Humor à Primeira Vista

Paulo Almeida: “Tento nunca fazer uma piada só pelo choque”

12 janeiro 2023 18:00

Do humor negro a stand-up mais confessional, é esta a jornada que Paulo Almeida quer fazer. Depois de nos abrir um pouco a porta para a sua vida nos espetáculos “Ódio de Estimação” e “Karma”, no seu novo e quinto espetáculo a solo, “Cara Lavada”, pretende quebrar um pouco a ideia de que só faz humor negro. Promete um espetáculo intimista sobre todos os acontecimentos que marcaram os seus muito atribulados últimos dois anos. No podcast Humor À Primeira Vista, com Gustavo Carvalho, Paulo Almeida mostra qual pode ser o papel do choque no humor negro, explica o que o leva a surgir agora de “Cara Lavada” e esclarece de que forma fazer stand-up pode ser terapêutico

12 janeiro 2023 18:00

Os nomes dos teus espetáculos ajudam a contextualizar o teu tipo de humor. O "Ofensivo", o "Karma", o "Ódio de Estimação". O que se destaca por não pertencer é o "Cara Lavada". O que vais mostrar de diferente neste solo? Vais tirar a sujidade da cara?
Sim, sujidade é uma boa maneira de vermos as coisas. A ideia é mesmo essa. É tentar quebrar, não na totalidade, com o que fiz até agora. Senti que estava na altura, dois anos depois de ter lançado um solo novo e de ter voltado à estrada. Depois de tudo o que aconteceu: pandemia, confinamento, e todas as mudanças com que tive de lidar a nível pessoal. É voltar à estrada de cara lavada, com coisas diferentes, com ângulos diferentes. Para tentar quebrar um bocadinho essa ideia que continua a estar associada a mim de ser só o gajo do humor negro e da javardeira e de coisas mais agressivas.

O que é que te fez ir por esse caminho? Já mudaste um pouco a direção nesses dois últimos solos. Porque é que neste viras mesmo o volante todo?
Sabes que eu não peguei no carro, até porque não tenho carta [risos]. Quando começo a escrever alguma coisa não digo: "Vai ser só isto, vai ser esta direção." Foi simplesmente algo que aconteceu. Aconteceram-me mesmo muitas coisas nestes últimos dois anos. Obrigaram-me quase a pegar em folhas e no computador e pensar: "Agora tenho mesmo de falar sobre isto". É quase terapêutico mandar tudo cá para fora e encerrar o capítulo dos últimos dois anos.

joão pedro morais

Sentes que comediantes em geral estão a abrir-se mais em palco?
Sempre foi algo de que gostei. Nos comediantes que sigo mais sempre foi algo que gostei de ver neles. Acho que sim, é algo que está a acontecer cada vez mais. Os comediantes estão a ter menos medo de se expor. Acho que havia esse receio muitas vezes. Se calhar não mostravam tudo, não davam tudo da sua vida, não tinham coragem de partilhar as histórias, as fases da vida.

O que é que para ti era algo que não dirias em palco?
Não te consigo dar um exemplo. Sei lá, vou exagerar sem ter sequer piada: "E esta garrafa? Cancro". É um name drop de uma doença sem ter qualquer contexto. E eu já vi isto acontecer dezenas e dezenas de vezes. E atenção, eu não estou a dizer que tudo aquilo que eu faço pode ser considerado humor negro, ou humor agressivo. Já falhei imensas vezes como acho que qualquer pessoa que está nesta área falha. O humor é sempre tentativa e erro. Mas eu tento nunca fazer uma piada só pelo choque, ou por saber se mencionar aquela palavra, ou aquela pessoa vai provocar uma reação e de repente vou ter cinquenta mil pessoas chateadas comigo e isso vai funcionar a meu favor. Não, nunca. Já aconteceu, mas não fui eu a procurar isso.

joão pedro morais

Gustavo Carvalho faz perguntas sobre comédia. O convidado responde. Sorriem… é humor à primeira vista. Oiça aqui mais episódios: