percentuais numa década, e a natalidade caiu para metade".

"Se as disrupções logísticas e o arrefecimento económico foram patentes e transversais durante a pandemia, a política da covid zero e as medianas taxas de vacinação travaram a recuperação chinesa, cujo crescimento neste ano é três vezes inferior à média dos últimos 30 anos", acrescentou.

Segundo o Presidente da República, a República Popular da China tem uma "parceria estratégia com a Federação Russa com traços mais do que musculados semelhantes", mas não se trata de "uma aliança entre iguais", porque a China é "uma potência global emergente" e a Rússia "uma potência regional a querer ressurgir como global".

"A postura da Rússia na Ucrânia é incómoda para a China, protelando ainda mais a sua recuperação económica, e é nomeadamente no aproveitamento destas dissonâncias que deve estar o foco euro-americano, não se satisfazendo com o simplismo geoestratégico de tratar como iguais pesos e situações que são bastante diversos", defendeu.

Sobre a invasão russa da Ucrânia, observou que, "até ao momento, o ensaio, se disso se tratou, de recuperar poder global onde havia poder regional não tem beneficiado de perceções obviamente certeiras nem de demonstrações estratégicas, políticas e militares suficientemente convincentes".

Na sua intervenção, Marcelo Rebelo de Sousa falou de passagem sobre o Brasil – onde no domingo Lula da Silva foi eleito Presidente derrotando o chefe de Estado em exercício, Jair Bolsonaro – que apontou como uma de "várias potências regionais em processo de transição".

No seu entender, o Brasil "acompanha as tensões populistas à esquerda e à direita que vão adiando o futuro da América Latina, mas pode ter mais uma oportunidade geoestratégica, se conseguir preservar a coesão interna, se afirmar um duradouro poder económico e uma prospetiva visão internacional".

Na sua análise da conjuntura global, o Presidente da República mencionou também a Nigéria, fornecedor de gás a Portugal, declarando: "Parece ter encontrado, para já, uma estabilidade mínima que a projete no debate energético e securitário internacional. Assim essa estabilidade resista às pulsões externas motivadas por cobiças ou interesses terceiros com eco interno".

Ainda relativamente à guerra na Ucrânia iniciada em 24 de fevereiro, Marcelo Rebelo de Sousa sustentou que "a centralidade da NATO na segurança europeia acabou por ver reconhecida uma forma extra, com a materialização da ameaça militar russa, com as recentes adesões da Suécia e da Finlândia em quase concretização, e com a coesão institucional renovada nos últimos anos".

O Presidente da República manifestou a expectativa de que "a União Europeia se mantenha unida, seja lúcida, preserve o elo essencial ao mais poderoso aliado transatlântico, saiba adaptar-se às novas realidades", sem esquecer o resto do mundo.


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