Política

Gastos com a GNR não deviam contar para a NATO, diz ex-CEMGFA

24 abril 2022 19:58

Vítor Matos

Vítor Matos

Jornalista

O general Valença Pinto diz que Portugal inclui a GNR no orçamento da Defesa que reporta à NATO "para tornar mais interessante os gastos"

24 abril 2022 19:58

Vítor Matos

Vítor Matos

Jornalista

Os valores que Portugal reporta à NATO não deviam incluir o orçamento da GNR, defendeu Luís Valença Pinto, general do Exército na reforma e antigo chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas (CEMGFA), depois de questionado na conferência sobre “Os desafios da Defesa europeia num novo contexto de segurança”, realizada esta terça-feira a bordo do porta-helicópteros francês “Dixmude” e organizada pela Embaixada de França.

O general começou por dizer que mais do que por um indicador como os 2% do PIB gastos em Defesa, bateu-se junto dos ministros pelas "capacidades" necessárias para as Forças Armadas. Quanto ao facto de as despesas militares serem insufladas pelas 'gendarmeries' em vários países, Valença Pinto entende que o orçamento da GNR faz parte da Administração Interna e não da Defesa. A NATO, porém, aceita que os Estados-membros incluam as forças militarizadas e as pensões dos militares na conta para chegarem ao compromisso de 2% do PIB: sem a GNR, Portugal gasta 1,1% do PIB em Defesa; com a Guarda o valor sobe para 1,5%. Segundo o general, Portugal inclui a GNR “para tornar mais interessante os gastos” e os aliados verem, mas “em nome da pureza de raciocínio, uma coisa é considerar a GNR, outra a política de Defesa Nacional”.

No painel moderado por Isabel Nunes, a nova diretora do Instituto de Defesa Nacional, e em que participou Ana Paula Abreu, subdiretora-geral de Política Externa, o antigo CEMGFA fez uma intervenção a sublinhar a importância dos “desafios do sul” mesmo com a guerra a leste, porque a Rússia continua militarmente ativa na Síria, no Norte de África e no Sahel — onde operam os mercenários do Grupo Wagner (que o Kremiln não reconhece como estando sob o seu comando). “A NATO sozinha não tem condições para assegurar a segurança do Sul da Europa”, por isso defende um maior empenho da União Europeia nesta região onde a França, anfitriã da conferência, também tem interesses.

Apesar desta visão, que coincide com a posição tradicional da diplomacia portuguesa, Valença Pinto reconheceu a importância do Ártico, cujos “recursos e controlo de rotas” são disputados por Canadá, Estados Unidos, países europeus e Rússia. E concluiu com um “apelo à diplomacia para que exerça no Ártico a prevenção de conflitos”.

Depois de classificar a invasão da Ucrânia como uma das consequências do "complexo de cerco russo", Ana Paula Abreu traçou um roteiro pelas zonas onde a Rússia foi ajudando à instabilidade como no Sahel ou nas guerras iniciadas depois das Primaveras Árabes. "A guerra na Ucrânica teve um impacto mobilizador" no ocidente " que funcina como um efeito adverso para Putin, reforçando a unidade europeia", disse a diplomata.

Numa conferência em que sobretudo a diretora do IDN falou na nova Bússola Estratégica da Defesa europeia, nenhum dos presentes respondeu à questão sobre a mudança de paradigma que neste domínio poderia implicar uma eventual eleição de Marine Le Pen como Presidente francesa.

Nota: Este texto é uma versão mais longa do que foi publicado na edição impressa