Opinião

Ansiedade, Frustração, Exaustão: o Drama, a Tragédia, o Horror

Clara Não

Clara Não

Ilustradora, ativista, autora

16 janeiro 2023 11:27

Queremos soluções aqui e agora e entramos em rodopio mental quando não as temos. Muitas vezes acabamos por tomar decisões precipitadas, não eficazes a longo prazo, em vez de aprendermos, pelo menos, a correr devagar

16 janeiro 2023 11:27

Se eu pudesse falar com a pessoa que propagou o agora ditado popular “Quem corre por gosto não cansa”, apresentar-lhe-ia a minha baixa médica por burnout em 2015, a minha hipoglicemia do mesmo ano, o meu défice de ferro de 2020 e a conta de tratamentos para bruxismo e contraturas musculares.

Essa pessoa mentirosa com certeza seria amiga do/a autora/a da brilhante frase “escolhe um trabalho de que gostes e não terás que trabalhar nem um dia na tua vida.” (Atribuída a Confúcio, mas quem sabe). A conclusão a que chego é que esta pessoa devia mesmo odiar o trabalho que tinha. Porque, a verdade, é que por muito que se seja mais feliz a fazer algo que se gosta do que num emprego que se odeia, muitas vezes acabamos a dedicar mais tempo a um trabalho que gostamos, até nos levar à exaustão. (Não nos esqueçamos que em ambientes corporativos, o trabalho em exagero pode ser quase ou mesmo exigido, com o perigo iminente de se poder ficar sem emprego.)

Hoje sei que uma das coisas mais produtivas do mundo é descansar. Trabalhamos melhor, temos mais tempo para delinear estratégias. Ainda, quando não toldadas pelo cansaço, tornamo-nos pessoas mais aptas para percebermos quais são as janelas que são para abrir e as que não são. Isto porque não só é preciso estarmos atentas/os às novas oportunidades que surgem, como perceber quais nos desviarão do caminho que queremos. Atrevo-me a dizer que é mais importante, e difícil, sabermos quando temos de dar um redondo não, do que aceitar à partida o que nos presenteiam com opção. Dizer que sim a uma proposta que nos é dada é a coisa mais fácil a curto prazo, mas pode significar um arrependimento a longo prazo, especialmente se só aceitamos para não desiludir outra pessoa.

Aprender a correr devagar

A velocidade a que vivemos, as intermináveis listas de afazeres, os objetivos inalcançáveis a que nos propomos, a constante comparação com outras pessoas que parecem estar sempre bem (que irritantes), faz com que a ansiedade cresça. Queremos soluções aqui e agora e entramos em rodopio mental quando não as temos. Muitas vezes acabamos por tomar decisões precipitadas, não eficazes a longo prazo, em vez de aprendermos, pelo menos, a correr devagar, como escreve April Rinne (2022, pág. 50).

Quanto à comparação, posso afirmar que, muitas vezes, o que as pessoas escondem diz muito mais sobre elas do que o que elas mostram. Convido também o/a leitor/a a pensar numa página de instagram pessoal que só mostre, ou, vá, que mostre mais coisas que correram mal na vida dessa pessoa do que coisas que correram bem. Adaptando a famosa intervenção de Serrão: Diga uma! Diga uma! Claro que há o outro lado da questão: se eu estou a ter um ataque de pânico ou a sofrer a sério, a última coisa que quero fazer é pegar no meu telemóvel e filmar-me. Quero é desaparecer um bocado, viver no nível -4 do sofá. Por isso, não podemos exigir às pessoas que nos mostrem os momentos horríveis da sua vida, mas era bom ter acesso a mais realidade e a menos curadoria da vida pessoal.

Acima de tudo, importa lembrarmo-nos de que não há ninguém no mundo que não tenha algum problema, por muito que a sua vida pareça perfeita. Felizmente, há cada vez mais pessoas com exposição mediática que abrem as portas para o lado cru da sua vida, aumentando a representatividade. (No entanto, não é a sua obrigação, é uma escolha.) O sucesso contínuo é uma valente falácia e muito provavelmente a velocidade rápida de crescimento de alguém ou de alguma marca é aparente ou toldada de privilégio económico.

