Opinião

Próximos Passos? Voar para longe da sombra

23 janeiro 2023 9:37

Os 3.200 milhões de euros gastos na TAP davam para pagar 4.500 médicos a 3.500 euros/mês e 1.500 professores a 2.000 euros/mês durante 10 anos. Se alguém se sente na sombra de Passos, o melhor que tem a fazer é voar para onde haja sol. E talvez seja prudente não ir na TAP, para não haver atrasos. O país não pode esperar. E sete anos na oposição não se compadecem com “preparações”

23 janeiro 2023 9:37

Em 2015 o Partido Socialista e os seus parceiros da extrema-esquerda anunciaram a reversão da privatização da TAP. A reversão daquilo que vários governos tinham tentado, mas que apenas um - o de Pedro Passos Coelho - tinha conseguido, foi uma das bandeiras da geringonça. 7 anos depois, 3.200 milhões de euros dos impostos dos portugueses depois, indemnizações milionárias depois, portas giratórias depois, nepotismos depois, guerras internas do PS depois eis-nos chegados a 2023 e às declarações do principal responsável por esta bambochata, o dr. Costa: “a TAP deve ser privatizada nos próximos 12 meses”.

Nada contra festas populares, mas neste caso há um problema: a bambochata só foi popular na altura de pagar a conta; porque durante a festa só os amigos de António Costa se divertiram. Para começar, os BFF da extrema-esquerda, que gritaram umas inanidades para justificar o cimento da geringonça: derrubar Passos. Para continuar, os cargos para cônjuges e amigos de governantes e ex-governantes socialistas. Para terminar, os salários, prémios e indemnizações milionárias e a base de recrutamento para outras empresas públicas e para o Governo. A festa foi de arromba: na hora de fechar as portas ninguém se lembra de nada, ninguém sabe de nada, ninguém viu nada, ninguém ouviu nada. Já vi festas assim, só que depois, invariavelmente, é sempre preciso chamar os adultos.

No fundo, nestes sete anos, o que faltou na saúde, na educação, na ciência, na ajuda à economia foi injectado na TAP (Pedro Passos Coelho dixit, em 2020). Nunca é demais recordar: foram 3.200 milhões de euros. Num país onde o salário médio ronda os 1.300 euros/mês, talvez valha a pena, para montantes desta dimensão, darmos aos portugueses alguns valores de referência.

Se o Governo tivesse contratado, por exemplo, 4.500 médicos a quem pagasse 3.500 euros (mais 23,75% de TSU) e 1.500 professores a quem pagasse 2.000 euros (mais 23,75 de TSU), tudo valores muito acima da média das remunerações dos portugueses, gastaria o dinheiro que enterrou na TAP. É muito médico de família, urgências abertas e escolas a funcionar, não é? O que eu não disse, mas digo agora, é que os 3.200 milhões de euros gastos na festa socialista na TAP davam para pagar os salários destes 6.000 profissionais, mas durante 10 anos. 10 anos!

O problema dos sectores da saúde e da educação não se esgotam, obviamente, na questão da falta de recursos humanos, nem na questão das remunerações dos seus profissionais, mas passam e detêm-se tempo suficiente aí para merecerem atenção. Isto, num país que voltou a ter, como em 2011, cerca de 800.000 funcionários públicos, mas piores serviços públicos.

Mas o cenário é pior: com nomeações de gente impreparada, cujo único critério é o da militância no PS, para a gestão de topo e para a gestão intermédia da Administração Pública, os restantes funcionários públicos pasmam e aguentam. Isto, quando não são eles próprios alvo do opróbrio que deveria ser lançado, não sobre si, mas sobre as suas lideranças, como no caso das forças de segurança, durante o consulado do ministro Cabrita. Passos Coelho também o disse em 2020.

Na educação, depois da sanha anti-avaliações da esquerda indulgente e preguiçosa, Portugal desceu no TIMMS - Trends in International Mathematics and Science Study. Anos depois, e para alunos que iniciaram o percurso já em plena geringonça, adivinhem a quem é que o Governo atribuiu a culpa. Isso. O mesmo que afirmou, em tempo útil, que este Governo tem vindo a “desqualificar as políticas públicas e a impor um ónus sobre as gerações futuras, que enfraquece o país e que acabará por gerar maiores desigualdades e injustiças sociais e económicas entre os portugueses”. A razão de Passos e os resultados desta governação estão à vista.

Por estes dias, parece que a questão “Passos Coelho” volta a incomodar muita gente; desta vez até alguns que eu não julgava possível. Pela minha parte, tenho um esclarecimento a fazer: desenganem-se os que acham que é nostalgia e messianismo, o que o país precisa é de futuro e de pragmatismo.

A verdade é que o Governo está morto e em decomposição moral. E o país precisa de experiência governativa, de coragem política, de firme censura ao Governo, de alternativa programática e de capital moral. Cada uma destas coisas. Sem excepção. A alternativa - e não a alternância - ao estado a que isto chegou, precisa de ser clara, competente, reformista, agregadora. E se a esquerda mais radical não gostar dessa alternativa, isso só pode ser bom sinal. É óbvio que, neste cenário, o nome de Passos Coelho surja imediata e inevitavelmente. Porque preenche todos os requisitos. Mas há uma coisa a dizer aos críticos e aos cépticos: isto não é fixação no passado nem imobilismo. Fixação no passado e imobilismo não é prezar Passos e reconhecer as suas capacidades. Fixação no passado e imobilismo é, sem que Passos seja opção, não tratar de apresentar soluções para o futuro. Ou utilizá-lo como bode expiatório para tudo o que de mal acontece ao país.

E como Passos, até ver, não é opção, a alternativa continua a ser necessária, urgente. Conhecem alguém que preencha estes requisitos? Se conhecem - e acho isso óptimo e desejável -, digam-lhe então que nem tudo está perdido, apesar de nada estar ganho, mas digam-lhe outra coisa: se se sente na sombra, o melhor que tem a fazer é voar para onde haja sol. E talvez seja prudente não ir na TAP, para não haver atrasos. O país não pode esperar. E sete anos na oposição não se compadecem com "preparações".

Pedro Gomes Sanches escreve de acordo com a antiga ortografia