Opinião

Alguém sabe ser adulto ou é tudo performatividade?

Alguém sabe ser adulto ou é tudo performatividade?

Clara Não

Ilustradora, ativista, autora

Será que há mesmo pessoas que têm tudo planeado, objetivos completamente traçados, sem nenhuma questão ou dúvida quanto à sua vida, ou só parecem pessoas estáveis? Será que há uma Performatividade Adulta ?

Eu e a minha melhor amiga vamos fazer trinta anos no final de 2023. Temos muitas questões, estamos sempre a descobrir mais sobre nós mesmas, mais sobre a nossa relação com outras pessoas e sempre a formular novos objetivos profissionais. No entanto, parece que vemos outras pessoas que sabem exatamente o que querem, que têm vidas planeadas e estáveis, que “sabem ser adultas”. Estávamos a falar sobre isto enquanto jantávamos, há uns dias, quando ela me pergunta:

“Achas que há pessoas adultas que realmente sabem o que estão a fazer? Que têm a certeza do que querem e nós ainda não chegamos lá, ou ser-se adulta é isto?”

Ao que eu respondi: “ Eu acho que é isto, chegamos”.

Esta conversa fez-me pensar se há mesmo pessoas que têm tudo planeado, objetivos completamente traçados, sem nenhuma questão ou dúvida quanto à sua vida, ou se só parecem pessoas estáveis. No seguimento, pensei na possibilidade de haver uma Performatividade Adulta. Claro que este conceito, que de seguida definirei, só é possível em pleno para quem tem o privilégio de viver de forma não precária.

Judith Butler falou da performatividade de género, mas vamos mais longe. Definamos, então, esta proposta de possibilidade de existência de uma Performatividade Adulta.

Performatividade Adulta (também referida como “PA” neste texto): O ato de parecer que uma pessoa é adulta segundo a percepção social generalizada de quem a rodeia. A Performatividade Adulta é composta por uma série de regras sociais implícitas, que variam de cultura para cultura, que garantem que quem as segue é vista como uma pessoa adulta em ambiente social.

Por exemplo, em Portugal, a lista que, sem dúvida, faz alguém ser vista como adulta, para uma mulher, são:

Nos teus 20’s consegues uma relação estável com um homem. Lá para o meio ou fim dos 20´s, casam-se ­– já se aceita um “juntam-se” –, arranjam casa, de preferência perto da casa dos vossos pais. Têm empregos a contrato, idealmente, a fazer algo em que não se questione as vossas funções com “mas o que é que realmente fazes?” Estando juntos, ou casando, levam com menos questões se tiverem uma filha/um filho e ainda menos se tiverem dois.

A Performatividade Adulta não é mais do que fazer parecer que se tem o que a sociedade classifica como necessário para se ser adulto/a.

O desempenho da Performatividade Adulta não garante que não haja críticas, mas faz com que pareçamos pessoas adultas, especialmente se completarmos a lista acima com todos os vistos de objetivos completos.

Antes de avançarmos para outra questão importante para a concretização da Performatividade Adulta, há que realçar que, num segundo nível de complexidade, a PA protege a limitação da binomia de género, segregando comportamentos e expressões de género e orientação sexual fora das consideradas normais. A PA apoia, assim, a desigualdade social, pondo de parte ou pondo questões a quem é da comunidade LGBTQIA+, pessoas de género não binário, pessoas que formam casais interraciais, quem tem dificuldades económicas, como vimos anteriormente, e ainda, possivelmente, pessoas com problemas de fertilidade. Acima de tudo, quem não pratica a Performatividade Adulta, até por simplesmente questionar as regras explicitamente ou afirmar que não quer filhos, é vista como diferente, menos feliz, mais coitadinha.

O outro lado da moeda

Se por um lado a Performatividade Adulta pode ser vista como limitadora, porque o é, já que se trata de uma lista dos elementos necessários pré-estabelecidos para se ser aceite em sociedade com o mínimo de questões possíveis levantadas, por outro lado, pode ser vista como uma rede de segurança: “eu sei que se eu seguir estas regras, vou ser aceite sem problemas”. É através deste mesmo raciocínio que muita gente recalca o seu verdadeiro e inteiro eu, como a sua bissexualidade, por exemplo, porque a vida parece mais simples se simplesmente seguir as regras performativas do que é considerado a norma.

Além disso, para quem almeja seguir este caminho normativo de ser adulto mas não consegue, pelas mais variadíssimas razões, pode passar por um alto nível de frustração.

O elemento necessário para a Performatividade: o espectador

A existência da PA só pode ser afirmada havendo espectador que a ela assista. Ou seja, é preciso um elemento externo que afirme, ou pressuponha “sim, senhor, esta pessoa é adulta”. É aqui que falo do “paradoxo do espectador”, de Jacques Rancière: “não há teatro sem espectador”. Ora, uma das maliciosas consequências possíveis de se ser espectador é a passividade. Neste caso, tal seria assumir que todas as mulheres querem ser mães, que todos os homens almejam altos cargos de emprego.

