Opinião

O bolsonarismo sonso de cá

António Filipe

António Filipe

Membro do Comité Central do PCP e professor universitário

16 janeiro 2023 10:23

Perante o escancaramento público da verdadeira face do bolsonarismo, violenta, desordeira, destruidora das instituições democráticas, os bolsonaristas de cá dizem lamentar a violência, mas apoiam o que a origina. Lançam a pedra e escondem a mão

16 janeiro 2023 10:23

Os acontecimentos recentes de Brasília, com a invasão dos edifícios dos órgãos de soberania (Presidência, Congresso e Supremo Tribunal) por uma turba fanatizada, não foi a primeira exibição pública do bolsonarismo. Foi apenas mais uma tentativa, desta vez desesperada, de reverter o resultado eleitoral que o derrotou e de reclamar a instauração de uma ditadura terrorista semelhante à que governou o Brasil após o golpe militar de 1964.

Sabe-se já, e saber-se-á porventura melhor nos próximos tempos, que a iniciativa do ataque aos órgãos de soberania não foi um ato espontâneo. Contou com altas cumplicidades, designadamente ao nível do poder bolsonarista instalado no Distrito Federal (Brasília), cujas forças policiais fizeram por ignorar o que estaria a acontecer, e contou uma forte base organizativa e financiadora, não apenas naquele dia, mas nos acampamentos que, desde o dia da eleição, se manifestavam contra a derrota de Bolsonaro.

Contudo, o bolsonarismo não nasceu agora nem é uma criação espontânea de uma turba. O bolsonarismo foi a consequência da ação das classes dominantes do Brasil para impedir por todos os meios o prosseguimento de políticas progressistas naquele país.

Muitos se interrogam como se explica que, tendo Lula da Silva deixado a Presidência do Brasil em 2010 com uma taxa de aprovação de 87%, o que revelava um grau de satisfação extremamente elevado com a governação do país, se tivesse instalado em pouco tempo um ódio tão intenso contra si e o seu partido que levou a extrema-direita ao poder.

Não há obviamente uma única explicação, mas há elementos que importa considerar.

Em 2014, o candidato derrotado por Dilma Rousseff, Aécio Neves, recusou-se a aceitar o resultado eleitoral e apostou na ingovernabilidade do país a partir de um Congresso Nacional onde as forças da oposição eram claramente maioritárias, como se tornou evidente aquando do processo de impeachment que depôs Dilma Rousseff. Processo fraudulento, porquanto a deposição só seria constitucionalmente admissível no caso de condenação por crime de responsabilidade e essa deposição foi feita apesar da evidência de não ter havido crime algum.

Entretanto, uma operação de largo espetro havia sido lançada visando o combate à corrupção, designada “Operação Lava-jato”. A convicção de que a corrupção na política brasileira era um fenómeno endémico não carecia de qualquer demonstração. Aliás, foi o reconhecimento que assim era que levou os Governos do PT a reforçar os meios legais destinados a combater a corrupção mesmo para além do que é admissível num Estado de Direito, designadamente através da famigerada “delação premiada”.

Sucede que a Operação Lava-jato acabou por se tornar, através de um conluio entre os poderes económico, mediático e judiciário, uma poderosa arma de arremesso contra a democracia brasileira. Através de um processo altamente seletivo de delações premiadas, muitas das quais se revelariam inteiramente forjadas, a Operação Lava-jato criou na opinião pública brasileira a imagem da política como uma atividade criminosa, concitando o ódio contra os políticos e contra a própria democracia.

Lançadas injustamente sobre o PT as culpas exclusivas da corrupção, afastada Dilma Rousseff da presidência pela via golpista, era preciso impedir Lula da Silva de se candidatar em 2018, mas também para isso havia um plano, que ficará na História como um dos maiores opróbrios da Justiça e da comunicação social no Brasil.

A TV Globo, um procurador (Dallagnol) e um juiz de primeira instância (Sérgio Moro) divulgaram um powerpoint onde proclamavam sem nenhuma prova, mas apenas com “convicção”, que Lula da Silva era o centro de uma organização criminosa. A partir daí lançaram uma série de teses fantasmagóricas acusando o antigo Presidente de ser dono de imóveis que nunca foram seus, de receber dinheiro que nunca conseguiram demonstrar que tivesse sido recebido e, mesmo não tendo encontrado uma única prova das suas acusações, ditaram a sentença e, em conluio com a segunda instância, decidiram em tempo recorde a sua prisão, prontamente executada mesmo sem trânsito em julgado.

