Opinião

Porque mentem as sondagens

Luís Paixão Martins

Luís Paixão Martins

Consultor de comunicação

19 janeiro 2023 10:11

Se os dados mediatizados das sondagens eram considerados, no passado, como um retrato, hoje em dia, com o impacto dado à sua divulgação, devem ser considerados como instrumentos de influência dos eleitores, a par dos outros conteúdos de uma campanha eleitoral. E, ao influenciar os eleitores, estão a concorrer com os outros conteúdos no sentido de modificar as suas motivações. E sendo alteradas as motivações mudam-se os sentidos de voto e produzem-se novos dados para as sondagens

19 janeiro 2023 10:11

Durante década e meia a Literary Digest teve o monopólio das sondagens. Era a única publicação que se atrevia a antecipar o resultados das eleições presidenciais dos Estados Unidos. E acertou no vencedor entre 1920 e 1932, com discrepâncias pontuais perfeitamente aceitáveis.

Em 1936 deu-se a tragédia. O erro foi de 20 pontos percentuais. Vencia Franklin D. Roosevelt, e não o antecipado governador do Texas, que a história apagou da memória. Surgia então o ainda não famoso Dr. Gallup para gritar que o rei ia nu. E ia.

A amostra da sondagem da Literary Digest não correspondia ao universo dos eleitores norte-americanos. Numa iniciativa inteligente para angariar assinantes, a antepassada da Time Magazine envia uns milhões de postais (em dada altura atingiu os 20 milhões) para uma base de dados em que se alinhavam os donos de automóveis e os assinantes de telefones. Por acaso, em quatro sucessivos atos eleitorais, os dados assim obtidos coincidiram com os resultados eleitorais.

À quinta sondagem, Gallup e um par de outros pioneiros dos estudos sobre a opinião pública apontaram os erros da amostra e compararam com as suas previsões, que já tomavam em consideração idade, ocupação, género, raça, distribuição geográfica, nível de vida. Eles acertaram no vencedor, embora longe da dimensão do imprevisto “superlandslide”, a Literary Digest falhou.

O mundo político-mediático e a indústria do consumo acomodaram-se então à ciência, às sondagens eleitorais e a outros instrumentos que invocavam o suporte científico, nomeadamente na caraterização da amostragem, para adiantar o comportamento dos cidadãos e das cidadãs. Inquiriam-se uns tantos, metodicamente selecionados, e ficava-se a saber o que todos queriam. Este estado de felicidade foi, no entanto, interrompido em 1948. Quem se interessa por estes assuntos está agora a invocar aquela célebre foto, a preto e branco, de um Harry Truman à gargalhada empunhando a 1.ª página do Chicago Tribune que anunciava a sua derrota perante o outro candidato presidencial, Thomas Dewey. “Dewey defeats Truman”, lia-se a toda a largura da manchete, em consonância com todos os estudos eleitorias então publicados.

O que teria, então, ocorrido para provocar esta hecatombe à indústria agora “científica” das sondagens? Pelos vistos, os especialistas menosprezaram a dinâmica da campanha. A vitória de Dewey a um mês das eleições era tão evidente (e foi tão precocemente anunciada) que não se achou necessário voltar as inquirir os eleitores. Pelo sim pelo não, a organização do Dr. Gallup não voltou a fazer sondagens eleitorais que antecipem os resultados qualitativos.

A indústria aprendeu a nova lição e soube adaptar-se às novas circunstâncias de um mundo que se movimenta mais depressa e muda de opinião em consequência das vagas mediáticas e das estratégias dos consultores políticos. Como ocorreu com as amostras, a dinâmica das campanhas passou a ser considerada e os dados das sondagens passaram a ser afinados quase diariamente e até às vésperas das eleições. E, mesmo assim, com novas técnicas e mais cuidados, em 2020, na mais recente eleição presidencial dos EUA, as sondagens eleitorais registaram a pior performance dos últimos 40 anos, segundo a conclusão da própria American Association for Public Opinion Research - AAPOR.

Apesar desta performance acertaram no vencedor, Joe Biden, quando, quatro anos antes, tinham previsto a vitória de Hillary Clinton contra o realmente eleito Donald Trump. Porquê? Porque, segundo se concluiu depois, os inquiridores têm enormes dificuldades, nos contactos que fazem, em obter respostas de eleitores brancos sem habilitações académicas. E porque a percentagem de contactados que aceitam responder é baixissima. Na “live polling” do New York Times, a que o público pode assistir, 91 em cada 100 chamadas produzem como resultados “não respondem” ou “declinam responder”.

Num mercado eleitoral mais pequeno e homogéneo como o nosso, a experiência e a qualidade técnica dos especialistas tem permitido corrigir este tipo de deficiências da amostra e da dinâmica no sentido de apresentar resultados que são, apesar de tudo, mais consentâneos com os reais. Mas sendo verdade que os estudos eleitorais disponíveis são muito competentes ao fornecerem as motivações dos votantes, continuam a ser apenas sofríveis na previsão dos resultados eleitorais.

Para esta circunstância contribui certamente o facto “escondido” de os inquiridos prestarem falsas respostas. A falsidade mais evidenciada é a que respeita à participação do ato eleitoral: embora, em média, apenas uns 15% a 20% dos inquiridos se declarem abstencionistas, os números reais da abstenção são, como sabemos, bastante superiores. E não há maneira de antecipar, de entre os inquiridos, quem vai realmente votar e quem, apesar de dizer que vai, acaba por não ir. Problema insolúvel.

Há, no entanto, uma outra questão, esta mais atual, que faz com que os consultores de marketing e os analistas políticas tenham agora de olhar para as sondagens de maneira diversa daquela que era a comum no séc. XX - estas deixaram de ser apenas estudos eleitorais e passaram a ser produtos de comunicação.

É um dado recente que a divulgação dos resultados obtidos nas sondagens passou a constituir um ingrediente importante das campanhas eleitorais. As várias estações de TV, geralmente liderando uma plataforma de outros media, publicitam com periodicidade cada vez mais apertada e com destaque cada vez maior os resultados dos estudos que encomendam. Durante um período que chega a atingir as 24 horas “a sondagem” é o destaque nos vários programas de informação, secundarizando as próprias ações de campanha dos candidatos.

Ora, o impacto destes dados não pode deixar de influenciar os eleitores, pelo menos no que respeita ao universo dos ainda indecisos. Ou seja, as sondagens não servem apenas para nos mostrar qual é a disposição dos eleitores num determinado momento, mas também para, no momento seguinte e com o conhecimento dos dados apresentados na sondagem, influenciar e alterar a disposição dos eleitores.

Se os dados mediatizados das sondagens eram considerados, no passado, como um retrato, hoje em dia, com o impacto dado à sua divulgação, devem ser considerados como instrumentos de influência dos eleitores, a par dos outros conteúdos de uma campanha eleitoral. E, ao influenciar os eleitores, estão a concorrer com os outros conteúdos no sentido de modificar as suas motivações. E sendo alteradas as motivações mudam-se os sentidos de voto e produzem-se novos dados para as sondagens.

Por isso é que afirmo que, independentemente da qualidade técnica do estudo, no momento seguinte a serem divulgados os dados da sondagem mediatizada eles falecem. É como os abstencionistas: temos consciência que nos estão a mentir mas não sabemos em que percentagem.