O drama da ansiedade

Quando pensamos em muitas coisas ao mesmo tempo, podemos acabar numa novela dramática de ansiedade. À velocidade a que vamos, dedicamos todo o espaço mental a resolver problemas e a imaginar possíveis cenários consequentes desses mesmos problemas. “Porque se eu estiver preparada para tudo o que acontecer, nunca irei ser surpreendida e estarei sempre pronta para agir, não é?” Alerta: ansiedade!

A ansiedade “pode ser definida como um estado de medo ou receio motivado por fatores como a antecipação de uma situação potencialmente desagradável, a percepção de que se está/estará em perigo, a ser ameaçado ou vulnerável ao ambiente e/ou às outras pessoas. Estima-se que cerca de 20-25% da população sofra de algum tipo de perturbação de ansiedade”. (Sophie Seromenho, 2022)

A ansiedade existe para conseguirmos fugir do leão. Quando um miar de gato nos causa a mesma ansiedade que um rugido de leão, essa ansiedade não é produtiva, é um desperdício de energia e um desgaste inútil para o nosso corpo.

Neste contexto, corremos o risco de gastarmos mais tempo a tentar solucionar possíveis problemas que nem sequer existem do que a focarmo-nos nos que realmente existem. Uma vez uma terapeuta disse-me: “A Clara pensa em todas as possibilidades das coisas correrem mal. E se as coisas correrem bem?”. O mais cómico é que eu nunca tinha pensado nisso. Desse momento surgiu a frase que, embora pareça tão simples, me trouxe tanta tranquilidade: as coisas podem correr bem.

Num ambiente de constante exigência e comparações alheias, acabamos frustradas e a culparmo-nos grandemente das derrotas sem festejar as vitórias pelo caminho, porque chegar aos nossos objetivos parece simplesmente uma obrigação e não motivo de festejo. Ainda, autoculpabilizamo-nos por coisas que aconteceram fora do nosso alcance e ficamos ali a remoer. Para isso, ajudou-me imenso uma frase que Helena Magalhães escreveu no seu livro Ferozes: “O meu corpo está vivo. E eu estou bem.” (Pág. 228).

Claro que é importante percebermos o que funciona e o que não e termos exemplos de pessoas que nos inspiram. Mas, acima de tudo, é preciso ter amor-próprio pelo caminho. Aliás, há muita beleza e oportunidade em redondos falhanços — veja-se o livro “Failed it” de Erik Kessels. Ainda, é necessário entendermos que o que queremos muitas vezes não é compatível com o que precisamos. Por exemplo, eu quero muito conseguir trabalhar pela noite dentro, mas o que eu preciso é de descansar.

Mecanismos para quebrar o ciclo de stress que mais vale experimentar, nem que seja para tirar a teima

Nunca deixaremos de ter problemas a nível pessoal e profissional. NUNCA. Essa é a nossa base de ação. A magia está em conseguirmos encontrar a felicidade no meio do caos: os problemas vão existir sempre, mas a nossa forma de os encarar pode mudar.

Ainda, só por lidarmos com os elementos que nos causam stress, não quer dizer que o deixemos de sentir, porque podemos não ter completado o ciclo. Por exemplo, só porque acabamos de fazer a apresentação para a qual estávamos tão nervosas, não ficamos subitamente calmas. Há que completar o ciclo. “O nosso corpo continua encharcado de “sumo de stress”, a aguardar uma pista que lhe garanta que está finalmente livre da potencial ameaça, podendo descontrair e festejar” (Nagoski & Nagoski, 2021, pp. 27,28).

Emily e Amelia Nagoski, no seu livro Burnout, apresentam várias opções simples para completar o ciclo de stress, que não custa nada tentar: dançar pela casa toda, transpirar numa aula de dança, ou qualquer coisa que nos faça mexer, para nos cansar fisicamente e podermos relaxar. Devemos fazê-lo, entre 20 a 60 minutos por dia. Ainda, há outras sugestões como exercícios de respiração; interação social positiva esporádica — falar com o condutor da FreeNow, por exemplo; riso em conjunto com amigos — a recordar memórias cómicas; afeto com pessoas de quem gostamos, por exemplo num abraço de 20 segundos — estudos comprovam que altera as nossas hormonas (oxitocina, yey), baixa a tensão arterial e o ritmo cardíaco; ainda temos o clássico choro; e a expressão criativa. (pp. 35-39). (Não nos esqueçamos do consentimento no meio disto tudo.)

