Crónica

10. Palavra da semana: referendo

Essa é a beleza do referendo. Responder com uma simples cruzinha a perguntas complexas e um tanto aleatórias sobre as quais podemos não perceber nada. É o poder da cidadania no seu esplendor

8 dezembro 2022 13:06

Uma das grandes alegrias da minha vida, de ser português e de viver em democracia foi ter podido atravessar o período áureo do referendo. Eram referendos atrás de referendos, despenalização do aborto, regionalização, finalmente democracia participativa sem bigodes, metalurgia e comissões de moradores. Por momentos, julgámos que íamos a caminho de nos tornarmos uma Suíça sem bancos, sem chocolate e sem montanhas, uma Suíça só por causa dos referendos. Foram só dois, é certo, mas foram quase de seguida e mal tivemos tempo de respirar. Talvez tenha sido esse o problema.

Com o país mergulhado na euforia coletiva da Expo 98, acenaram-nos com o prazer participativo do voto não em partidos ou em políticos, mas para responder a questões como “concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas dez primeiras semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?” Eu fui votar e concordava, quer dizer, não sabia bem se concordava: tinha mesmo de ser nas dez primeiras semanas? E o estabelecimento de saúde tinha mesmo de ser legalmente autorizado? E era assim tão importante que fosse num estabelecimento de saúde?

Essa é a beleza do referendo. Responder com uma simples cruzinha a perguntas complexas e um tanto aleatórias sobre as quais podemos não perceber nada. É o poder da cidadania no seu esplendor. Na altura, nem todos os portugueses acorreram ao chamamento da cidadania porque, naquele 28 de junho, o chamamento da praia com as elevadas temperaturas de início de verão foi mais forte. E a falta de consciência cívica, desde que em biquíni e com muito protetor solar, também tem os seus encantos.

No outono, com temperaturas mais amenas, os portugueses foram convocados para outro referendo, para responder a uma pergunta de natureza bastante diversa, embora mais sucinta: “concorda com a instituição em concreto das regiões administrativas?” Mas nem a precavida realização do referendo em novembro mobilizou o povo que, desta vez, deve ter preferido castanhas e centros comerciais à decisão sobre o retalhamento administrativo do país. Pela segunda vez em menos de seis meses, tivemos de nos familiarizar com o significado de “não vinculativo” e a nossa bonita história de amor com os referendos foi bruscamente interrompida, como uma paixão estival que se desvanece antes do inverno.

Ficou aquele ambiente cinzento de uma estância balnear em janeiro, com as esplanadas recolhidas e empregados de mesa enregelados a atenderem casais de pensionistas ingleses. Descobrimos, com enfado democrático, que a volúpia do referendo não nos entusiasmava. Queríamos mandar umas bocas desde que não nos viessem pedir para nos pronunciarmos quando nem sequer nos tinham perguntado se nos queríamos pronunciar. Um referendo ao referendo talvez não tivesse sido má ideia. Em jeito de preparação. Só para o referendo a sério não nos cair na fraqueza.