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Santana Lopes: "Somos liberais. A esquerda não tem mais prerrogativas do que a direita ou o centro"

ANTÓNIO COTRIM

Ao segundo dia, Santana Lopes fez zoom à identidade da Aliança. O Estado passa de Social a Solidário. São eurocríticos. Puxam pelos "princípios, tradições, valores e costumes da Pátria". Assumem-se como liberais. E há um aroma populista: "Onde houver injustiças, vamos estar lá". Santana não quer as meias-tintas das direitas obcecadas com o eleitorado moderado. A Marcelo pede que ponha o Conselho de Estado a puxar por um "pacto para o crescimento".

"O muro de Berlim caiu há 30 anos" e Pedro Santana Lopes encerrou o Congresso fundador da Aliança apostado em acabar com as meias-tintas em que os partidos de direita - PSD e/ou CDS - têm esquecido ou disfarçado convicções em nome da caça ao voto mais moderado. Seja na política interna, seja na postura que assumem na União Europeia.

"Somos liberais. Não queremos proibir os gostos de ninguém, mas também não aceitamos que o Estado proíba ou imponha costumes aos portugueses", afirmou. "A esquerda não tem mais direitos ou prerrogativas do que a direita ou o centro" e a Aliança posiciona-se como "um partido novo" disposto a combater "preconceitos ideológicos completamente ultrapassados".

Liberais na economia, assumem o combate ao Estado Social nos moldes atuais e contrapõem um Estado Solidário, que deve pagar consoante os rendimentos e necessidades dos cidadãos. "O Estado não tem dinheiro para satisfazer a Frente de Esquerda. Tudo tem um custo e mesmo o que alguns dizem que é tendencialmente gratuito tem um custo. O Estado só deve pagar segundo os rendimentos das pessoas. Não pode sustentar tudo e não pode sustentar empresas públicas desiquilibradas. Não podemos dar tudo a todos", afirmou.

Repetitivo nos eixos principais da sua nova cartilha, Santana insistiu nos ataques à "Frente de Esquerda (a Aliança não fala de geringonça): "Em setores essenciais o que se passou nesta legislatura é um caso de mau Governo". Insistiu nas críticas a Bruxelas, assumindo-se como lider de um partido europeista mas defensor das soberanias nacionais e crítico do atual equilíbrio entre interesse nacional e exigências comunitárias - "É imoral alguns países conseguirem cada vez maiores saldos comerciais à custa dos países mais pobres. É preciso uma maior exigência e Portugal tem que cuidar de si". Repetiu vezes sem conta os ataques ao Estado na versão Frente de Esquerda - "só a cobrar impostos é que o Estado é eficiente". Reafirmou que o crescimento económico é a prioridade - "Sem isso não vamos ter dinheiro para pagar o modelo económico e social em que queremos continuar a viver". E voltou à carga nos avisos ao Presidente da República - "O Chefe de Estado tem convidado para o Conselho de Estado dirigentes de instituições internacionais para lhes chamar a atenção para a realidade do nosso país. Poderia fazê-lo com outros poderes do Estado e ajudar a promover um pacto para o crescimento económico". A Aliança vai manter Marcelo Rebelo de Sousa na berlinda.

"Aliança! Aliança!", o novo hino do novo partido estreou-se com força no Congresso e houve nas galerias quem vislumbrasse um cheirinho da Internacional (o vibrante hino do PCP). Mas também há um cheirinho a populismo: "Onde houver injustiças nós vamos estar lá. Nas fábricas, nos hospitais, nas escolas". Marcelo, o populista que uns chamam "bom" e outros "light", vai ter concorrência.

Há duas notas a registar. Santana já pensa nas eleições regionais e passou a mão pelo eleitorado madeirense, acusando o Governo de fazer um autêntico "cerco financeiro" à Região. E começou a puxar pelos abstencionistas a pensar nos três atos eleitorais que aí vêm e que fecham com as legislativas de outubro.

Os novos dirigentes da Aliança subiram ao palco. Santana, que tinha os cinco filhos a assistir e uma neta a chamar pelo "avô", puxou pelos galões do lance político que arriscou ao cortar com o PSD: "Que outra nova força politica foi capaz de fazer isto em tão pouco tempo?"

  • Dos sete vices de Santana quatro eram do PSD. E uma é a advogada de Madonna

    A Aliança nasce a uma só voz - a lista única para todos os orgãos do partido passou sem votos contra. O partido novo foi à pesca no partido velho. Quatro dos sete vices de Santana Lopes eram do PSD. Entre os novos há um gancho mediático: Ana Pedrosa Augusto, à esquerda na imagem, que é advogada de Madonna.

  • O Pedro tem um partido. E então?

    Santana Lopes fez tantos discursos em congressos, falou tanto na televisão, disse tanta coisa, que a intervenção fundadora do líder foi mais um discurso "do Pedro". No seu primeiro dia, o Aliança não provou ser a novidade que vá mudar a política portuguesa.

  • "Corta, cativa, come e cala. Mas que país é este? Isto tem que mudar!" 

    O partido é novo mas Santana é o mesmo animal político. A "geringonça" passou a "Frente de Esquerda de comunistas, socialistas e extrema esquerda". E a Aliança "não se vai calar". Costa foi acusado de crimes "de lesa pátria". Marcelo desafiado a intervir. E o PSD espicaçado: "Haverá alguém que não seja da Frente de Esquerda disposto a dizer a este PM: nós estamos cá?"

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    No congresso fundador do Aliança, o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros citou Marguerite Yourcenar: "A política é a arte de ocupar os espaços". É o que Santana Lopes está a tentar fazer.

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    Santana pôs dois jovens a apresentarem a sua moção de estratégia. Objetivo: lançar rostos novos. Ana Pedrosa Augusto, advogada, tem um ar "gauche". Bruno Ferreira da Costa, professor de Ciência Política, precisa de treinar a voz. São eles os novos ponta de lança da Aliança. "Este é um momento libertador de uma agenda destruidora do nosso património comum"