A Beleza das Pequenas Coisas

Inês Meneses: “Sou atraída pela verdade. E lido muito mal com a mentira. Não se pode dizer tudo, mas temos de ser verdadeiros”

6 maio 2022 15:00

João Martins

Sonoplastia

Nuno Botelho

Nuno Botelho

Fotojornalista

Há 18 anos que Inês Meneses conduz o programa “Fala com Ela”, que criou na Radar e mora agora na Antena 1. Um espaço singular de escuta e conversa distinguido, em 2015, com o Prémio da SPA, para “Melhor Programa de Rádio”, e em 2019, no Festival Podes. Autora também do “PBX”, com Pedro Mexia, e de “O Amor É”, com Júlio Machado Vaz, na Antena 1, Inês Meneses afirma celebrar a vida a cada momento. Ouçam-na no podcast “A Beleza das Pequenas Coisas”, com Bernardo Mendonça

6 maio 2022 15:00

João Martins

Sonoplastia

Nuno Botelho

Nuno Botelho

Fotojornalista

Quando Inês Meneses foi desafiada para esta conversa e lhe perguntei se era um momento oportuno, respondeu-me prontamente que sim. "Porque estamos ambos sensíveis."

E trocaram-se algumas mensagens sobre o duro que é assistirmos aos últimos momentos dos que mais gostamos. “Devia haver walkie-talkies de longa distância para sabermos se alguns adultos que amamos dormem bem”, escreveu brilhantemente Inês Meneses, a convidada deste episódio, a dar poesia à dor e culpa que tantos de nós sentimos por estarmos longe dos nossos quando eles não estão bem.

"É a fé que nos salva. Acredito numa força superior. Na força do bem sobre o mal. E tenho total fé nas pessoas, nos outros. Não guardo rancor, ou se guardo durante algum tempo, ele dilui-se facilmente. É importante vivermos em paz com o que não podemos mudar", chega a afirmar Inês neste episódio.

E tantas vezes as suas conversas no programa “Fala com Ela” salvaram tantos outros também. Um programa que está há 18 anos em antena, nascido na Radar e agora na Antena 1, onde há lugar para a escuta, para o espanto e onde "há sempre uma resposta para todas as questões". Há que deixar escrito que o seu “Fala com Ela” é uma ‘masterclass’ do que é ouvir e conversar em antena e, por isso mesmo, foi distinguido em 2015 com o prémio da SPA, para melhor programa de rádio, assim como no Festival Podes, em 2019.

"Uma boa conversa não é feita de questionários, citações, da sabedoria que se traz para cima da mesa ou de livros empilhados. Uma conversa faz-se da disponibilidade e generosidade do momento, não é preciso mais…", afirma Inês Meneses.

nuno botelho

Autora também dos programas “PBX”, com Pedro Mexia, parceria Expresso/Antena 1, e “O amor é”, com Júlio Machado Vaz, na Antena 1, Inês tem um humor mordaz e inteligente muito particular, gosta de brincar com as palavras e de mergulhar a fundo nas matérias do coração e da sexualidade, como nas crónicas que assinou durante anos sob pseudónimo na revista do DN em “O Sexo e a Cidália” ou, mais recentemente, em nome próprio nos livros “Amores (Im)Possíveis”; “Caderno de Encargos Sentimentais ou “O coração ainda bate” (este último a partir das crónicas que escreve atualmente para o jornal Público.)

Habituada a dividir-se em múltiplos trabalhos e tarefas, Inês Meneses partilha neste podcast que passou a usar recentemente para si a palavra "feminista", porque há muitos direitos das mulheres por alcançar e recorda que, desde muito nova, lutou para não depender economicamente de ninguém. "Desde os meus 16 anos que não dependo de dinheiro dos outros. Essa independência foi muito importante, talvez por ter assistido à dependência financeira da minha mãe em relação ao meu pai."

nuno botelho

Sobre este mundo cada vez mais acelerado, competitivo, onde quem não tem um palco, um podcast, uma medalha, um elogio público ou reconhecimento especial pode tender a olhar para o lado, em vez de tentar melhorar e lutar por ser uma melhor versão de si, Inês afirma: "Toda a gente quer agora um reconhecimento imediato. Assistimos a uma frustração muito agressiva. Porque… 'aquela pessoa está a ocupar o nosso lugar'. Recordo um provérbio da minha avó: 'Nunca o invejoso medrou, nem quem dele perto morou.' A inveja é uma coisa que seca. É pior do que um eucalipto."

Neste episódio, Inês Meneses recorda ainda a experiência “violenta” e “traumatizante” passada na maternidade quando há 14 anos teve a sua filha Maria Inês, e foi vítima de maus tratos, machismo, e falta de empatia por parte dos serviços do hospital e dos médicos. Apesar da autora já ter escrito várias vezes sobre este episódio (as primeiras vezes sob pseudónimo) afirma que sempre que o faz recebe muitas mensagens de mulheres que lhe escrevem que passaram pelo mesmo. "Já evoluímos bastante, os serviços têm melhorado, nem todas as mulheres passam pelo mesmo, mas continua a haver uma sistemática prática de violência sobre as mulheres na maternidade. Eu também fui vítima de violência obstétrica! Isto tem de mudar urgentemente!"

Sobre a experiência da maternidade diz ainda que foi de tal maneira transformadora, ao ponto de a ter tornado mais confiante, apesar das inevitáveis falhas: "A rádio ajudou-me a escolher as palavras, mas o que me tornou mais confiante foi ter sido mãe. Todas as minhas pequenas falhas na profissão e na vida não são nada perante o amor que lhe tenho."

Autora de frases icónicas como “se não chegas ao coração dos outros como queres chegar a algum lado?”, “o amor é a maior distração da morte” ou “voltamos sempre aonde nos enchem o copo”, Inês Meneses é tantas vezes um farol luminoso para muita gente na forma como encara a vida e os seus desafios e mistérios. E aqui descodifica o avesso e a razão de ser de muitas dessas frases que passaram a livro ou ganharam a forma de serigrafia e decoram as paredes de algumas casas.

A radialista fala também da relação que vive com o cantor, músico e compositor Tozé Brito, o muito que conversa com a filha e o tanto que andou, desde os tempos de menina em Vila do Conde, até aqui chegar.

Mas há muito mais para descobrir nesta conversa, onde Inês ainda nos dá a conhecer algumas das suas músicas e lê dois textos escolhidos por si.

nuno botelho

Como sabem, o genérico desta nova temporada é uma criação original da Joana Espadinha, com mistura de João Firmino (vocalista dos Cassete Pirata). Os retratos são da autoria de Nuno Botelho. E a edição áudio deste podcast é de João Martins.

Voltamos para a semana, com mais uma pessoa convidada. Até lá escrevam-nos, comentem, classifiquem o podcast e, já sabem, pratiquem a empatia e boas conversas!