Opinião

Tocqueville é no Delgado

31 março 2023 0:14

A desmaterialização do comércio também é a desmaterialização da democracia

31 março 2023 0:14

Chamemos-lhe Delgado. “Vou ali ao Delgado”, “encontramo-nos no Delgado?” ou só “Delgado?” são mensagens frequentes da minha família e de todas as outras famílias aqui do bairro. “Delgado” é uma senha que só os locais compreendem. O nosso Delgado tem um daqueles cafés de esquina que funciona como ponto de encontro. Não é só um café com uma função económica, é uma casa onde sentimos a tal amizade cívica que transforma estranhos em vizinhos. Não por acaso, esqueço-me facilmente de coisas (chaves, telemóvel, óculos, carteira) no Delgado, porque ali baixo a guarda, sinto-me de facto em casa. Ora, se não valorizarem esta vivência de bairro, a cultura e a política de um dado tempo estão a cometer um de dois erros: o erro libertário que só vê o indivíduo enquanto célula económica, ou o erro socialista que só vê o Estado. Sucede que, no meio, está a sociedade, o tendão que liga o indivíduo ao estado e vice-versa. Sem sociedade, sem bairro, sem estes corpos intermédios como o café ou clube, a relação entre o indivíduo e o estado torna-se desumana e potencialmente autoritária para um lado ou para o outro: ou para o lado da obediência cega ou para o lado da revolução.

Este é um artigo do semanário Expresso. Clique AQUI para continuar a ler.