Opinião

Como ter sexo feminista — uma introdução

Clara Não

Clara Não

Ilustradora, ativista, autora

23 janeiro 2023 11:23

Sexo feminista é sexo informado, que não tem medo de pôr em questão estereótipos de género; é sexo com segurança, comunicação e, acima de tudo, consentimento

23 janeiro 2023 11:23

A luta contra o machismo não acontece só na esfera pública e profissional, mas também no foro privado. O simples facto de falarmos de algo privado publicamente pode ser um acto de ativismo, porque cria comunidade, cria representatividade.

Ter sexo feminista vai muito mais além do que comunicar o que se gosta e o que não — aqui realço a importância da masturbação a solo. Começa com a questão do mito da virgindade e do drama da “primeira vez”, já abordado na primeira crónica e continua com muitas questões, como consentimento, intimidade e autoconfiança corporal.

Sexo e amor

Quando falamos de sexo, não estamos a falar necessariamente de amor. Um pode existir sem o outro, quer estejamos a falar de relações sexuais sem envolvimento emocional, quer estejamos a falar de pessoas assexuais que só procuram ligações emocionais.

Sexo é libertação, é exploração corporal, é prazer, é quebrar tabus, amarmo-nos a nós mesmas, criar ligações com outra pessoa, nem que seja durante do tempo em que estamos a comunicar corporalmente em harmonia. Para mim, só há uma regra de ouro: consentimento.

Consentimento: a máxima do reino do sexo

Tudo é permitido, com consentimento. Não há cá “fetiches”, só gostos e desejos de experimentar. Gostas de lamber cotovelos e a pessoa com quem estás está disposta a isso? Bora, então, sejam felizes!

Gostares de ser submissa no sexo não faz de ti menos feminista. Gostares de ser dominante não faz de ti mais feminista. Importa que sejas como és e queres ser e que tenhas o consentimento da outra pessoa. Ainda, não precisas de ser sempre uma coisa ou outra (embora possas ser uma ou outra). E nunca te esqueças: se não disseres o que queres, não vais ter o que queres.

Dentro da esfera do consentimento, vamos sempre a tempo de dizer “não”: antes ou durante. E quando se ouve um “não”, é para parar de imediato. Se uma pessoa está a mudar de expressão e não está confortável, parem, perguntem se está tudo bem. Falem. Um “não” pode ser expressado de muitas formas. A pessoa estar desconfortável é um “não”. E neste campo NUNCA é válido o “quem cala consente”.

Se ela/ele diz que não faz sexo sem preservativo, não se faz sexo sem preservativo (nunca se deveria fazer sem análises válidas prévias, mas enfim). Não há desculpas. Não vale um “eu acho que não tenho nada” ou “não confias em mim?”. Se a pessoa com quem estás te disse que não queria fazer sexo mas insististe e ela/ele disse que afinal era ok, isso não é um “sim”, é coerção. Um “não” com insistência nunca vira um “sim”. Não há aqui “vencer pelo cansaço”. Ninguém deve sexo a ninguém. (Por outro lado, claro que se tivermos numa relação e não houver sexo há muito tempo, pode haver frustração e há que falar sobre isso e, se for o caso, procurar um/a sexóloga/o.)

Além disso, não é aceitável fazer sexo com alguém inconsciente, seja por álcool, drogas ou simplesmente a dormir, até porque isso não é sexo, é violação. Válido para todos os géneros. Se estás na dúvida se a pessoa com quem estás está muito alterada ou não, escolhe sempre não fazer sexo. “Mixed feelings is a no”. Relembro que isto é válido para apalpanços, roços, toques sexuais, sexo oral, sexo penetrativo.

Informação como empoderamento

Informação sobre sexo e literacia corporal é empoderamento.

Por exemplo, se ele te disser que “sente menos com preservativo, que preferia não usar”, mostra-lhe como não faltam opções de preservativos finíssimos, extra sensíveis, de todos os tamanhos. Ainda, numa relação heterossexual, quando não se quer usar preservativo mas não se quer engravidar, a opções postas na mesa não devem ser unicamente distinadas ao corpo da mulher. Para além da pílula, CIU, DIU, anel vaginal, implante hormonal, observação do ciclo menstrual, etc, há a vasectomia. (Repare-se que estes métodos não protegem contra as ISTs.) A partir do momento em que não há pílula — e os restantes métodos contraceptivos para pessoas com útero — em distribuição para pessoas com pénis, não há igualdade de género na oferta. A escolha de tomar hormonas ou não, deve ser unicamente da pessoa com vulva. Podes informar-te sobre métodos contracetivos hormonais e não hormonais na página da Sociedade Portuguesa da Contraceção e com a tua/teu médica/o.