Será que esta passividade faz, então, com que a Performatividade Adulta seja uma realidade ilusória, passiva face ao mundo, de quem cumpre as regras com o objetivo de pertencer ao mundo dos adultos, mesmo que este processo seja, a maior parte das vezes, inconsciente? Eu digo que sim.

Decorrendo da premissa de que esta performatividade apenas é concretizável com a observação de um elemento externo, neste caso, outra pessoa, corremos o risco de pormos as culpas no outro, quando, na verdade, podemos ser espectadores de nós mesmas/os. O que faz com que possamos estar a fazer Performatividade Adulta para o que nós achamos que é suposto nós querermos. Por exemplo, assumirmos que queremos casar, que queremos ser pais, que queremos seguir a nossa carreira como seria expectável, ao invés de sermos capazes de perguntar sem pudor: “estou a casar porque quero, ou porque é suposto, porque já namoramos há x anos?”; “quero mesmo ser mãe, ou sou só eu com medo de perder a oportunidade de o ser, porque é expectável que eu o queira?”. Ao vermos de perto reparamos que questionar as regras da PA é desafiar preconceitos sociais.

Desafiar preconceitos

Uma pessoa é menos adulta porque não teve filhos?

Uma pessoa é menos adulta porque não consegue comprar uma casa?

Uma pessoa é menos adulta se continuar solteira?

Uma pessoa é menos adulta se estiver num relacionamento homossexual?

Ter filhos/as, casa, emprego estável, não é sinónimo de se ser adulta, mas pode fazer parecer para fora que se é, graças a esses fatores serem vistos como elementos essenciais para se ser uma pessoa adulta completa.

No entanto, ser-se adulta é muito mais algo emocional – ser capaz de tomar decisões, estabelecer limites de respeito, criar objetivos pessoais de vida – do que uma lista de tarefas às quais se tem de dar vistos.

Mesmo assim, vivendo em sociedade, não podemos segregar-nos ao ponto de estarmos protegidos do olhar alheio.

Não conseguimos fugir do palco social. E agora?

Não podemos fugir à perceção dos outros em relação a nós, não conseguimos fugir do palco social. Deste modo, viver em sociedade nunca vai deixar de ter o seu quê de teatro: há normas implícitas de comportamento conforme o local e o ambiente em que nos encontramos. Por exemplo, quando estamos numa sala de espera de consultas médicas, não é normal ver alguém a fazer alongamentos de yoga ou a pintar um quadro a acrílico. Imagine-se alguém a tirar pêlos do buço numa mesa de café… Deste modo, sabemos como desempenhar a função esperada para determinado espaço.

De forma a encontrarmos um equilíbrio entre palco social e questionamento da realidade, necessitamos, então, como afirma Rancière acerca do teatro, de um “teatro sem espectadores, no qual quem assiste aprenda, em vez de ser seduzido por imagens, no qual quem assiste se torne participante ativo, em vez de ser um voyeur passivo.”

Então, afinal, o que é ser-se adulta/o?

Jeanette Winterson escreveu, no seu livro de excertos sobre amor das suas obras, Love, comentados pela mesma:

“Truth is a place of questioning. Stories are full of questions. What if? What is it? Who am I? Who are you? What do I believe? Why do I believe that?” (pá. 33).

Para mim, ser-se verdadeiramente adulta é, na mais pura das definições, um lugar emocional de questionamento, no qual se tem a audácia de pôr em causa pré-conceitos concebidos antes de nós, de forma a que possamos tomar decisões informadas. Nesta perspetiva de tomar a vida adulta como um caminho de questionamento, em que a dita normalidade é posta em causa, não deixa de haver um palco social, não deixa de haver espectadores. No entanto, estes são ativos, intérpretes e tradutores do que acontece à sua volta. Não são meros espectadores passivos: escolhem por si e não através de uma lista de tarefas traçada previamente para eles.

“É isto. Chegamos.”


Bibliografia:

  • O Espectador Emancipado, de Jacque Rancière, Edição Orfeu Negro.
  • Love, de Jeanette Winterson, Edição Vintage Mini.


Tem dúvidas, sugestões ou críticas? Envie-me um e-mail: clubeexpresso@expresso.impresa.pt

Comentários

Assine e junte-se ao novo fórum de comentários

Conheça a opinião de outros assinantes do Expresso e as respostas dos nossos jornalistas. Exclusivo para assinantes

Já é Assinante?
Comprou o Expresso?Insira o código presente na Revista E para se juntar ao debate
+ Vistas