Siga-nos

Perfil

Expresso

Daniel Oliveira

'Religulous'

06.04.2009 às 8h00

Daniel Oliveira

Já pode ser visto nos cinemas portugueses o controverso documentário de Bill Maher sobre religião. O objectivo de "Religulous" - uma mistura de 'religião' com 'ridículo' - é provar a imbecilidade de todas as crenças. O filme é, ele próprio, bastante idiota. O famoso humorista americano é um ateu militante - na linha de Richard Dawkins, outro que quer transformar o ateísmo numa Igreja e a fé num assunto de cientistas. E não parece perceber que a religião, com os seus dogmas e os seus rituais, não é mais do que a cristalização de todas as perguntas e angústias humanas.

Procurando quase exclusivamente crentes imbecis, transforma todas as magníficas alegorias que, como ele próprio faz notar, se repetem nas várias religiões, numa patetice sem sentido. Vê a religião como um porto seguro para ignorantes ou maluquinhos. Na sua arrogância quase religiosa, escapa-lhe, porque pensou pouco, que a religião é a mais complexa das criações humanas: sem ela o homem nunca teria saído da sua pequena vida concreta. Nunca teria inventado todos os deuses dos tempos modernos: do dinheiro à ciência. Sem ela seríamos pouco mais do que selvagens.

A religião de que Maher fala é a que venceu ou em civilizações em crise ou em países jovens, como o seu, pouco dados a subtilezas: a que promete respostas simples e rápidas para problemas complicados. E essa religião, que por falta de presente ficou encalhada num tempo distante ou que por falta de passado perdeu o rasto da sua própria história, é tão absurda como o ateísmo simplista. Fora isso, a brutalidade do filme é um desafio à liberdade. E essa devia ser a grande vantagem do ateísmo: não tem nem quer ter seguidores e não se contenta com chavões reconfortantes. Por mim, vivo feliz sem Deus. E vivo muitíssimo bem com os deuses dos outros. Sabendo que sem os conhecer dificilmente compreenderei a espécie a que pertenço.

Reciclagem

Um mês depois de ter sido condenado por corrupção activa, Domingos Névoa foi nomeado por seis câmaras do PS e do PSD para presidir a uma empresa intermunicipal de tratamento de resíduos sólidos. O cargo escolhido para a reciclagem parece-me o indicado. Que o bloco central faça esta declaração pública de apoio a este senhor não devia espantar ninguém. Névoa é um produto de velhas cumplicidades. Que a direcção nacional do PS dê, na mesma semana, palco a Mesquita Machado nas suas jornadas parlamentares, também não admira. Indignou-se João Cravinho por apenas o BE ter aberto a boca sobre o assunto. Depois do que aconteceu ao seu pacote anticorrupção, não vejo como se pode espantar. Porque julga ele que foi chutado para Londres?

A corrupção não é apenas causa do desinteresse de tantos cidadãos pela vida democrática. É consequência. É um sintoma da falta de exigência. Não foi a classe política que elegeu Mesquita Machado e que deixou que este tratasse Braga como coisa sua. Não foi apenas o bloco central que fechou os olhos à vergonha de décadas que se vive naquela cidade. Não foi apenas o PS que assistiu, sem um assomo de indignação, à confusão entre poderes públicos, futebol e negócios que impera em Braga, como em tantas outras cidades. Foram os eleitores que decidiram que nada disto era relevante. Só eles podem punir quem elegem. Esta é a exigência e a superioridade da democracia: no fim de tudo, a culpa é nossa.

Daniel Oliveira