Diretores na corda bamba: ministro da Saúde exige responsabilidades no caso Huawei
26.08.2017 às 17h18
Luís Barra
Adalberto Campos Fernandes soube pelo Expresso das viagens de altos quadros do Ministério da Saúde. Ordenou uma investigação e chamou os funcionários em causa. E, apurou também o Expresso, vai tomar decisões na segunda feira.
O ministro da Saúde ordenou a abertura de uma investigação e já pediu explicações pessoais aos quadros do Ministério da Saúde que viajaram para a China no chamado caso Huawei. O Expresso sabe que Adalberto Campos Fernandes irá tomar uma decisão na segunda feira. E que a permanência dos funcionários nos cargos está em causa.
Foi pelo Expresso que o ministro da Saúde soube do caso, quando, no início desta semana, o jornal enviou uma conjunto de questões para o MInistério da Saúde. As perguntas foram respondidas e constam na edição de hoje do semanário.
O Expresso soube já este sábado, por fontes do MInistério da Saúde, que Adalberto Campos Fernandes pediu imediatamente explicações aos visados e a abertura de um investigação à Inspeção Geral das Atividades em Saúde (IGAS). O resultado da investigação demorará mas o ministro não quer esperar e vai tomar decisões já no início da semana.
Durante cinco dias, entre 2 e 6 de junho de 2015, cinco dirigentes do Ministério da Saúde estiveram na China, com despesas suportadas por empresas privadas, incluindo bilhete de avião, estada e despesas de alimentação. Tratam-se de altos quadros dos Serviços Partilhados do Ministério da Saúde (SPMS): Artur Trindade Mimoso, vogal executivo do conselho de administração, Nuno Lucas, diretor de sistemas de informação, Ana Maurício, diretora de comunicação, Rui Gomes, diretor de sistemas de informação e Rute Belchior, diretora de compras.
Artur Trindade Mimoso, vogal executivo do conselho de administração, é o caso mais delicado, pela importância hierárquica da posição que ocupa. Nomeado pelo anterior governo (a viagem, aliás, decorreu em 2015), Mimoso foi reconduzido já pelo atual governo. O responsável terá relatado já ao ministro da Saúde os contornos da viagem, afirmando-he que a viagem e as despesas foram pagas pela Huawei.
O ministro da Saúde pediu todas as explicações até segunda-feira, sabe ainda o Expresso, para "agir em conformidade". E decidir a continuidade ou não das pessoas em causa nos cargos que desempenham.
Mesmo que não exista indício de ilícito, Adalberto Campos Fernandes tem posições públicas conhecidas de há anos sobre o que pensa sobre a conduta ética na atitude e comportamento em funções do Estado na área da Saúde: tem tolerância zero.
A viagem de 2015 incluiu uma visita ao hospital de Zheng Zhou para observar como funciona o sistema de telemedicina daquela unidade de Saúde e outra à sede da Huawei, em Shenzhen, perto de Hong Kong. Como o Expresso hoje noticia, houve despesas pagas pela Huawei, não sendo ainda claro quem pagou a parte das viagens de avião, que ascendem a doze mil euros, uma vez que houve empresas parceiras da Huawei envolvidas.
A questão não é de pormenor: a SPMS garante não ter relações comerciais com a Huawei mas se a viagem também foi custeada por outras empresas privadas, e se essas empresas têm relações comerciais com a SPMS, o caso torna-se mais grave. A Huawei respondeu ao Expresso que dará explicações "em sede própria".
Além deste caso com o MInistério da Saúde, o Expresso noticiou também uma viagem à China, em fevereiro do mesmo ano, de outro alto funcionário do Estado, Carlos Santos, da Autoridade Tributária e Aduaneira. A Autoridade Tributária também já está a investigar o caso.
Nas respostas enviadas durante a semana ao Expresso, a SPMS confirmou a deslocação “suportada pela entidade que organizou a visita” e justifica-a com os “objetivos prioritários” de “adquirir e partilhar conhecimentos sobre os recursos, modelos e estratégias diferenciadoras utilizadas no âmbito da telemedicina”, visitando “toda a área de sistemas de informação do hospital”. Só não esclareceu por que razão não foi o Estado a suportar os custos da viagem.
Um magistrado ouvido pelo Expresso explica que estas viagens “estão numa zona cinzenta” da legalidade e que devem ser investigadas “para recolher prova” e “dissipar qualquer dúvida”. Em causa poderá estar a prática do crime de recebimento indevido de vantagem — punível com um máximo de cinco anos de prisão —, o mesmo que levou à demissão de três secretários de Estado, um chefe de gabinete e um assessor do primeiro-ministro, que foram assistir a jogos de futebol do Euro-2016 a convite da Galp.
Investigação do MP
O Expresso sabe que nenhum dos envolvidos na viagem à China foi ouvido ou notificado pelo Ministério Público. A viagem foi noticiada em 2015 na página da internet da SPMS, sem referir no entanto quem suportou as despesas.
Nestes dois anos que decorreram desde a ida à China, o Ministério da Saúde criou um centro de telemedicina “fruto dessa viagem de trabalho” e a SPMS garante que não foram comprados quaisquer equipamentos à Huawei. “A SPMS não tem qualquer contrato de bens ou serviços adjudicado ou em vias de adjudicação à referida empresa”.
Já a Huawei, que reiterou estar “disponível para prestar, em sede própria, todos os esclarecimentos que venham a ser necessários”, acrescentou que “o futuro na área das tecnologias de informação e comunicação está na partilha de ideias, na comunicação e nas experiências em recentes inovações, sendo neste sentido organizadas conferências, congressos, seminários, feiras de tecnologia em todo o mundo, para compartilhar tais desenvolvimentos, eventos nos quais diversos sectores participam”.
Há duas semanas, o Ministério Público anunciou ter aberto um inquérito às viagens à China feitas por políticos que terão sido custeadas pela empresa de telecomunicações chinesa, depois de notícias do “Observador”.
Segundo o jornal online, políticos como Paulo Vistas, presidente da Câmara de Oeiras, Nuno Custódio, vice-presidente do PSD-Oeiras, Rodrigo Gonçalves, vice-presidente do PSD-Lisboa, Sérgio Azevedo, um dos vice-presidente da bancada do PSD, Luís Newton, presidente da junta de freguesia da Estrela, Ângelo Pereira, presidente do PSD-Oeiras ou João Mota Lopes, ex-diretor do Instituto de Informática da Segurança Social fizeram viagens com tudo pago.