Humor à Primeira Vista

Todd Barry: “Não posso dizer que aproveitei o meu tempo livre na pandemia a escrever, como um bom comediante profissional devia”

19 maio 2022 18:00

Todd Barry é o primeiro humorista americano a ser entrevistado no podcast Humor À Primeira Vista. Nesta conversa com Gustavo Carvalho, fala sobre o momento em que Jerry Seinfeld se dirigiu a ele após uma atuação, de um guião de um filme que quer concretizar e dos seus hábitos de escrita

19 maio 2022 18:00

O último espetáculo que lançaste foi em 2017. Chama-se Spicy Honey, está na Netflix. Desde então muita coisa aconteceu. Tivemos algum tempo em confinamento, sem espetáculos de comédia. Este tempo afastado fez-te sentir diferente ao criares um novo espetáculo?
Sim, tenho algumas piadas sobre a pandemia, calculo que a maioria dos comediantes tem. Não posso dizer que aproveitei o meu tempo livre na pandemia a escrever, como um bom comediante profissional devia. Porque também não sabia quando é que ia poder voltar a atuar. Consegui fazer alguns espetáculos ao ar livre, algumas pessoas criaram espetáculos em terraços - todo o tipo de espetáculos em sítios estranhos, desde que fossem ao ar livre.

Dirias que estás mais entusiasmado com esta tour? Porque sem esta situação terias desenvolvido um novo espetáculo mais cedo, não terias cinco anos entre espetáculos.
Certo, eu normalmente adiciono algumas piadas e tiro outras. Nunca fui um comediante que tem uma hora de espetáculo, deita-a fora ao fim de um ano e começa tudo de novo. Eu não consigo escrever assim tão rápido, honestamente.

Eu lembro-me de dizeres isso no "Comedians in Cars Getting Coffee", com o Jerry Seinfeld. Estavas a perguntar-lhe se precisavas de escrever mais e a contar-lhe uma piada sobre sumo de laranja. Certo?
Sim, sim.

E eu fiquei surpreendido porque tendo a achar que comediantes que jogam muito com as observações estão sempre a escrever. Como o Demetri Martin. E diria que vocês têm algumas semelhanças...
Eu produzo mais do que alguns comediantes, mas não tanto como outros. Mas também não falo muito em palco, não faço "rants", não consigo pegar num assunto pela primeira vez e simplesmente falar dele durante dez minutos. Não sou um homem de muitas palavras. Tento ser muito preciso e faço crowd work entre piadas.

Quantas vezes dirias que experimentas um novo bit de stand-up, ou uma nova premissa, antes de decidires que simplesmente não funciona?

Bem, essa é uma boa pergunta. Às vezes, se achar que é mesmo uma boa ideia, eu continuo a tentar. Um mau hábito que comediantes têm, incluindo eu, é não mudar nada e apenas voltar a tentar todas as noites à espera que uma espécie de milagre aconteça.

Achas que às vezes é o público que não entende a piada?

Às vezes é algo a que eu acho graça, mas nunca ninguém vai achar piada. Mas é pela escrita, o meu trabalho é comunicar o que eu acho que tem piada. A culpa é minha se eu não o conseguir fazer. Temos de estar dispostos a começar de novo, do zero, e perceber que não podemos contar a piada da mesma forma. Posso usar a mesma ideia, mas tenho de apresentá-la de um ângulo diferente. Tenho piadas das quais quase desisti, mas lá consegui encontrar algo nelas e tornaram-se em algumas das minhas favoritas.

Gosto sempre de perguntar aos convidados se há algum comediante que quando conheceram pessoalmente ficaram tão deslumbrados que não souberam reagir. Tens algum?

Estranhamente já o mencionámos. Talvez há cerca de vinte cinco, trinta anos, estava a atuar em Nova Iorque e o Jerry Seinfeld estava no fundo da sala a ver-me. No final ele veio ter comigo e tinha uma sugestão para uma das minhas piadas. Mas quando ele se começou a aproximar eu pensei: "Merda, estou lixado, devo ter feito uma piada dele ou assim.” Mas ele na verdade tinha estado a rir e incentivou-me muito.

Quantos anos tinhas na altura?

Meu deus, devia ter uns vinte cinco, acho...

Ainda te lembras da sugestão que ele te deu?

Era sobre uma piada que tenho vergonha de contar.

Mas ele gostou da tua atuação.

Sim, ele gostou da piada, ele disse algo como: "Já pensaste em dizer isto?" É algo que comediantes fazem entre si, às vezes, só não é normalmente o Seinfeld a fazê-lo.

Gustavo Carvalho faz perguntas sobre comédia. O convidado responde. Sorriem… é humor à primeira vista. Ouça aqui mais episódios: