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Expresso

Paulo Querido

Mapmyname: a excepção num deserto de ideias

A economia portuguesa caracteriza-se por estar a passado ao lado da web 2.0. Os poucos projectos que existem são cópias, clones e adaptações de ideias importadas por empreendedores em geral fora do tecido empresarial. Mapmyname, nascido na Universidade de Aveiro, é a excepção a aplaudir, mesmo tendo um objecto impossível.

Sérgio Veiga e João Ribeiro têm 23 anos e o curso de computadores e telemática da Universidade de Aveiro em comum; João ainda finalista, Sérgio já licenciado e agora a fazer um mestrado em web services. Como que confirmando ser a Universidade de Aveiro um dos raros viveiros de projectos Internet em Portugal, onde por exemplo nasceu o Sapo, os dois lançaram em meados de Abril um projecto de grandes ambições: contar quantas pessoas estão ligadas à Internet em todo o mundo.

Teoricamente, o objectivo é alcançável. As fórmulas matemáticas e o conhecimento estatístico permitiriam chegar ao número, desde que cumpridos alguns pressupostos. Por exemplo, que cada pessoa que entre no projecto o recomende a três amigos e que estes por sua vez façam o mesmo. Segundo calculam, este processo permitiria chegar ao número, muito realista, em cerca de um mês.

É no entanto pouco provável, para sermos bondosos, que os pressupostos de partida se venham a cumprir. Esta sexta-feira, decorridos 14 dias, havia 14.000 pessoas ligadas.

Mas no Mapmyname o que menos interessa é o objectivo. O projecto é engraçado, o projecto é apelativo à participação do internauta, o projecto está bem apresentado, o projecto usa os mapas do Google, o projecto recorre à programação da moda, o projecto é, em suma, muito web 2.0, todo virado para "as pessoas".

Só por isso, pela "boa onda" do Mapmyname, Sérgio e João já mereciam todo o destaque que a imprensa portuguesa (por enquanto, a estrangeira pouco aderiu) lhes tem dado.

Mas há duas outras razões para aplaudir os jovens.

Em primeiro lugar, revelaram o seu talento para projectos web. O website merece admiração pela depuração (no fundo, é uma única página) e pela habilidade técnica (apreciei particularmente a rapidez com que os mapas do Google carregam, já vi inúmeros mashups com estes mapas, muito na moda, e não tenho memória de nenhum tão rápido).

Aliás, mesmo que o Mapmyname não venha a ter grande futuro, aos dois jovens não faltarão convites. Respondendo-me a uma pergunta acerca do retorno, Sérgio Veiga disse-me que as instituições, a começar pela universidade e a terminar nas agências de "inovação" existentes no país, não deram ainda sinal, mas "da parte das pessoas tem sido óptimo, já tivemos inclusive muitas propostas de colaboração e de trabalho, tanto nacionais como internacionais".

Em segundo lugar, com toda a sua leveza o Mapmyname é uma excepção no deserto de ideias que caracteriza a web em Portugal: mesmo tratando-se de um mashup (quando se misturam serviços diferentes, adicionando valor), tem originalidade quanto baste para o distinguir dos já de si poucos projectos nascidos para a web a partir de iniciativas de portugueses.

Mesmo contando algumas iniciativas que não são especificamente orientadas em função do indivíduo e da comunidade (a característica comum da web 2.0 ou web social), o número de projectos dignos do nome pouco ultrapassa a dúzia. Praticamente todos eles são cópias e adaptações locais de ideias aplicadas com sucesso nos Estados Unidos, alguma importadas em boa hora, outras nem por isso.

Depois do Mapmyname, ao longo dos próximos posts irei aqui enumerar e apresentar outros projectos actuais da web levados a cabo por portugueses.

Paulo Querido, jornalista