Além disso, para lidar com a tragédia grega da frustração, as autoras escrevem sobre várias técnicas sendo uma delas a redefinição do conceito de vitória. Para se perceber o exemplo abaixo referido, tenha-se em conta que as autoras referem-se ao mecanismo cerebral que decide se devemos continuar a tentar ou desistir como “Monitor”. Este Monitor vai mantendo registos dos nossos esforços e progressos. Aqui vai o exemplo:

“Vamos supor que o seu objetivo é escalar o Evereste. Se começar a caminhada montanha acima com a expectativa de chegar ao cume rápida e facilmente, assim que as dificuldades começarem a surgir, o seu Monitor vai passar-se dos carretos. O mais provável é que desista. Ou comece a perguntar-se se há algo de errado consigo — disseram-lhe que era fácil e, afinal, é muito difícil, por isso o problema não é da montanha, mas a leitora!

Mas se começar a subir a montanha sabendo de antemão que será a coisa mais difícil que jamais fez ou fará na vida, quando as dificuldades surgirem, o seu Monitor vai reconhecer e aceitar esse facto sem qualquer frustração. É um objetivo difícil, logo, é normal que surjam dificuldades.”

Ou seja, podemos usar o mecanismo de prever tudo o que pode correr mal para o bem, para sermos realistas no processo de alcançar objetivos, para podermos evitar frustrações, para termos noção de que nem tudo vai correr bem, mas as coisas podem efetivamente correr bem. Subvertemos, assim, a ansiedade para a preparação ao invés da frustração. Mais fácil dito que feito, mas haja esperança.

Nota conclusiva de uma pessoa com ansiedade

Como já deve ter ficado claro, faço parte da população que sofre de ansiedade. Aposto que a maior parte dos jovens hoje em dia também. Está tudo em crise, é tudo incerto, parece que tudo está para lá do nosso controlo. Ando a trabalhar no facto de que não consigo controlar a maior parte das coisas à minha volta, mas consigo controlar a minha reação, criando mecanismos para lidar com a ansiedade.

O que sei é que lutamos sempre melhor quando descansamos e que conseguimos correr mais tempo se nos hidratarmos pelo percurso, seja essa hidratação água, um abraço de uma amiga, um croissant numa esplanada, o choro na terapia.

Como este assunto é bem mais complexo do que o espaço desta crónica me permite desenvolver, deixo aqui as referências utilizadas para leitura mais aprofundada:

Não é Loucura, É ansiedade — primeiros socorros para combateres a doença do século, de Sophie Seromenho (@a__psicologa), edição de 2022, editora Contraponto. A bíblia sobre a ansiedade, que explica TUDO o que se pode estar a passar no nosso corpo, com textos de leitura simples e diagramas, e ainda possíveis estratégias para gerirmos a nossa ansiedade.

Burnout — o segredo para quebrar o ciclo do stress da mulher, de Emily Nagoski e Amelia Nagoski, edição de 2021, editora Ideias de Ler, chancela da Porto Editora. Um dos melhores livros que já me caiu nas mãos, com piadas, exemplos práticos e categorização simples do que acontece no nosso corpo.

Outros livros referidos:

Quem mexeu no meu futuro? — 8 superpoderes para alcançar o sucesso em tempos de mudança, de April Rinne, da Editora Pergaminho. Sobre como muitas vezes não podemos controlar o que acontece, mas podemos controlar como reagimos. Mais focado em questões de sucesso profissional e liderança.

Ferozes, de Helena Magalhães, editora Suma de Letras, chancela da Penguin Random House. Um livro autobiográfico cheio de comentários astutos da escritora sobre a sociedade, não fosse a Helena uma força da Natureza.

“Failed it” de Erik Kessels, editora Phaidon. Exemplos de supostos erros que se tornaram belos exercícios artísticos.