Costa, o grande anestesista
27.05.2018 às 18h29
Congresso do PS, na Batalha, a 27 de maio de 2018
TIAGO MIRANDA
Anestesiou o PCP, o Bloco, mas agora também o PS, como se viu no congresso da Batalha. Pedro Nuno marcou, mas o líder fez saber que o anúncio da sua reforma é prematuro. Costa só vai destrunfar a sério antes das eleições. A análise do editor de Política do Expresso ao Congresso do PS
Este era um congresso para cumprir calendário. E com este calendário era arriscado para António Costa tornar o congresso mais interessante do que foi. Se apresentasse medidas para o Orçamento do Estado, limitava a margem negocial com os parceiros cujas conversações estão a começar. Se viesse para a Batalha destrunfar ases para as campanhas eleitorais das europeias e das legislativas, estava a falhar o timing certo: as duas convenções do partido marcadas para 2019. Portanto, Costa tinha de criar a ilusão de que havia alguma ação de onde não resultasse movimento: e da ação que houve, o movimento que resultou foi pouco ou nenhum.
A meio do congresso, Francisco Assis elogiou Costa por ter “anestesiado” o Bloco de Esquerda e o PCP. Mas o secretário-geral do PS foi um anestesista mais abrangente porque anestesiou também o seu próprio partido: arrumou o debate ideológico com duas ou três frases no primeiro discurso, recolocou Pedro Nuno Santos no lugar quando disse que ainda não tinha metido os papéis para a reforma - só faltou perguntar “qual é a pressa?” -, tirou Sócrates da agenda, fez um relatório burocrático da governação na última intervenção e nem se deu ao trabalho de levantar o congresso. O próprio Costa nunca levantou o congresso (já não precisa disso).
Os dois ou três momentos altos para o povo socialista foram os aplausos em pé a Ana Catarina Mendes e a Pedro Nuno Santos (mas também a uma imagem de Mário Centeno projetada no écran gigante por causa do défice mais baixo da democracia).
Se Costa desnatou o “iogurte”, Pedro Nuno Santos não desiludiu e protagonizou o ponto mais alto do congresso: prometido e cumprido. Disse as coisas de esquerda que as bases socialistas adoram ouvir por achar que a esquerda liberal da Terceira Via destruiu os partidos socialistas europeus, foi buscar conceitos inspiradores ao marxismo, e rematou: “Não é radicalismo, é socialismo!” Os delegados levantaram-se a aplaudir - Pedro Nuno tem uma claque imensa de várias gerações de jotas -, mas os mesmos que o fizeram também aplaudiram Mário Centeno com entusiasmo.
De um lado o PS mostrou o coração a pender para a verdadeira esquerda. Do outro, manteve o pragmatismo cerebral que permite ao PS fechar o ciclo da retórica de que era possível reduzir o défice com menos austeridade: o Governo cumpre objetivos de direita com discurso de esquerda. Ninguém falou, claro, da degradação dos serviços públicos nem das falhas do Estado. O grande ausente do congresso (para além de Sócrates) foi a maior catástrofe da história do Governo: os fogos. Nenhum alto dirigente mencionou a tragédia, nem as vítimas, nem as famílias. Costa ignorou o tema nos seus discursos. E só Ana Gomes e dois ou três anónimos que ninguém escutou falaram do assunto.
Mas se Pedro Nuno Santos veio para o congresso armado de argumentos, tropas e protagonismo, António Costa fez questão de arrefecer os ânimos. De uma forma muito simples, disse logo na sexta-feira que o partido está onde sempre esteve. E que os valores não servem para alimentar amanhãs que cantam, mas para se traduzirem em medidas que melhorem a vida das pessoas. Leitura: esquerda sim, é tudo muito bonito, mas pragmatismo na governação acima de tudo. Do outro lado da barricada ideológica, Augusto Santos Silva fez um contraponto quase eficaz. Em apenas três minutos apresentou todos os argumentos necessários, mas o discurso produziu poucos efeitos na sala.
Resumindo: ficámos a saber que quando voltar a haver uma disputa pela liderança, vai ser acompanhada de um debate ideológico a lembrar o que ocorreu há uns 30 anos entre a ala esquerda de Jorge Sampaio e a ala centrista e pragmática de António Guterres. Mas se o outro “challenger” for Fernando Medina, este terá de reunir tropas e fazer o circuito da carne assada. Tendo em conta a frieza com que o Congresso o recebeu tem muito trabalho de partido pela frente. Mas há tempo.
A renovação de gerações na direção no partido acabou por ser uma ação de Costa que gerou algum movimento. Num secretariado com 15 lugares, colocou oito membros do Governo. Se por um lado quer fazer uma mudança geracional com pessoas mais novas, fecha o PS sobre o Executivo e perde, assim, massa crítica no partido. É o costume: os membros do Governo dedicam-se mais à governação do que ao partido que acaba por desaparecer ou confundir-se com Executivo.
Costa sabe que o tempo corre a seu favor e que mais vale não arriscar para não estragar as sondagens e esperar pelo melhor resultado possível. Mesmo que não seja a maioria absoluta, o PS parece ter garantido para os próximos anos o lugar de partido charneira do regime. Mesmo anestesiado.