Política

"Somos Governo, não somos oposição" - Santos Silva traça manual de instruções para a maioria absoluta

12 setembro 2022 22:13

Rita Dinis

Rita Dinis

Jornalista

paulo cunha

Presidente do Parlamento quer Governo a aproveitar a maioria para desenhar “estratégia de reformas do país” e não se limitar a responder às questões urgentes. Santos Silva sugere aos socialistas que não tirem os olhos de três grupos da população e diz que só a esquerda democrática pode combater os populismos

12 setembro 2022 22:13

Rita Dinis

Rita Dinis

Jornalista

Prestes a fazer seis meses de Governo e com o ano parlamentar a arrancar neste mês de setembro, uma pergunta assalta as mais altas vozes socialistas: “O que queremos fazer com esta maioria absoluta?” Que marca deixar? Para onde ir, agora que os portugueses deram uma maioria absoluta ao PS e um voto de confiança a António Costa? Augusto Santos Silva foi às jornadas parlamentares do PS, em Leiria, responder à sua maneira: “Somos Governo, não somos oposição". Logo, a resposta tem de ser, por um lado, agir na resposta aos problemas urgentes, mas também agir numa “estratégia de reformas” de olhos postos em três segmentos: na grande base eleitoral do PS (classe média, popular e pensionistas), nos mais vulneráveis (que são os mais permeáveis aos extremismos) e nas jovens famílias, que são “o futuro”.

“Nós temos hoje condições únicas de unidade entre nós, condições únicas de exercício da maioria parlamentar e condições únicas associadas à enorme confiança que as pessoas depositam no nosso secretário-geral e primeiro-ministro. A questão é o que é que queremos fazer com estas condições únicas", questionou num jantar com os 120 deputados socialistas. “Não devemos desaproveitar estas condições únicas e temos de fazê-lo em dois planos”, prosseguiu o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros e presidente da Assembleia da República

O primeiro plano é o da "resposta às urgências do momento", e passa pelas medidas de combate às crises conjunturais: primeiro foi a mudança de políticas para a saída do procedimento por défices excessivos, depois foi a pandemia da Covid-19 e agora é a crise energética e da inflação que deriva da guerra na Ucrânia. O segundo plano é da “construção do nosso próprio programa e a estratégia de reforma do país”, disse. Mais igualdade, subida de salários, descentralização, proteção social, menos obstáculos no acesso aos serviços de educação e de saúde, mais crescimento económico e mais liberdade foram algumas das “reformas” que Santos Silva enumerou como transversais ao programa do PS que o Governo não deve perder de vista.

Santos Silva à conversa com o líder parlamentar do PS e com o ex-ministro Vieira da Silva

Santos Silva à conversa com o líder parlamentar do PS e com o ex-ministro Vieira da Silva

paulo cunha

“Não temos de nos preocupar com a oposição, porque não somos oposição, somos Governo. Temos de nos concentrar na nossa atividade em termos de governo e de grupo parlamentar e aproveitar a articulaçao harmoniosa entre os dois planos”, disse, pedindo, de forma velada, mais ação à dupla Governo/PS.

E mais ação sobretudo tendo em vista três “grupos particulares” da população: o primeiro é a “base eleitoral” do PS. “Somos os representantes das classes populares e das classes médias em Portugal, somos o grande partido da classe popular em Portugal e somos os representantes de todos os que querem um país democrático, livre, inclusivo, que acolhe bem os estrangeiros e que está bem integrado na Europa”, disse, pendindo aos deputados socialistas e ao Governo que nunca perca essas pessoas da vista.

Combate à extrema-direita é um combate do PS, diz Santos Silva

O outro grupo sobre o qual o Governo deve agir é o dos cidadãos mais vulneráveis e que estão no limiar da pobreza, porque “são a presa fácil da demagogia e do populismo”. Segundo Santos Silva, que tem chamado a si a defesa dos direitos constitucionais e democráticos na Assembleia da República, em oposição à intervenção do Chega, o combate à extrema-direita é um combate do qual o PS não só não se pode demarcar como se deve mesmo envolver.

“Temos de fazer esse combate”, disse, dando os exemplos do que se passou recentemente na Suécia, com o grande avanço da extrema-direita nas urnas, ou há mais tempo em Itália, para dizer que “só a esquerda democrática pode fazer esse combate”. “Quem ficar à espera da direita para combater os populismos e os extremismos bem pode ficar sentado”, disse, sublinhando que o combate se faz na compreensão das dificuldades dos mais vulneráveis e na procura de respostas para resolver essas mesmas dificuldades.

Por fim, o terceiro grupo de pessoas que o Governo não pode perder de vista, no entender de Santos Silva, é o grupo dos jovens e das jovens famílias, que representam "o futuro". E para isso, avisou Santos Silva, o Governo deve continuar a agir na política de emprego, condições de trabalho e política de habitação e deve “continuar a agir cada vez mais” nessas áreas. “Essas jovens famílias da classe média estão em posição de vulnerabilidade e só o PS, só o Governo, tem respostas positivas de futuro para elas”, disse, aconselhando os socialistas a não perder de vista esse nicho eleitoral.

Traçado o manual de instruções para a maioria absoluta, Santos Silva deixou ainda explicações aos que, dentro do seu partido, têm dúvidas ou críticas sobre a sua forma de atuação na Assembleia da República, como parece ter manifestado Carlos César. “Cumprir escrupulosamente as obrigações regimentais e constitucionais é a minha obrigação, não faço mais do que isso nem menos do que isso. Se algum deputado ou deputada nao compreende isso, o tempo encarregar-se-á de fazer com que comrpeenda”, atirou, referindo-se à sua relação particular com o partido de André Ventura.