Política

Uma manifestação tão fofinha que até inclui ministros

25 abril 2019 23:09

Nem uma palavra crítica, muito menos de protesto ao Governo. O habitual desfile do 25 de abril, na avenida da Liberdade, foi feito ao som de palavras doces e hinos de louvor à Revolução dos Cravos. Em tempos de "geringonça", os revolucionários baixaram as guardas e desfilaram lado a lado com o Governo.

25 abril 2019 23:09

A ministra da Saúde passeava, sorridente, de cravo na mão, aproveitando o sol do dia feriado enquanto o novo ministro das Infraestruturas e Habitação, Pedro Nuno Santos, seguia avenida a baixo, de calças de ganga, e sorriso rasgado.Um pouco à frente, o secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, António Mendonça Mendes, juntava-se à coluna da Juventude Socialista que, a plenos pulmões, gritava: "Queremos revolução, socialistas em ação". Mas ele, aliás como todos os outros, não parecia disposto a atos revolucionários. Ficou a falar com um outro manifestante, tão calmo como se de um passeio no parque se tratasse.

E, na verdade, foi isso mesmo. A manifestação do 25 de abril, este ano, optou pela versão português ultra-suave. Como o veludo, não teve um ponto de atrito ou de fricção. Tudo na paz dos anjos: nem uma palavra de ordem, nem um cartaz ou faixa tocou, ou beliscou sequer o Governo.

Se há problemas com a lei de bases da saúde, não foram para aqui chamados. Nem, na verdade, as leis laborais, a crise dos professores, a degradação dos serviços públicos, a carga fiscal ou o imenso rol de queixas que a própria aliança de esquerda desfila no Parlamento e nos comícios que faz pelo país. O tempo é de harmonia. A Avenida é da Liberdade, mas, aos 45 anos da revolução, passou a ser palco para a livre expressão do amor aos valores de Abril.

tiago miranda

As velhas máximas gritadas de "Governo para a Rua" não passaram por aqui. Nem comunistas foram além do "25 de abril sempre, fascismo nunca mais", enquanto os pioneiros que começam agora a ingressar nas fileiras do partido entoavam o que mais parecia um cântigo celestial: "Somos a esperança, em cada criança há sinais de mundança", gritavam avenida abaixo.

O mundo muda e dá muitas voltas. As Juventudes Comunistas e Socialistas desfilaram uma a seguir à outra, de acordo com o guião previamente definido para entrada na manifestação. Sem problema. Os jovens do PCP até ensairam uma inovadora coreografia que implicava recuar aos poucos, enquanto se gritava "andamos para trás com a política de direita". Uma situação que podia ser de choque com o adversário político socialista. Mas, não foi. Travavam a tempo e corriam para recuperar o terreno perdido, enquanto os jovens socialistas continuavam na deles a pedir "revolução", mas com cartazes doces como o que pedia "acesso justo ao ensino superior".

Qualquer semelhança com um protesto é pura coincidência. Dois franceses, de colete amarelo vestidos, empunhavam dois cartazes anunciando "solidarieté des gillets jaunes". Nada podia ser mais deslocado. Na verdade, em abril, em Portugal não há verdadeiros inimigos a abater, muito menos em quem bater. A avenida da liberdade é um passeio público pacífico. E, não fora o polén das arvores a inundar os manifestantes de uma camada de alergia, na verdade não havia nada mesmo a registar como incidente de percurso.