Repare-se ainda que a crença e expressão dos “blue balls” é muitas vezes usada como coerção numa relação heterossexual para a mulher ter de “fazer alguma coisa em relação a isso”, porque, “coitadinho”. Se ele está com blue balls e tu, mulher, não queres fazer nada em relação a isso, ele que vá ao wc e trate disso sozinho. Se o faz tantas vezes sem ti, pode fazer mais uma. Haja paciência. As mulheres também ficam muitas vezes frustradas, só não tem um impacto visual e físico tão evidente.

Intimidade e autoconfiança corporal

Muitas pessoas têm imenso pudor em apresentar o seu corpo nu. Tal é potenciado pelos exemplos de “corpos ideais” em todo o lado. Corpos fortemente alterados, quer na vida real, com operações plásticas e tratamentos estéticos, quer no digital, com edição.

Quando estou com timidez de alguma parte do meu corpo em contexto sexual, lembro-me de uma cena de “Comer, Orar, Amar”, em que uma das personagens diz a outra algo como: “aquela pessoa já tem muita sorte em te ter ali nua em frente a ele/a, mais quilo menos quilo não faz diferença nenhuma.”

Além disso, os ideais de beleza estão sempre a mudar, não só ao longo da História, como também de região para região. A verdade é que quem vai conviver com o nosso corpo a tempo inteiro somos nós mesmas. Assim, o nosso corpo tem de ser aceite por nós, o resto é secundário.

Ao contrário da ideia inalcançável que nos tentam vender nas publicidades desta vida, não temos de amar tudo no nosso corpo, para além de que isso é um processo e não uma decisão da noite para o dia. Sejamos honestas, é pouco provável que se ame celulite ou uma valente borbulha no meio da testa, mas podemos aprender a aceitar e a não deixar que isso mexa com a nossa autoconfiança. (Num segundo passo, se passarmos a amar, melhor ainda). A normalização da presença destas características corporais — vermos estas coisas nos media, nas revistas, nas redes sociais — faz com que nos sintamos melhor. Mesmo assim, é natural que procures a validação da outra pessoa, especialmente se gostares dela, mas mais importante é que te lembres de que se alguém não gosta dos teus pêlos ou da tua celulite, ou o que quer que seja no teu corpo, isso não é um problema teu, é um problema dessa pessoa.

Sobre a questão de ter pêlos ou não em qualquer parte do corpo, por muito que eles existam com um propósito, não és necessariamente mais feminista por ter pêlos, nem menos feminista por te depilares, desde de que o faças por uma escolha tua e não para agradar alguém. (Ajudava haver mais representatividade de mulheres com pêlos púbicos e modelos de biquínis e fatos de banho que não fossem decotados até às axilas). No entanto, é interessante refletir sobre esta procura de infantilizar os genitais: uma mulher adulta tem pêlos púbicos,só uma menina antes da puberdade é que não tem.

Lembro-me de comentar esta questão com a minha antiga terapeuta, já que eu tinha vergonha do meu pêlo, mesmo gostando dele. A resposta dela foi impecável: “somos mamíferos, estranho seria que não tivéssemos pêlos”. Se alguém não os tem, pode até ser uma condição de saúde, alopecia. Quem nos lixa esta reflexão são os golfinhos, mamíferos sem pêlo. Bem, a excepção faz a regra. Não somos golfinhos e os golfinhos não fazem foliculite (infecção dos folículos pilosos), nem ficam com pêlos encravados ou assaduras por fricção. Os pêlos existem para nos protegerem de infecções, por isso, na verdade, é mais higiénico tê-los do que não os ter. Mesmo assim, continua a ser uma escolha depilar e como depilar, ou não.

“I like my pussy. Sometimes I stare at it in the mirror when I’m undressing and wonder what it would look like without any hair like when I was a baby. Sometimes I sit at the edge of the bed and spread my legs. And stare into the mirror and wonder what others see. (…) My pussy is the temple of learning” (Madonna, Sex, 1992)

Já tive um namorado que não curtia pêlos púbicos. Nunca me depilei para ele, porque eu não curto não ter pêlos púbicos — já experimentei. Estive com outro outro homem que me disse que eu “ia sentir mais” se os depilasse. Isso é uma alta falta de literacia corporal: os lábios não têm pêlos, o clitóris não tem pêlos, a vagina não tem pêlos, o períneo não tem pêlos. Ou seja, os sítios com as terminações nervosas que importam não têm pêlos. Então, porque raio é que um monte de vénus sem pêlos me daria mais prazer? Felizmente, também já estive com pessoas que amam mesmo pêlos púbicos ou para quem isso é indiferente. Há de tudo, estronços e pessoas em condições. Claro que podemos ter preferências pessoais, mas isso continua a ser um problema nosso e não da pessoa com quem estamos.

