Opinião

"Sou eu, titi!": António Costa é o Teodorico Raposo socialista

16 janeiro 2023 9:45

Este homem é primeiro-ministro há quase oito anos. É tempo de dizer a Costa que já não nos vende o 76.º prego utilizado para crucificar Jesus! Nem isso, nem nenhuma das demais patranhas que anuncia. Ou, como respondeu a tia ao Teodorico, "não admito relaxações, vais para a rua como um cão!" (o PAN e os cães que me perdoem)

16 janeiro 2023 9:45

António Costa esta semana teve uma epifania, converteu-se e fez-se um homem novo. Ou então, na metáfora de São Paulo, limitou-se a cair do cavalo.

Na quarta-feira, no Parlamento, organizou um auto de fé e sacrificou Alexandra Reis, Carla Alves e Rita Marques, ex-Secretárias de Estado do seu governo, no altar da hipocrisia. Que eu tenha dado conta, não disse uma palavra sobre Miguel Alves, escolha escandalosa da sua inteira responsabilidade. Mas para Costa, o que lá vai lá vai. O povo costuma dizer, para sinalizar a cobardia daqueles que se apressam a lançar as culpas sobre os subordinados, que há os líderes e há os chefes. Nesta escala, é caso para dizer que há os líderes, há os chefes e há o Costa: se é preciso salvar o Costa, preparem os vossos costados.

Na quinta-feira, o Governo anunciou um questionário que passará a utilizar antes de qualquer nomeação governamental. Vale a pena fazer uma teleologia do questionário. Qual é o propósito do questionário que o Governo pôs o país a discutir? A resposta do Governo é aumentar o escrutínio das nomeações. A resposta certa, porém, está inscrita na própria pergunta que formulei: pôr o país a discutir a virtude da iniciativa. E, já agora, a bondade do proponente. Porque enquanto se discute a virtude do futuro, não se discute o vício do presente.

O questionário, esse, é um embuste inútil. É improcedente, incompleto e inconsequente. Mas o que mais impressiona neste questionário é o seu epílogo, que, do ponto de vista moral, mais parece um epitáfio. Pede-se que o respondente declare, sob compromisso de honra, que é verdade tudo o que declara. Imagine o estimado leitor um corrupto qualquer a declarar sob compromisso de honra que é absolutamente pio e confiável. Eu cá confio; não na declaração, claro, mas na conclusão: à velocidade a que caem governantes nesta legislatura, estou convencido que ainda vão a tempo de descobrir sozinhos o quão inútil é o exercício.

No sábado, Costa exortou os fiéis à acção: combate à precariedade, reforma do SNS, pressão máxima nas políticas de habitação e execução dos fundos comunitários e do PRR. E resultados em três meses, camaradas. Em frente e em força!

E se o estimado leitor julga que a ambição do nosso primeiro se ficou por aqui, prepare-se: António Costa pediu ainda aos camaradas, em nome não sei quê da história do PS, que sejam “muito mais exigentes” na escolha dos seus autarcas e dirigentes. Aqui, confesso que me perdi, porque não sei a que história se estaria a referir, mas imagino que seja qualquer coisa anterior à sua entrada no Governo do eng. Sócrates.

Este homem é primeiro-ministro há quase 8 anos. É ele o único responsável por Azeredo, Constança, Cabrita, Temido, Pedro Nuno, Medina, Miguel Alves. É ele o máximo responsável político por Alexandra Reis, por Rita Marques, por Carla Alves. É ele o secretário-geral do Partido Socialista. É ele o responsável pela ruína da TAP, pelo colapso do SNS, pela destruição da escola pública, pelo empobrecimento do país, pela paralisia da Justiça, pela erosão da autoridade das forças de segurança e pela fraca execução dos fundos comunitários. É ele o responsável pela podridão no Estado. Quem o ouça e não o conheça ainda se convence que acabou de chegar agora à liderança da oposição.

António Costa é o Teodorico Raposo socialista. A história de Teodorico, personagem d'A Relíquia, de Eça de Queiroz, conta-se em duas penadas. Um farsante, que para enganar a tia e lhe ficar com a fortuna, faz-se passar por devoto e ruma à Terra Santa. No regresso, envolve-se num negócio de venda de relíquias falsas, tentando enganar toda a gente em proveito próprio. Porém, como a ganância usa ser maior do que a sensatez, rapidamente se espalha ao comprido.

"- Essa léria não pega, senhor! - gritou ele, com as veias a estalar de cólera na fronte esbraseada. - Foi Vossa Senhoria que estragou o comércio!... Está o mercado abarrotado, já não há maneira de vender nem um cueirinho do Menino Jesus, uma relíquia que se vendia tão bem! O seu negócio com as ferraduras é perfeitamente indecente... Perfeitamente indecente! É o que me dizia noutro dia um capelão, primo meu: "São ferraduras de mais para um país tão pequeno!..." Quatorze ferraduras, senhor! É abusar! Sabe Vossa Senhoria quantos pregos, dos que pregaram Cristo na cruz, Vossa Senhoria tem impingido, todos com documentos? Setenta e cinco, senhor!... Não lhe digo mais nada... Setenta e cinco!"

É tempo de dizer a Costa que já não nos vende o 76.º prego utilizado para crucificar Jesus! Nem isso, nem nenhuma das demais patranhas que anuncia. Ou, como respondeu a tia ao Teodorico: "não admito relaxações, vais para a rua como um cão!" (o PAN e os cães que me perdoem).