Opinião

A fotografia

José Gameiro

José Gameiro

Psiquiatra e piloto

13 janeiro 2023 0:50

Não faço juízos morais nem dou absolvições, mas uma pessoa não é uma profissão

13 janeiro 2023 0:50

Pode parecer-lhe ridículo, mas sempre — sempre é um exagero —, desde há muitos anos sobrevivi graças a uma fotografia que tinha em cima da minha secretária.” Senti imediatamente empatia com este homem. Tantos anos a falar com pessoas, nunca tinha tido a oportunidade de conversar sobre o valor de uma foto. Mas sei o que sinto quando percorro os álbuns da minha vida e recordo pessoas próximas que já cá não estão e emoções fortes, algumas, que se pulverizaram. “Era uma imagem corriqueira de um casal, o meu, em férias, numa cidade estrangeira. Estávamos com um ar entre o feliz e o divertido. Foi tirada por alguém que ia a passar, ainda com filme analógico, mas com uma boa revelação, bem nítida. Nesse tempo, as viagens ainda eram para perto, a vida profissional tinha começado, os recursos eram parcos. Foi em Madrid, no Museu do Prado. Ficámos fascinados pela força de um quadro de Goya, ‘A Leiteira de Bordéus’. A tristeza no olhar, a resignação na sua postura, o cântaro de leite a seu lado transmitem a dureza do seu trabalho, quase numa perspetiva neorrealista, antes de tempo. Ainda hoje me pergunto porque escolhi esta fotografia para me acompanhar, nunca fiz nenhuma interpretação sobre o contraste entre a nossa alegria e a expressão da leiteira, creio terem sido razões de acaso. Já vai perceber que o destino estava marcado naquela pintura magnífica.”

Este é um artigo do semanário Expresso. Clique AQUI para continuar a ler.