O novo anormal
24.02.2020 às 13h11
O gesto de Marega não calará um grunho. Mas o nosso silêncio passou a não ter desculpa. O normal passou a ser menos normal
Não foi há muitos anos que se viu, no estádio de Alvalade, uma tarja em que Eusébio era chamado “macaco”. Em 2012, membros das claques benfiquistas imitaram um símio para humilhar Hulk. No mesmo ano, o Porto foi punido pela UEFA pela mesma razão. Renato Sanches viveu o mesmo em Vila do Conde e Nelson Semedo em Guimarães. Em 2017, o Braga foi castigado com um jogo à porta fechada pelo mesmo. Nem o racismo é coisa nova nos estádios, nem a clubite faz sentido neste tema. Então, porquê a indignação? Porque uma das suas vítimas reagiu. Não foram os adeptos que ficaram mais racistas ou o país mais sensível. Aqueles cânticos guturais são o ecoar de séculos de desprezo, umas vezes paternalista, outras agressivo, conforme o bom comportamento dos “macacos”. A novidade foi Marega que a trouxe. Levantou a cabeça e disse: chega! E traçou uma nova linha do intolerável. E não venham com conversa sonsa. Aquele cântico não era o desabafo alterado pela adrenalina, apesar de ela justificar sempre a latrina moral em que se transformaram os estádios. Era um cântico coletivo, entoado para humilhar o destinatário com um racismo alarve.
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