Humor à Primeira Vista

João Pinto: “Prefiro ser aquela banda de garagem que ouvem de vez em quando do que ser uma superestrela que tem de ser mais abrangente”

30 junho 2022 18:00

Em conversa com Gustavo Carvalho, no último episódio desta temporada do podcast “Humor À Primeira Vista”, o humorista João Pinto fala de “Mãe”, o novo espetáculo a solo em que vai falar sobre a sua mãe, mas também sobre as de todos nós

30 junho 2022 18:00

Já com muitos anos de comédia, João Pinto apresenta em setembro o seu segundo espetáculo a solo, "Mãe". Atua habitualmente no Lisboa Comedy Club e foi neste espaço que ganhou uma nova vida na comédia. Durante o verão vai ainda passar pelo palco comédia de festivais como o NOS Alive e O Sol da Caparica. Há quem garanta que é o segredo mais bem guardado da comédia nacional.

Concordas com a ideia de que ganhaste uma nova vida na comédia com a abertura do Lisboa Comedy Club, há cerca de um ano?
Acho que sim. Acho que foi uma oportunidade dada a todos os comediantes de Lisboa por quem abriu aquele espaço, para pelo menos confinar um bocado a coisa. Obviamente que quem vier de fora também tem o seu espaço, mas não pode lá estar todos os dias. Mas, sem dúvida, foi uma boa oportunidade que nós deram.

Quando eu falo desta nova vida é porque vejo muitos jovens comediantes, principalmente nas redes sociais, a olharem para ti com um carinho que não se sentia. Até para alguém que já está no meio há tanto tempo, chegaste a um patamar acima. É algo fixe de ver.
Para mim é. Mas é o tipo de coisa de que não tenho muita perceção. Estou com a malta mais nova no comedy club noite após noite e temos ali uma família, um grupo muito porreiro. Mas o que acontece nas redes sociais reflete só um bocadinho disso. É muito bom ter esse reconhecimento e ter essa simpatia da parte deles. O que temos vivido naquele sofá tão simpático do comedy club é que tem sido realmente especial.

Como é que te sentias em relação à comédia antes desta oportunidade para atuar mais vezes?
A minha relação com o stand-up sempre foi muito justa, muito equilibrada. Como eu não dava 100%, porque continuo a ter um trabalho diurno, como a maior parte dos comuns mortais, não esperava 100%. Naturalmente que atuava quando podia atuar, onde a comédia aparecia. Ia ao norte, mas obviamente era e continua a ser um hobby que ocupa uma grande parte do meu pós-laboral. Mas continua a ser um pós-laboral.

Mas ainda há esperança de torná-lo "laboral"? Deixar de ser o "pós".
Sem querer ser muito filosófico nisto, quando tu dizes esperança implica que seja um desejo. E se calhar fazer tournées de stand-up e viver do stand-up nunca foi o grande objetivo. Era bom. Se acontecesse, seria porreiro. Mas aqui o objetivo é realmente divertir-me. É passar uma mensagem, é ser o comediante que quero ser, fazer o texto que quero fazer, da maneira que mais me agrada. E prefiro ser isso. Prefiro ser aquela banda de garagem que ouvem de vez em quando do que ser uma superestrela que tem de tentar ser o mais abrangente possível.

Mas porque é que preferes isso? À partida quando alguém tenta tornar um hobby numa parte maior do seu dia, parte com o desejo de ver como é que se faz profissionalmente.
Sim, e há muitas partes da profissionalização do stand-up que me custam a fazer. As redes sociais é uma coisa que me custa a fazer. Fazer um post por dia, tirar uma foto num sítio e noutro. Custa-me a fazer, não tenho esse hábito. Se fores ver o meu Instagram, 80% são fotos com os meus filhos. É um preço que tens de pagar se queres seguir uma carreira de stand-up, de visibilidade. Não tenho esse instinto. Há uns dias estávamos a falar sobre o novo espetáculo a solo e sobre como é que eu ia vestido. E eu disse que ia vestido como quando viesse do trabalho. E obviamente disseram-me, "não, claro que não vais." Há aqui certas noções de estética de redes, do que for, que não me são naturais. Agora se me disseres, "estarias disposto a pagar o preço para ser um profissional a 100%?" Estaria disposto, agora não me sairia naturalmente.