Opinião

Era tão bom governar sem povo

13 janeiro 2023 0:34

O processo de ocultação e de justificação narcísica pelos governantes não é uma particularidade da tirania que Brecht combatia. É a essência da ocupação do espaço público pelo discurso do poder

13 janeiro 2023 0:34

Dois dos poemas mais conhecidos de Bertolt Brecht, que de algum modo resumem as agruras da sua vida, foram dedicados a governantes em momentos cruciais da História. Um deles, da década de 30, parodia os discursos do Governo nazi, abrindo com os seguintes versos: “Todos os dias os ministros dizem ao povo/Como é difícil governar. Sem os ministros/O trigo cresceria para baixo em vez de crescer para cima”, e sabem como continua. O outro foi escrito duas décadas depois, a propósito da repressão do Governo estalinista contra a revolta popular que começou em Berlim Leste, concluin­do que “O povo perdeu a confiança do Governo/E só à custa de esforços redobrados/Poderá recuperá-la. Mas não seria/Mais simples para o Governo/Dissolver o povo/ E eleger outro?”. Nos dois casos, e em circunstâncias diferentes, os poemas respondem a tiranias. No entanto, há nesta poesia um outro traço comum para além da sátira do discurso justificativo da prepotência, que é a desconstrução da distância. Em política, e muito atento, Brecht obrava de modo contrário ao que propunha em teatro: no primeiro caso queria denunciar e destruir a opressão baseada na distância do poder, no outro queria criar distância para evitar a identificação alienada dos espectadores com quem representava uma peça que não constituía a realidade. A realidade é suja, o teatro queria ser épico; uma engana, o outro mostra.