Opinião

Não chega ser V.I.P. É preciso ser muito, muito importante

O burlesco é comum ao jantar da Chopard no El Corte Inglés e no Festival de Cannes
O burlesco é comum ao jantar da Chopard no El Corte Inglés e no Festival de Cannes
Gonçalo Melo/Bow Media

Na crónica ‘Sem Preço’, Catarina Nunes escreve sobre as razões do evento secreto da Chopard em Lisboa e a abertura no El Corte Inglés

A tendência não é nova, mas ganha dimensão com a pandemia e algumas das suas consequências: a limitação no número de pessoas ajuntáveis, o cancelamento de grandes eventos… e o crescimento do número de multimilionários, das suas fortunas e da procura por produtos de luxo.

É na combinação destas variáveis que as marcas de luxo apostam cada vez mais em eventos ultra-exclusivos dirigidos a um grupo restrito de clientes, os melhores entre os clientes de topo. Grosso modo significa fazer uma distinção semelhante à que as companhias aéreas fazem há muito anos, entre clientes Prata, Ouro e Platina, e adequar os benefícios em função do valor e frequência dos gastos.

A coleção de alta-joalharia ‘Red Carpet’ esteve exposta em Lisboa durante uma noite
Gonçalo Melo/Bow Media

Trata-se de reter (apaparicar) os compradores que gastam mais milhões de euros por ano com a sua marca, em que o acesso à compra de produtos raros antes de serem postos à venda é uma das regalias ‘básicas’. Mas é no domínio dos eventos emocionantes e privados que as marcas de luxo se estão a posicionar cada vez mais, proporcionado experiências que o dinheiro não pode comprar, mesmo sendo muito rico, por não serem comercializadas e apenas por convite. Aqui a imprensa está banida e as fotografias são proibidas ou limitadas.

É neste registo que a Chopard faz em Lisboa o primeiro evento que junta três das suas iniciativas com mais notoriedade mundial, que acontecem apenas durante uma noite. Os destinatários? Os melhores clientes da Torres Joalheiros, representante da marca em Portugal, e do El Corte Inglés, onde acaba de inaugurar um corner e cenário do ‘Chopard Loves Cinema’. Este é um evento internacional que decorre anualmente durante o Festival de Cinema de Cannes, no hotel Martinez, frequentado por clientes internacionais, celebridades e a nata da sétima arte, com réplicas em algumas capitais mundiais, como em novembro em Lisboa.

A versão original do ‘Chopard Loves Cinema’ acontece anualmente no hotel Martinez, durante o Festival de Cinema de Cannes

A par com a versão portuguesa do ‘Chopard Loves Cinema’, o El Corte Ingles recebeu também uma exposição com algumas das peças da coleção especial de alta-joalharia ‘Red Carpet’, criada para a última edição do Festival de Cinema de Cannes, do qual a Chopard é parceira oficial e fornecedora da Palma de Ouro, há 25 anos. A particularidade das joias desta coleção é o facto de serem usadas por atrizes durante o festival e, posteriormente, vendidas a clientes particulares com contas bancárias que suportem preços médios com seis dígitos.

A terceira vertente deste evento é a Palma de Ouro, em ouro ético de 18 quilates, que também esteve acessível aos olhos dos 75 convidados ultra-V.I.P., entre clientes do El Corte Inglés e da Torres Joalheiro, com uma média etária de 55 anos (pais e avós das gerações Millennial e Z, que aceleram o consumo mundial de relógios e joias, mas que pelos vistos não são os que compram mais, pelo menos em Portugal). A título de curiosidade, o troféu exibido no El Corte Inglés é uma cópia da Palma de Ouro atribuída em Cannes, que todos os anos tem direito a uma ‘gémea’ por razões de segurança, caso a ‘número um’ seja danificada por algum motivo, antes ou durante o festival.

A atriz Amy Jackson foi uma das convidadas do evento em Cannes que celebra os 25 anos de parceria da Chopard com o festival de cinema

A esta iniciativa não é alheia a possibilidade de estreitar laços emocionais e comerciais com os melhores clientes do país, entre portugueses e residentes estrangeiros, criando uma experiência que irá perdurar na memória dos convidados e que os tornará mais disponíveis para aumentar o consumo de joias Chopard e as vendas do El Corte Inglés. Esta cadeia espanhola já tinha feito outros eventos para o segmento de luxo, mas este terá sido o que exigiu mais esforço e coordenação, uma vez que foi montado em 48 horas, sem interrupções.

O evento, desenhado pela Chopard, incluiu jantar e um espetáculo de burlesco (o mesmo tema seguido na festa durante o último Festival de Cannes), envolvendo equipas de cenógrafos, coreógrafos, arquitetos, manequins, bailarinos, técnicos de som e luz, entre outros. Os clientes foram recebidos numa zona de estacionamento reservada e encaminhados diretamente para o evento. No interior do espaço, montado paredes meias com a área pública do El Corte Inglés, os convidados encontraram uma sala com pouca luz, a recriar o ambiente de uma sala de cinema.

A equipa de restauração do El Corte Inglés, liderada pelo chef Luís Filipe, tratou do menu com 11 momentos, entre vieiras caramelizadas e redução cítrica, magret de pato com pera assada; blinis com salmão fumado e caviar; escalopes de foie gras, redução de Porto e pistachos; e gambas Kadaif com agridoce, por exemplo. A acompanhar, champanhe Torres (engarrafado pela Voirin-Jumel para a cadeia de joalharias), vinho (branco e tinto) Terras do Grifo Grande Reserva e Porto Calém 10 anos.

Com o novo corner no El Corte Inglés, a Chopard quer desenvolver-se em Portugal, que cresce como mercado de luxo

O local da versão portuguesa do ‘Chopard Loves Cinema’ pode não ter o glamour do hotel Martinez, em Cannes, nem a ementa foi elaborada por um chef com estrelas Michelin. Mas só o investimento na logística associada à coleção de alta-joalharia e à Palma de Ouro (entre seguros milionários e a contratação da transportadora Ferrari, referência mundial no transporte de joias e pedras preciosas) indicia aquilo que nos últimos anos se tem reforçado como evidência: Portugal é um destino de luxo crescente.

A Chopard justifica a vinda a Portugal do "Chopard Loves Cinema" com a celebração da abertura do novo corner Chopard no El Corte Inglés de Lisboa, com a clara intenção de se desenvolver no mercado português, onde está presente há mais de 30 anos. O motivo? A rápida expansão e visibilidade internacional que Portugal está a ganhar enquanto mercado de luxo, declara Eric-Yan Halkema, gestor de vendas internacionais da Chopard.

Avizinham-se mais eventos de marcas de luxo em Portugal, sendo a alta-joalharia e a alta-relojoaria as que têm mais afinidades com este tipo de formato. Tratam-se de peças de edição muito limitada ou únicas, produzidas com pedras raras e metais preciosos, onde o foco nos muito V.I.P é ainda mais importante. É entre estes poucos que se encontram os grandes clientes e colecionadores, os que têm mais impacto nas vendas globais. Nada é demasiado para lhes criar memórias inesquecíveis e o desejo pela próxima novidade. Os muitos ricos não pensam só em dinheiro. Também têm emoções.

Tem dúvidas, sugestões ou críticas? Envie-me um e-mail: CNunes@expresso.impresa.pt

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