Política

Rio reuniu-se com Montenegro e Mota Pinto elogia novo líder. Unidade à vista?

2 junho 2022 17:51

Rita Dinis

Rita Dinis

Jornalista

rui duarte silva

Começou a transição de pasta. Apesar de Luís Montenegro só assumir plenas funções no congresso de 3 de julho, reuniu-se esta quinta-feira com Rui Rio para passar a pasta "tanto do ponto de vista logístico como político". Paulo Mota Pinto, líder parlamentar escolhido por Rio, ainda não esclareceu se vai pôr o lugar à disposição, mas desdobrou-se em elogios ao novo líder e mostrou vontade em continuar: "Vai trazer uma nova dinâmica de combate político"

2 junho 2022 17:51

Rita Dinis

Rita Dinis

Jornalista

A nota foi tornada pública na página oficial do PSD: "O presidente do PSD, Rui Rio, recebeu esta tarde o líder eleito, Luís Montenegro, na sede do partido em Lisboa. Em cima da mesa esteve todo o processo de transição da liderança, tanto do ponto de vista logístico como político. Os dois abordaram ainda temas relacionados com a atualidade política nacional e do partido", lê-se.

Começa assim a transição de pasta "à moda dos homens bons", como tinha prometido Luís Montenegro no discurso da vitória, no último sábado. No mesmo discurso, disse também que se iria reunir esta semana com o presidente da bancada, Paulo Mota Pinto, para saber se há ou não condições para manter a liderança da bancada. Mais do que o líder dos deputados, o líder parlamentar é parte integrante da estratégia de direção do partido, uma vez que tem assento, por inerência, no órgão mais restrito de direção. Por enquanto, contudo, não há qualquer notícia pública de que esse encontro já tenha acontecido.

Ao que o Expresso apurou, a direção da bancada parlamentar do PSD reuniu-se esta quinta-feira de manhã com isso em vista. Alguns vice-presidentes mostraram disponibilidade em pôr o lugar à disposição, e deverá ser essa a posição do líder parlamentar. Mas não para já. A questão só se deverá colocar depois do congresso - uma vez que, até lá, Rui Rio ainda é líder. O tema não foi sequer abordado na reunião da bancada parlamentar desta manhã, que foi apenas dedicada à agenda parlamentar. Vários deputados questionaram a direção sobre como votaria o PSD as iniciativas sobre a eutanásia, mas Mota Pinto disse que isso ainda está "em aberto". O debate está marcado para o próximo dia 9 e resta saber como vai o PSD votar a proposta do Chega para a realização de um referendo, uma ideia que Luís Montenegro defende, ao contrário de Rui Rio.

Enquanto isso, Paulo Mota Pinto tem-se desdobrado em iniciativas. Depois de ter estado ao lado de Rio no congresso do PPE, em Roterdão, foi hoje discursar a um almoço do International Club, onde elogiou Luís Montenegro e mostrou disponibilidade em trabalhar com ele: “Pode trazer uma dinâmica de combate político, que espero favoreça e farei todo o possível para que possa favorecer o PSD”.

No almoço-debate do International Club of Portugal, em Lisboa, com o tema "Os grandes desafios de Portugal", Mota Pinto foi questionado por um dos participantes porque é que nunca tinha admitido ser líder do PSD e foi aí que se mostrou disposto a trabalhar junto do novo líder recém-eleito. "Nós temos um presidente eleito e que eu acho que pode trazer uma dinâmica de combate político, que espero favoreça e farei todo o possível para que possa favorecer o PSD”, afirmou depois de classificar como “descabidas, deslocadas e até um pouco deselegantes” quaisquer especulações sobre a presidência do PSD, já que o partido teve eleições diretas no sábado.

Ainda assim, o líder do PSD invocou a sua experiência pessoal – o pai Carlos Mota Pinto foi líder do PSD e primeiro-ministro – para salientar os “custos pessoais” que esses cargos trazem. “Não é algo que esteja nos meus planos, nem nunca esteve”, disse.

Na sua intervenção, Paulo Mota Pinto apontou cinco áreas “em que Portugal enfrenta desafios importantes e em que são necessárias reformas”: saúde, justiça, demografia, sistema político e, como desafio central, o crescimento económico. Na área da justiça, o líder da bancada social-democrata considerou os últimos anos de governação socialista como “uma legislatura perdida” e deixou um elogio inesperado ao antigo primeiro-ministro José Sócrates.

“Lamento dizer isto, mas este Governo e este primeiro-ministro são os menos reformistas e os mais conservadores desde o 25 de Abril. O engenheiro Sócrates, com todos os defeitos que tinha, era mais reformista e mostrava mais vontade de atacar alguns interesses instalados do que o atual primeiro-ministro”, afirmou.

Na saúde, Mota Pinto considerou ser necessário “abandonar os preconceitos ideológicos” e fazer “uma avaliação custo-benefício” de quem presta os melhores serviços em cada caso, se o setor público ou o privado. Quanto ao crescimento económico, Mota Pinto desafiou o primeiro-ministro a não dizer apenas que “a história explica” que Portugal esteja a ser ultrapassado nos últimos anos por vários países da zona euro. “Isto não pode ser um álibi, não há aqui nenhum fatalismo histórico (…) Penso que o problema fundamental foi não prosseguirmos as políticas corretas”, considerou.

Sobre o sistema político, Mota Pinto defendeu ser necessário “um debate amplo” entre PSD e PS e considerou o resultado das legislativas de 30 de janeiro “a maioria mais acidental que houve em Portugal”, aproveitando para deixar algumas críticas aos anúncios de diálogo por parte dos socialistas. “A prática não tem sido assim: negociar o Orçamento apenas com PAN, Livre e os deputados do PSD-Madeira (…) não é uma prática muito sã e contradiz a disponibilidade para o diálogo”, afirmou.

Dizendo não querer normalizar o Chega, Mota Pinto considerou que o crescimento da extrema-direita nos últimos tempos em Portugal se deveu a alguma “correção” histórica do sistema político, que “estava enviesado para a esquerda”. “Tínhamos extrema-esquerda e não tínhamos extrema-direita, na minha opinião ambas igualmente bastante censuráveis e não normalizáveis”, disse.

O líder parlamentar do PSD salientou que o partido tinha pronto um projeto de revisão da lei eleitoral – que poderá ser rapidamente entregue no parlamento caso essa seja “uma prioridade política” da nova direção – que passava pela redução dos atuais círculos eleitorais e pela limitação de mandatos dos deputados. “Será que temos força, será que temos vontade de atacar estes problemas? Sinceramente, não vejo muita da parte da atual maioria absoluta. Da minha parte e enquanto tiver alguma responsabilidade, o PSD não deixará de o fazer”, assegurou.

Marcaram presença no almoço de Paulo Mota Pinto vários deputados, entre eles quase toda a direção da bancada: os ‘vices’ André Coelho Lima, Paula Cardoso, Paulo Rios de Oliveira, Catarina Rocha Ferreira e Fátima Ramos e os secretários Hugo Carneiro e Sofia Matos.

Os deputados Joaquim Sarmento, Nuno Carvalho, Carlos Eduardo Reis, Cláudia André ou Tiago Moreira de Sá, o antigo líder do CDS-PP José Ribeiro e Castro, o antigo ministro democrata-cristão Mota Soares, o antigo ministro das Finanças Eduardo Catroga e o ex-presidente do AICEP Pedro Reis foram outras das presenças no almoço.