Crónica

Diálogo interrompido

6 agosto 2022 18:22

Um poema – in memoriam – do crítico literário do Expresso José Mário Silva para Ana Luísa Amaral (1956-2022)

6 agosto 2022 18:22

Acho que ficámos a meio

de uma frase, o telefone tocou

de repente, em surdina a voz

da tua filha que surge em tantos

poemas, com tigelas, ora partidas

ora coladas, e “avessos de poema,

em fractura fluida” a voz da filha

uma súbita flor de luz aberta no meio

da sala, por isso a frase ali suspensa,

entre parêntesis aquele fio de uma

conversa sem início nem fim, pela

janela aberta o rugido do mar de Leça,

junto a nós o miado das gatas, a cadela

com nome de poeta Mily, como a tua

Emily Dickinson a pousar sua cabeça

num joelho, “onde é que íamos?”, onde

é que vamos agora?, passaram os anos,

ah, o tempo, esse alçapão aberto numa

sala às escuras, o pé em falso e já só

nos vemos noutra década, mas algo

me prende àquela tarde incompleta,

ao diálogo interrompido, à ideia

que se esboroou com o toque

do telemóvel, custa-me agora

não saber a natureza dessa frase

deixada a meio, a sua textura,

se era feita de matéria fulgurante

ou só da poeira que cobre as coisas

banais, se calhar fizeste dela um verso,

se calhar acabou por chegar a mim por

outras vias, se calhar perdeu-se nesse

limbo cruel das coisas pensadas

que nunca chegam a ser ditas,

cintilações na água, ao crepúsculo,

logo apagadas pelo breu da noite,

e agora só esta tristeza de imaginar

o silêncio coagulado na tua casa,

ao longe o rugido do mar de Leça,

uma aragem que agita as folhas

das plantas, acaricia as lombadas

dos livros, toca os teus objectos,

tenta em vão abrir portas e gavetas,

à procura dessas palavras esquivas,

fugidias, perdidas para sempre.