Opinião

As Causas. Terra prometida: a política é um país diferente

24 janeiro 2023 21:00

Cometer erros no mundo da Política, mais ou menos graves, é inevitável. Mas os preços e os custos que daí resultam são elevadíssimos, não sendo hoje em dia sequer possível afirmar que esses riscos mais elevados são compensados por vantagens especiais

24 janeiro 2023 21:00

A Política é – para o bem e para o mal - um País diferente daquele que nós, os comuns mortais, conhecemos.

É muito violento, destruidor da vida privada, e em regra acaba mal para quem nele se instala.

Apesar disso, é para muitos uma espécie de “Terra Prometida”, um lugar para começar uma vida nova, cheia de promessas e de esperanças de realizar ambições e, como os heróis de Camões que “se vão da lei da morte libertando”, sonhar essa perenidade na memória dos povos…

Hoje vou falar de alguns dos subprodutos desse mundo: a propensão à mentira, a sucessão de erros, a vontade de desistir.

POLÍTICA: A VONTADE DE DESISTIR

A vontade de desistir, em primeiro lugar.

No domingo, João Cotrim de Figueiredo retirou-se da liderança da Iniciativa Liberal. Nesse mesmo dia uma sondagem da Aximage revelava no DN que ele era o político português com melhor avaliação popular (aliás o único com saldo positivo) e o IL chegava a 9,5%, um crescimento de 100% desde as eleições de há um ano.

Nos antípodas, a líder do governo da Nova Zelândia, Jacinda Ardern, surpreendeu também tudo e todos ao renunciar ao cargo que tinha renovado nas eleições de 2020 com a maior maioria trabalhista em 50 anos.

Cotrim foi muito sincero, numa entrevista sábado à noite à RTP, e a forma como disse no Congresso o que pensava é disso confirmação: tem 61 anos e não se vê a liderar a IL por mais 4 a 8 anos, ou seja, não quer ficar a viver na Terra Prometida.

Jacinda Ardern também me pareceu sincera. Em resumo, disse “não tenho energia para mais quatro anos”. Segundo alguns, está em “burnout”. Mas sem dúvida que também ela quer sair da Terra Prometida.

Creio que isto é uma tendência que se vai acentuar. Muitos não vão ter energia, outros não querem manter uma vida que lhes exige demasiado e sempre com uma espada em cima da cabeça.

Mas há mais: A transparência e o escrutínio feito em tempo real nos media e nas redes sociais – em abstrato um elemento essencial do Estado de Direito – vai diminuir muito a propensão para que pessoas decentes “emigrem” para o País da Política.

As coisas são como são. Mas talvez não fosse mau que os cidadãos pensassem se aqui não teremos também um exemplo de “virtudes enlouquecidas”, de que falei a outro propósito há uma semana.

POLÍTICA: OS ERROS SÃO IMPERDOÁVEIS

Os erros, a seguir.

Quem vive em tensão comete, inevitavelmente, mais erros do que quem vive serenamente; como quem vive no mundo das tentações peca muito mais por atos do que um eremita.

Quem tudo sacrifica para viver na Terra Prometida, para tentar libertar-se da lei da morte, vive em frenesim, obrigado a reagir sem tempo para pensar ou sequer para respirar fundo.

E, como é apesar disso humano, quem tem ambições camonianas e vai tendo sucesso acaba a acreditar que está fadado para a imortalidade e daí a tomar-se como um super-homem (ou, na “novilíngua” do politicamente correto, super-ser, ou algo assim…) vai um passo, aliás curto. O que potencia os erros…

Cometer erros no mundo da Política, mais ou menos graves, é inevitável. Mas os preços e os custos que daí resultam são elevadíssimos, não sendo hoje em dia sequer possível afirmar que esses riscos mais elevados são compensados por vantagens especiais.

Sabendo isso, o político torna-se cada vez mais cauteloso para não arriscar e errar. Com tantas cautelas fica paralisado, nada decidindo ou fazendo-o apenas a favor do vento dominante, e desse modo sobrevive na sua banalidade e incompetência.

Ou, em alternativa, arrisca e erra. Mas então, perante ter de confessar um erro, a tendência para mentir é quase irresistível.

O que se compreende: com o sobre-escrutínio instantâneo existente, confessar um erro vai com elevada probabilidade destruir em segundos uma carreira de esforços e de sacrifícios durante anos, pelo que há um forte incentivo para arriscar a mentira e esperar que o foco das atenções se dirija para outro alvo.

POLÍTICA: A TENTAÇÃO DA MENTIRA

Há, pois, que abordar agora o tema da mentira.

E, em primeiro lugar, convém não esquecer que o sistema exige a mentira, na vertente de se prometer o que se sabe não ser realizável, garantir o que não pode ser assegurado, atacar sem misericórdia sobretudo o que os adversários fazem ou propõem que seja louvável.

Nós, cidadãos-eleitores, queremos ser enganados, pois nunca votaríamos – a não ser em raras situações de tragédia – em quem nos prometesse dar apenas “sangue, esforço, suor e lágrimas”, como disse Churchill ao formar um governo de unidade nacional contra Hitler, em maio de 1940.

Por isso, a propensão à mentira acaba por se tornar endémica, quase se criando uma espécie de segunda natureza que “grita” que na Terra Prometida os valores morais não podem ser os mesmos que no mundo do comum dos mortais.

