Política

Capitão de Abril Sousa Castro arrasado após comentário sobre judeus no Twitter. Embaixador chama-lhe “antissemita primitivo”

antónio pedro ferreira

Rodrigo Sousa Castro escreveu num post que os judeus “têm as vacinas que quiseram”. “É uma espécie de vingança histórica”, atirou. Associações judaicas já reagiram e atacaram o capitão de Abril, pedindo consequências: “O discurso de ódio e de xenofobia nunca é indiferente e não deve passar em claro”, diz a direção da Comunidade Israelita de Lisboa

8 fevereiro 2021 17:19

O antigo capitão de Abril Rodrigo Sousa Castro escreveu um comentário polémico no Twitter sobre o acesso de judeus às vacinas contra a covid-19, que já lhe valeu um conjunto de reações críticas de associações judaicas. "Os judeus, como dominam a finança mundial, compraram e têm as vacinas que quiseram. É uma espécie de vingança histórica. E mais não digo antes que os bulldogs sionistas saltem", afirmou o ex-porta-voz do Conselho da Revolução, esta sexta-feira num post no Twitter, que foi, entretanto, apagado.

O embaixador de Israel em Portugal e várias associações não demoraram a reagir e atacaram o capitão de Abril, pedindo consequências. "Como orgulhoso bulldog sionista posso prometer que se Israel desenvolver uma cura para a Covid-19, o Coronel Sousa e Castro terá acesso a ela caso precise. Quando se trata de medicina, não excluímos nem antissemitas primitivos nem racistas ignorantes, mesmo que o seu presente não seja tão glorioso como o seu passado", declarou o embaixador Raphael Ganzou.

Considerando que se trata de uma publicação "profundamente antissemita", "preconceituosa" e "provocatória", a Comunidade Israelita de Lisboa defendeu em comunicado que a mesma "não deve passar sem consequências": "O discurso de ódio e de xenofobia nunca é indiferente e não deve passar em claro"."Liberdade rima com responsabilidade. Faltou-a a Rodrigo Sousa Castro, militar de Abril, numa publicação que merece o repúdio da Comunidade Israelita de Lisboa e cujo conteúdo e tom lamentamos", acrescentou a Comunidade Israelita de Lisboa.

Também a Comunidade Israelita do Porto (CIP) condenou as declarações "antisemitas" de "vultos influenciadores da sociedade portuguesa", sublinhando que põem em causa a "respeitabilidade e a segurança dos judeus em geral" e das "comunidades judaicas em particular".

A Associação Lusa Portugueses por Israel disse que as declarações em causa são "absolutamente inaceitáveis", sobretudo vindas de alguém com a "visibilidade" e "responsabilidade" do ex-capitão de Abril. "A Associação nunca deixará de se manifestar contra declarações de ódio atentatórias da verdade e da dignidade do povo judeu, assim como do Estado Judeu e dos cidadãos de Israel, como um 'bulldog sionista' preparado e destemido", afirmou, acrescentado que Israel está avançado no plano de vacinação contra a covid-19 porque dispõe de um serviço rápido na Saúde com acesso a uma base de dados "altamente centralizada".

Andrew Srulevitch, diretor de Assuntos Europeus para a Liga Anti-Difamação, um grupo internacional que monitoriza grupos anti-semitas, admitiu, por sua vez, estar "desiludido" com o facto de ver um herói da Revolução de Abril partilhar um comentário negativo só pelo facto de Israel estar mais avançado no plano de vacinação. "Damos todo o apoio às pequenas comunidades de judeus no Porto e Lisboa, que denunciaram orgulhosa e publicamente este ódio", sublinhou Andrew Srulevitch.

Perante a polémica, Rodrigo Sousa Castro recuou e viu-se obrigado a pedir desculpa esta segunda-feira pelo seu comentário, numa resposta direta ao embaixador de Israel em Portugal, que garantiu que o ex-capitão de Abril terá acesso a um medicamento contra a covid-19 caso o país o descubra. "Muito obrigado. Por um lado já tentei, sem sucesso pelos vistos, esclarecer que errei ao falar genericamente em judeus e, por isso, peço desculpa. Por outro lado, prescindo da cura e ofereço-a a um palestiniano dos territórios ocupados por Israel", respondeu com ironia.

Rodrigo Sousa Castro foi porta-voz do Conselho da Revolução a seguir à revolução de1974, tendo sido pouco mais de uma década depois diretor na campanha presidencial de Maria de Lourdes Pintassilgo, em 1986. Há seis anos, foi cabeça-de-lista do Partido Democrático Republicano (PDR) por Lisboa nas legislativas.