Opinião

A guerra não pode ser um salvo conduto para matar pessoas

Duarte Marques

Duarte Marques

Ex-deputado do PSD

24 janeiro 2023 9:57

Mais uma vez o mundo ocidental e as verdadeiras democracias estiveram ao lado do povo ucraniano. Além de expulsar a Rússia e ajudar a Ucrânia, o mundo ocidental não pode deixar passar em claro empresas como o Grupo Wagner que faz da morte de inocentes o seu negócio. A guerra não pode ser uma offshore de responsabilidades criminais

24 janeiro 2023 9:57

A recente reunião de Rammstein que acolheu o Grupo de Contacto de Defesa da Ucrânia juntou os principais países do mundo ocidental e os mais desenvolvidos. À exceção da China e obviamente da Rússia e de alguns estados dependentes da Rússia ou do financiamento chinês, as principais democracias liberais estiveram do lado certo da história.

Se a guerra se trava entre Rússia e a Ucrânia, país recorrentemente invadido que procura apenas defender-se, a verdade é que o mundo ocidental não hesitou e colocou as suas armas e o seu conhecimento, sem falar de toda a ajuda humanitária que não cessou de enviar desde o início do conflito, ao serviço desta nobre causa e provou que há uma clara linha que separa as verdadeiras democracias dos restantes que ou são fantoches do Kremlin, como a Bielorrússia ou dependentes do apoio financeiro chinês.

Outro facto que salta à vista, e que é talvez mais revelador, é que apesar de todas as dificuldades causadas pela guerra e pelo apoio ocidental à Ucrânia como a subida de preços e as dificuldades com a energia, as opiniões públicas têm estado esmagadoramente ao lado das suas lideranças. Neste ponto, não é menos relevante salientar que salvo raras exceções, as oposições políticas nesses países têm estado ao lado dos seus Governos.

Nos últimos tempos temos assistido a uma aparente redução do conflito, pelo menos em termos territoriais e a ações mais localizadas de guerrilha entre a Rússia e a Ucrânia. Se por um lado isso até pode significar um reduzir das hostilidades, por outro também poderá significar um escalar de tremendas e graves dimensões caso este apaziguamento seja apenas um recuo para reagrupar e fazer chegar a território ucraniano mais armas e mais soldados russos para uma segunda investida. Seja como for, mais vale prevenir e todas as armas e equipamentos ocidentais que possam ser disponibilizados às forças ucranianas são obviamente bem recebidos. Esta pode ser também uma oportunidade para derrotar claramente Putin e acabar com as suas ambições imperialistas.

Mais recentemente temos assistido também a um maior empenho dos mercenários do Grupo Wagner a recorrer à propaganda numa linha alternativa à comunicação oficial russa. Seja por mera “honra” face às consecutivas derrotas russas ou por pura promoção comercial, pela primeira vez assistimos a um conflito em que uma das partes é uma empresa privada de matar pessoas. Não se tratam de partes contratadas sob o comando de uma nação, como acontece muitas vezes por parte dos EUA. Trata-se sim de um exército privado com comando próprio e onde muitas vezes não se percebe se é este Grupo Wagner que manda na Rússia ou se é Rússia que ainda está no comando das operações.

A propósito deste novo elemento, parece-me oportuno que os Tribunais Internacionais olhem para esta realidade com outros olhos pois esta não é uma guerra comum. Sejam russos ou ocidentais, os combatentes destes grupos não podem ficar impunes pelos homicídios que têm cometido em solo ucraniano. Se os países europeus, tal como os EUA tiveram mão pesada para os jihadistas europeus que se aliaram ao Estado Islâmico, estes mercenários merecem o mesmo tipo de tratamento. Sejam eles portugueses, franceses ou americanos não poderão continuar a circular pelo mundo como cidadãos inocentes. Aliás, pelo registo de atrocidades que já cometeram, quer na Rússia quer noutros países do Médio Oriente ou de África, deverão enfrentar uma punição exemplar e adequada. A guerra não pode ser uma espécie de “offshore” ou “terra sem lei” com um salvo conduto para matar pessoas, principalmente civis inocentes.