Já li várias vezes homens e mulheres a dizerem que o/a parceiro/a sexual ter pêlos púbicos dificulta a prática de sexo oral. Amigo/a, afastas o pêlo com as mãozinhas e fazes tudo na mesma, ou quem tem franja anda por aí a ir contra paredes?

Ainda sobre autoconfiança e empoderamento, se és mulher cis que tem sexo com pessoas com pénis, um ato de empoderamento é teres preservativos em tua casa, como gostas, os que queres experimentar e lubrificante (com preservativos, usem lubrificantes à base de água) — não que eu ache que o custo da proteção deva ser suportado unicamente pela mulher, mas antes para reforçar o poder de escolha. Podes também comunicar com o teu parceiro o tipo de preservativos e lubrificantes que gostas mais, para assim encontrarem os produtos que melhor sirvam os dois lados.

Sexo e período

Se queres fazer sexo durante o período, comunicá-lo e fazê-lo pode ser um ato de empoderamento. A primeira coisa que precisas é de consentimento da outra parte. Num dos seus shows, a humorista Ali Wong conta a coisa mais sexy que alguma vez lhe disseram: estava menstruada, a enrolar-se com um homem e, no meio dos beijos, sentiu a responsabilidade de lhe dizer que estava com o período, ao que ele lhe responde “oh, well, then let’s make a f*cking mess, Ali”.

Se não querem sujar os lençóis, têm sempre a tradicional toalha grande pela qual não se tem grande amor e ainda outras alternativas para práticas sexuais durante a menstruação. Flo Perry sugere sexo no duche ou meter um tampão e fazer estimulação clitoriana, sem penetração. Para além disso, a pessoa com útero pode usar um disco menstrual que, pelo seu posicionamento anatómico, permite ter sexo penetrativo (com pénis, mãos ou brinquedos sexuais) sem qualquer impedimento ou fugas de período.

Notas conclusivas

O que é importante fixar é que sexo feminista é sexo informado, que não tem medo de pôr em questão estereótipos de gênero; é sexo com segurança, comunicação e, acima de tudo, consentimento. Há mais parâmetros que poderiam ter sido aqui falamos, mas, como diz o título, trata-se apenas de uma introdução.

Importa também realçar que não precisas de estar (ou já estar) à vontade para fazer tudo. Não és mais feminista por já teres feito ou quereres fazer pegging, por exemplo. (Veja-se o episódio To Peg or Not to Peg, da série The Bold Type). Por outro lado, um homem que gostaria de experimentar pode demonstrar que é mais anti-machista por o comunicar, já que é algo que não seria aceitável numa educação machista de masculinidade tradicional. Se é algo que realmente queres experimentar, é um ato de empoderamento comunicá-lo e com consentimento fazê-lo.

Por último, é necessário criarmos espaços seguros de partilha dentro do tema da sexualidade, para que possamos evitar situações desagradáveis ou até de violência sexual.

Referências:

Livros:

  • How to have feminist Sexy — a Fairly Graphic Guide, de Flo Perry, edição de 2019, editado pela Particular Books, uma chancela da Penguin Books.
  • Sex, de Madonna, com fotos de Steven Maisel editado pela Warner Books, 1992. Obrigada a Maria Ferreira que mo emprestou.
  • Viva a Vagina, de Dra. Nina Brochmann e Dra. Ellen Støkken Dahl, edição de 2020, traduzido por Elsa T.S. Vieira, editado pela Porto Editora.

No digital:

  • Blog Círculo Perfeito, da autoria de Patrícia Lemos, uma das melhores referências nacionais para educação menstrual e para a fertilidade. Também autora do excelente livro sobre menstrução Não é Só Sangue e da versão infanto-juvenil Período — um guia para descomplicar, porque a menstruação não tem de ser um bicho de sete cabeças.
  • Série The Bold Type, disponível na Netflix, criada por Sara Watson, protagonizada por Katie Stevens, Aisha Dee e Meghann Fahy. Extremamente pertinente para questões feministas, sem ter o peso de vocabulário de literatura feminista.