Paulo Querido

De Flora, a virgem mãe de 2006, ao poder sobre o conhecimento

28 dezembro 2006 12:08

28 dezembro 2006 12:08

Na semana passada os media de todo o mundo deliraram com uma história muito apelativa do ponto de vista da época natalícia. Chama-se Flora, é um dragão de Komodo fêmea e pôs ovos viáveis sem nunca ter sido fecundada por um macho. Em palavras mais tablóides? Milagre! Flora, a virgem imaculada, ia ser mãe por alturas do Natal! Este título, nas diversas variantes, foi usado até à náusea, é ver a lista do Google News. Uma delícia.

Passado o tempo da falta de assunto e dos trocadilhos, é claro que este caso interessou os cientistas (reparem que não escrevi "apaixonou a comunidade científica"). O fenómeno da partenogenese é conhecido e já se sabia que, entre outras espécies, várias tipos lagartos são dele capazes. Mas a observação privilegiada de um caso bem documentado num dragão de Komodo é uma estreia; veio confirmar e desfazer teses e no seu campo constitui um avanço significativo do conhecimento.

Ora, chegámos à parte que me interessa. Na pesquisa para um post no meu blogue pessoal (que querem, também sou sensível à falta de assunto que caracteriza o Natal e Flora era irresistível) descobri em poucos minutos imensas coisas que não sabia sobre os dragões de Komodo -- isto apesar de conhecer relativamente bem o bicho das minhas madrugadas insones a ver canais de divulgação científica. O que apurei graças às pesquisas é sintomático do mundo digital e em rede em que hoje habitamos, nos informamos e formamos. Releva o poder dos motores de pesquisa (ainda recomendo o Google) e de espaços como a Wikipedia, uma espécie de enciclopédia diferente, para melhor, de todos os armazéns de conhecimento até hoje produzidos.

O artigo inglês (e provavelmente noutras línguas) da Wikipedia sobre a Parthenogenesis foi actualizado horas depois das notícias terem sido confirmadas. Podemos dá-lo como um poster example das vantagens desta enciclopédia aberta sobre outras, incluindo a edição online da Britannica. Além do benefício da acumulação dos saberes resultantes da evolução tecnológica a ritmo vertiginoso, sem paralelo na Humanidade, que nenhum outro processo de digerir a informação para a tornar conhecimento apresenta, também a actualização do conhecimento científico digamos tradicional é um valor fundamental da Wikipedia. Já o tínhamos observado este ano no domínio das astronomia com a "despromoção" de Plutão e temos agora novo caso de estudo que não pode deixar ninguém indiferente.

O artigo não apenas reflecte já a novidade (a observação detalhada do fenómeno nesta espécie de lagartos, confirmação de um saber empírico que é sempre um dos justos motivos de orgulho da comunidade científica, profissional e amadora) como nos fornece pistas para praticamente todos os aspectos relacionados com a questão -- seja a pista que conduz à Virgem Maria e às crenças associadas, seja a pista que nos leva ao estudo da partenogenese em particular e da reprodução em geral, sexuada e assexuada. Comparem-se as entradas sobre a espécie dragão de Komodo da Wikipedia (Komodo dragon) e da Britannica (Komodo dragon). A comparação é eloquente.

Do meu ponto de vista, estes exemplos (cujo número tem tendência a aumentar) reforçam a minha convicção sobre a Wikipedia e o que dela se tem escrito, sobretudo entre os poucos portugueses que se dão ao trabalho de pensar no assunto.

Num dos livros que ando a ler, Os media e a sociedade em rede, Gustavo Cardoso vai buscar a Jari Aro uma demonstração da reactividade típica à novidade. Referindo-se à forma como cada nova tecnologia de informação é recebida pelos "apocalípticos" (definição de Eco), escreve: "essa crítica cultural está estruturada através do recurso a uma dualização conceptual. Trata-se de uma crítica nostálgica de cultura em que se avalia o presente em função de um passado indefinido no qual os valores possuiriam uma natureza certa e constante. Esse passado construído é depois utilizado como critério normativo a partir do qual as circunstâncias presentes são criticadas" (pág. 49).

Na sua forma mais benigna, o cepticismo quanto aos resultados da experiência da Wikipedia é lido através desta natural reacção humana.

Na sua forma maligna, é pior. Como já escrevi na revista Actual do Expresso, a principal questão que torna a Wikipedia "controversa" entre membros da academia é a questão da validação do conhecimento, que por seu turno é facilmente resumível a uma questão de simples luta pelo poder. O poder de manter o processo de validação controlado "pelos nossos". Ao longo da história nunca ninguém gostou de perder privilégios. Essa é uma das características imutáveis da espécie humana.

Paulo Querido, jornalista