Política

Papéis invertidos. Como o PS quer esvaziar o PSD e ocupar o centrão

22 outubro 2022 20:35

Rita Dinis

Rita Dinis

Jornalista

Montenegro e Costa na primeira reunião depois do início de funções do líder do PSD

nuno fox

Governo tem como trunfo OE de contas certas. PSD com dificuldade para ajustar discurso

22 outubro 2022 20:35

Rita Dinis

Rita Dinis

Jornalista

Quando, na última segunda-feira à noite, António Costa subiu ao palco do Capitólio, em Lisboa, para inaugurar um conjunto de sessões de apresentação do Orçamento do Estado (OE) a militantes e simpatizantes do PS, apresentou-se como o primeiro-ministro da “estabilidade financeira” e das “finanças públicas sãs”. Aquele que quer, em 11 anos de governação (ou mais), passar um testemunho melhor à geração seguinte: estabilidade na Segurança Social, mais emprego e rendimento líquido a aumentar. Para lá chegar, disse, há uma regra: “Reduzir a dívida. É isso que nos dá liberdade.” Em quase meia hora de discurso, nem um ataque político ao PSD, nem uma referência à oposição. Fernando Medina tinha feito o mesmo na entrevista que deu ao Expresso na semana passada: a ordem é ignorar.

Depois de ter conquistado uma maioria absoluta à custa do esvaziamento da esquerda, o Governo de António Costa está apostado em esvaziar o PSD, e o PSD, impedido de criticar o discurso das “contas certas” que já foi seu, luta como pode para recordar os habituais desfechos das governações socialistas e para se descolar da austeridade da troika que lhe ficou colada à pele durante a governação de Passos Coelho (que esta semana voltou de forma inusitada pela mão de Marcelo Rebelo de Sousa, ver pág. 15). Os papéis estão invertidos, até no apoio ou falta dele à semana horribilis do Presidente da República (ver caixa), que deixou socialistas desconfortáveis pela forma “estranha” com que Costa segurou o Presidente em nome da estabilidade das instituições — quando nem Montenegro o fez. Isso foi visível nas jornadas parlamentares do PSD, onde Montenegro invocou o “pântano” de Guterres e a “bancarrota” de Sócrates para vaticinar que, tal como eles, também Costa vai “atrapalhar-se, tropeçar e passar um testemunho em piores condições”. Ainda assim, não deixou de admitir que o défice controlado e a dívida a descer (muito à custa da inflação) são um “princípio” positivo. Para Montenegro, contudo, essa nova “coroa de glória” do PS vai traduzir-se num “empobrecimento” generalizado.