Prisão política, portanto, durante mais de 500 dias. A decisão do Supremo Tribunal Federal de impedir a sua candidatura em 2018, tomada por 6 juízes contra 5, sob pressões explícitas das chefias militares, ficará como uma triste nódoa no percurso deste Tribunal, que nem o facto de terem sido posteriormente anuladas todas as acusações sobre Lula e provada a desonestidade de Moro e Dallagnol poderá apagar.

O bolsonarismo não nasceu, portanto, em janeiro de 2023. Nasceu do discurso de ódio contra a política que é sempre um discurso não contra a política mas contra a democracia, como se em ditadura o poder fosse exercido por seres impolutos e imaculados. Nasceu de uma comunicação social dominante que promoveu esse discurso e que o orientou politicamente para combater o PT e impedir a eleição de Lula da Silva, colocando num pedestal as figuras de Moro e Dallagnol, cuja parcialidade está hoje mais que demonstrada. Nasceu de uma utilização massiva das redes sociais para a difusão sistemática da mentira ao serviço da conquista do poder político, usando o discurso antissistema para levar ao poder o mais perverso que o sistema pode produzir.

A reação dos bolsonaristas perante a derrota eleitoral só surpreende os distraídos. Desde há mais de um ano que se sucediam as acusações do próprio Bolsonaro contra o sistema de apuramento dos votos, de modo a justificar a impugnação de qualquer resultado que não lhe conviesse. De há muito se sucediam agressões e mesmo assassinatos cometidos por bolsonaristas. Ninguém pode ignorar o elogio de um torturador pelo próprio Bolsonaro quando votou o afastamento de Dilma Rousseff e os seus reiterados elogios à ditadura que aterrorizou o Brasil durante duas décadas.

A reação de Bolsonaro à invasão da sede dos três poderes é a de quem lança a pedra e esconde a mão. Simula um distanciamento em relação aos acontecimentos como que a querer dizer que ele próprio, Bolsonaro, é alheio ao bolsonarismo. E mente, ao pretender equiparar estes acontecimentos a manifestações da esquerda que nunca existiram.

Sucede que esta reação de Bolsonaro é muito idêntica à dos bolsonaristas de cá.

É inegável que Bolsonaro tem apoiantes em Portugal que nunca o esconderam e que até se vangloriavam desse apoio. Há vídeos de Ventura a apoiar Bolsonaro em 2022. Há tweets vindos da IL manifestando a preferência por Bolsonaro em relação a Lula da Silva.

Quando Ventura se sente obrigado a votar favoravelmente o voto de condenação dos atos de vandalismo em Brasília aprovado na Assembleia da República, insiste, no seu discurso, em mentiras grosseiras. Apelida Lula da Silva de “bandido” sabendo que não houve uma única prova contra ele e que todas as acusações que o visavam foram anuladas pelo poder judicial; relativiza a gravidade dos acontecimentos de Brasília fazendo comparações inacreditáveis com as mortes provocadas pela repressão no Perú levada a cabo pelo governo golpista que afastou Pedro Castilho e com os assassinatos perpetrados na Colômbia por esquadrões da morte, atribuindo tais atos – imagine-se - à esquerda.

A extrema-direita portuguesa não deixou de ser bolsonarista e de tentar aplicar os seus métodos para ganhar apoios em Portugal. Recorre a mentiras despudoradas, sabendo que mente; lança anátemas contra a política e os políticos, exigindo limpezas, como se tivesse alguma autoridade moral para o fazer; procura lançar o descrédito e a lama na vida política, transformando o debate político numa arruaça permanente; propõe tudo e o seu contrário; fomenta o discurso do ódio até à exaustão; e para culminar, perante o escândalo público da violência bolsonarista, demarca-se das consequências da desordem mas continua a apoiar os desordeiros, como sempre fez. Em suma: tal como o seu ídolo Bolsonaro, lança a pedra e esconde a mão.