Opinião

A crise do Estado educador

Rui Lage

Rui Lage

Deputado do PS

24 janeiro 2023 10:27

Como o mal-estar da classe docente destes países não pode ser imputado ao Governo português, é forçoso concluir que o problema é transversal ao sistema educacional europeu

24 janeiro 2023 10:27

Por estes dias, quem só tiver olhos para o espaço mediático nacional estará convencido de que Portugal é a mancha negra no mapa europeu da docência. Ora, a comunicação social portuguesa está desde há muito de janelas abertas para a Europa. Ainda há dias, um órgão da nossa imprensa escrita listava dezasseis países da União Europeia onde se exerce algum tipo de controlo sobre as rendas da habitação, para contrapor ao caso português. Mas nenhum jornal ou televisão estabeleceu análogo paralelismo entre o mal-estar dos professores portugueses e o dos professores dos mais variados países europeus.

O descaso é insólito. É que um salto de pardal na infindável pradaria do Google revela que a malaise profissional não só está por todo o lado como as suas causas diferem escassamente de país para país: estagnação salarial, perda de autoridade e de prestígio, burocratização, más condições de trabalho, precariedade; tal como as suas consequências: reformas antecipadas, abdicações, baixas médicas, depressões e esgotamentos, desmotivação, vagas por preencher, professores sobrecarregados, turmas sobrelotadas. Eis as dores que, desde o final de 2022 a esta parte, em Espanha, na Polónia, na Holanda, na Itália, na Áustria, na França, na Irlanda, na Inglaterra e na Bélgica (dos países que pude apurar), os professores e os seus representantes sindicais têm transportado para a rua e para o espaço público. Na Hungria, o desespero é de outra ordem. Aí, nos destroços do Estado de Direito, despedem-se professores por reivindicarem o mesmo que os seus congéneres europeus e desmantela-se o direito à greve. Como o mal-estar da classe docente destes países não pode ser imputado ao Governo português, é forçoso concluir que o problema é transversal ao sistema educacional europeu.

Hoje, de um professor, espera-se tudo: que ensine o programa de fio a pavio, que seja mediador social, provedor da saúde mental, tutor, confessionário, enfermeiro, explicador, psicólogo, pedagogo, instrutor, animador, doutrinador, mentor, projetista, motivador, artista, bombo da festa, em suma, uma quimera profissional, compósito de criaturas oriundas de reinos laborais e ofícios os mais diversos. E, como essa condição quimérica não era ainda o suficiente, funcionalizou-se o professor a ponto de o transformar num amanuense informático. Apesar disto, a imagem de um professor que hoje nos acode à mente é a de um ser frágil, uma presença inaudível na sala de aula, sitiado por adolescentes adestrados no egocentrismo e aculturados no fetichismo dos “vintes” e dos rankings iníquos, que copiam sem dó e sem arte da Internet e por nada se desfazem do extensor cerebral a que ainda chamamos telemóvel.

Na escola atual, em Portugal como na maioria da Europa, a ousadia de saber, kantiana, deu lugar ao proselitismo do “saber fazer”, com o seu arsenal de “competências” e “ferramentas”; o motor de busca desalojou a excursão mnemónica; o pavor de falhar arredou o “falhar melhor” beckettiano. A contemplação e a especulação, a serenidade e a moderação, a lentidão e o recuo, a desconexão regeneradora e o ócio criativo, são experiências incompatíveis com a escola de hoje, que, na escassa vida que tem além dos exames, flauteia as superficialidades de uma educação líquida, que dispensou a solidez da cultura universal e menospreza os livros. Dá-se primazia a uma “cabeça cheia” em vez de, com Montaigne, a “uma cabeça bem-feita”, isto é, a uma cabeça afinada para a lucidez.

Não vamos tão longe quanto o libertário Ivan Illitch, que dizia ser preciso “desescolarizar” a sociedade. Uma sociedade escolarizada é a única via conhecida para a igualdade de oportunidades. Mas a escola não é o mundo, como escreveu Hannah Arendt, é somente a sua antecâmara. O problema é que em tal antecâmara, na nossa época, se dá gás à aceleração do tempo que desfoca o mundo, em vez de desacelerá-lo para o ver e pensar com nitidez.

Como noutras matérias, consolemo-nos a olhar para Norte. Na escola da social-democracia nórdica não encontramos a sacralização dos exames e o regime penitencial a que estes coagem os alunos. Há tempo para passar com livros. Há mais tempo para passar com os pais. Na Finlândia, a maioria dos trabalhadores do setor privado termina o seu horário laboral entre as 16h e as 17h. Claro que esta beatitude educacional e laboral custa dinheiro e é por estas que, naquele país, os impostos valem 44% do PIB.

Numa altura em que tantos pais e mães têm a vida profissional e familiar de pantanas à custa de uma greve heterodoxa, o exemplo nórdico mostra como o modelo educacional e o modelo laboral têm de ser pensados em correlação.

Perante tudo isto, e mais além das questões salariais e de carreira que nos cumpre atender, não estará o Estado educador em profunda crise por essa Europa fora? Na sua generosa ambição, não terá esbarrado nos seus próprios limites? Ainda será possível uma reforma regeneradora do ensino que a todos mobilize? Ou será que aqueles que a toda a hora bradam por “reformas estruturais” não incluem nestas o ensino?