E há mais: a descoberta de um erro ou de uma falha – que é ferozmente objeto de intermináveis repetições de notícias e comentários - obriga em regra a deixar a Terra Prometida e a atravessar o deserto, sabe-se lá para onde.

Por isso, a tentação é pensar que compensa fugir às responsabilidades através de uma mentira, ou mais ou menos inconscientemente através de um esquecimento, pois talvez isso não seja descoberto e, se for, o resultado não é diferente do que o que decorre de assumir com coragem o erro ou a falha.

O DRAMA DE PEDRO NUNO SANTOS

Para descer do geral ao concreto, usemos o exemplo de Pedro Nuno Santos.

Hoje em dia é indiscutível o seguinte:

a) Ele cometeu uma falha grave (ter autorizado uma indemnização que não estava no seu poder e competência fazer sozinho, o que aliás repetiu com o famoso despacho dos aviões),

b) Quando se soube, veio confessar um erro, ainda que sem o admitir como tal (a falta de sensibilidade política para ter aprovado a saída com compensação e semanas depois nomear Alexandre Reis para presidir a outra empresa pública),

c) À última hora, semanas depois, através de imperdoável esquecimento ou mentindo (aliás de forma colegial com a Chefe de Gabinete e o Secretário de Estado) veio confessar que sabia o valor da indemnização e lhe tinha dado o aval político.

São erros ou mentiras? Teve coragem ou falta dela para reconhecer o erro? Achou que valia a pena mentir ou disse sempre a verdade? Foi desonesto moralmente ou imaturo e incompetente?

Nada disso tem agora muita importância, pois é evidente que ele já se não vai libertar da lei da Morte.

Por isso, persistir em ficar na Terra Prometida é juntar um erro a outro, quando as suas qualidades de energia e de voluntarismo acabariam a encontrar um ponto de equilíbrio e no final do deserto há outras vidas em que poderá vencer... ainda que sem dar nome a uma rua ou algo tão eterno como isso.

O problema são os maus exemplos que de qualquer das hipóteses que enunciei ficarão para outros.

POPULISMO E GREVES

Duas notícias:

a) uma sondagem revela que os partidos populistas (Chega e Bloco de Esquerda) subiram num ano de 11,6% para 19,5%, tendo o Chega crescido um pouco mais, de tal modo que com um resultado de 12,9% na sondagem poderia aspirar a mais de 30 deputados.

b) Ontem soube-se que a fuga para o ensino privado e social é tão grande que já quase esgotou as reservas para inscrições para o próximo ano.

Que tem isto em comum? A demonstração de que os maus governos ajudam os populistas em geral e que na Educação são a melhor promoção do ensino privado que odeiam.

O ELOGIO

A Rui Moreira, Presidente da Câmara do Porto, pela sua coragem em enfrentar o problema de saúde pública e de cidadania que é o consumo de drogas no espaço público sem condições de autodeterminação dos consumidores.

Sou há muitos anos defensor da despenalização do consumo de drogas e da regulação da sua venda como atividade legal, tributada e controlada.

Mas isso nada tem a ver com o que se passa em Portugal, apesar de ser tratado como grande sucesso por quem está a “ver” a realidade de muito longe.

Liberalizar o consumo deste modo (como diz Moreira, sem as dimensões “sanitária, social e securitária”) é pasto para populismo e perigosa deriva que nada tem a ver com o direito de cada um a dar cabo da sua vida com dependências.

LER É O MELHOR REMÉDIO

Poder-se-á achar que foi um ato de vaidade, de quem, como consultor estratégico de comunicação, esteve nas maiorias absolutas de Sócrates, Cavaco e Costa.

Talvez por isso o livro se chame “Como Perder uma Eleição” (edição da Zigurate de Carlos Vaz Marques).

Mas é um livro muitíssimo interessante, culto e bem escrito. E, valha a verdade, a modéstia – sobretudo se hipócrita – não é uma virtude teologal.

Seja como for, o livro não é um exercício de auto-gratificação, podem estar tranquilos.

A PERGUNTA SEM RESPOSTA

O Bloco de Esquerda, cada mais populista, cada vez a copiar mais o Chega, está a especializar-se em propostas para aparecerem na televisão e que sabe serem inviáveis.

Agora pretende proibir estrangeiros de comprar casas em Lisboa (pois para portugueses emigrantes a lei não se aplicaria) desde que não residam já em Portugal.

Será que não há lá um jurista a rever as propostas? Será que não sabem que para residir em Portugal um estrangeiro não precisa de comprar casa antes, o que permite facilmente contornar a lei? Será que não sabem que o Direito da União Europeia não permite discriminação contra os cerca de 436 milhões que não são portugueses? Ou sabem tudo e por isso propõem apenas por demagogia e populismo?

A LOUCURA MANSA

Se fosse de propósito não seria pior. O Congresso da Iniciativa Liberal foi objetivamente uma vergonha para quem se apregoa como diferente.

Começou com o indiscutido Cotrim a entrar no combate da lama, gerando as naturais reações; continuou com Carla Castro e muitos dos seus apoiantes a “descobrir” que viviam num partido comunista ou ao menos autocrático, o que nunca tinham notado ou ao menos sequer sugerido; terminou com uma espécie de guerra civil verbal que a todos emporcalhou e que destruiu em dois dias o que foram 3 anos de sucesso.

Agora Rui Rocha terá de apanhar os cacos e tentar voltar a um rumo de sucesso, o que está longe de ser fácil …