Opinião

A CEO da TAP, o marido, o seu personal trainer e a companheira dele

12 janeiro 2023 11:26

No que é mensurável, o trabalho que está a ser feito na TAP é bom. É garantido que encontramos melhor? Até parece fácil encontrar um novo CEO para a TAP. Não é

12 janeiro 2023 11:26

Os escândalos com a administração da TAP sucedem-se. É a mentira à CMVM, são os cheques Uber, é a indemnização milionária. Até agora, todos, exceto o que dá título à crónica, me parecem artificiais. Tudo se orquestra para que Christine Ourmières-Widener, diretora-executiva (CEO) da TAP, seja o bode expiatório das nossas culpas. Alijam-se responsabilidades políticas, despedindo-a com justa causa, muito provavelmente, sem direito a indemnização.

A opinião pública escandaliza-se com o dinheiro gasto em indemnizações e em frotas automóveis depois de lá termos empatado milhares de milhões de euros. Mas devia era questionar-se a si mesma. Com a sua privatização, tínhamo-nos livrado da TAP. Mas a sua renacionalização foi sufragada eleitoralmente em 2015. Quando, como consequência e como denunciado pelo Tribunal de Contas, o resultado foi ter um privado a geri-la e o Estado a ficar com os prejuízos, poucos se indignaram. Quando, com a pandemia, o privado se recusou a lá investir, preferimos resgatá-lo, entregando-lhe €55 milhões por uma empresa falida, que ficou à nossa responsabilidade. Foi escolha nossa. Quisemos que assim fosse e fizemos ouvidos moucos a quem alertou para o disparate.

Queixamo-nos da frota automóvel e do cheque Uber, como se, em Portugal, o carro da empresa não fosse generalizado. É estúpido que assim seja, é um símbolo fútil de status. Mas é comum em qualquer empresa com um volume de negócios de poucos milhões de euros. A maioria das vezes faz parte da remuneração acordada — equivalendo a cerca de €700 mensais. Pensar que, numa grande empresa, os administradores ficam sem carro sem serem compensados é, desculpem-me, tonto.

Queixam-se do desbaratar de dinheiros públicos com a indemnização do meio milhão de euros. Basta perder cinco minutos para encontrar casos piores. Por exemplo, quando Paulo Macedo assumiu a liderança da Caixa Geral de Depósitos, pagou mais de €700 mil a um dos administradores (que até continuou na Caixa) e quase um milhão a outro. A indemnização a Alexandra Reis foi paga com o acordo da tutela. Se o Governo de Portugal não viu nisso um desperdício de dinheiros públicos (pelo contrário, continuou a nomeá-la para altos cargos), era a CEO da TAP que ia ver?

Ninguém com responsabilidades políticas considerou a indemnização um escândalo. O Expresso deu conta, em maio, de uma indemnização milionária e ninguém ligou. A pessoa mais importante do país, na primeira vez que comentou o caso, falou numa indemnização de um milhão e meio de euros a que a senhora teria direito como se fosse normal. Só deixou de ser normal com a notícia do “Correio da Manhã” e a indignação que se seguiu. Portanto, acusar Christine Ourmières-Widener de desbaratar dinheiros públicos é só hipocrisia.

No que neste momento é mensurável, o trabalho que está a ser feito na TAP é bom. Os lucros do terceiro trimestre do ano passado foram surpreendentes e as receitas operacionais acima do plano acordado com a Comissão Europeia. É garantido que encontramos melhor? Até parece fácil encontrar um novo CEO para a TAP. Não é. E, se conseguirmos despedir Christine com justa causa, mais difícil será contratar alguém de créditos firmados. Qual é o grande gestor, habituado a ganhar centenas de milhares de euros, se não mesmo milhões, que se vai sujeitar às indignações dos lusitanos?

A administração da TAP pôs a pata na poça em dois assuntos. O comunicado à CMVM, dizendo que Alexandra Reis queria sair, engana. Mas, nos primeiros dias, vários comentadores (alguns com historial de altos cargos em grandes empresas) disseram que aquela formulação era usual e que podia ser o resultado do acordo de rescisão. Independentemente da razoabilidade desta explicação, que não tenho competência para avaliar, a verdade é que nem a TAP nem a sua CEO ganharam o que quer que fosse com a mentira. A existir ilegalidade, não foi em proveito próprio.

Finalmente, temos o caso mais caricato. Cito a primeira notícia que li, no “ECO”: “A presidente-executiva da TAP, Christine Ourmières-Widener, terá contratado Isabel Nicolau, sua amiga pessoal e companheira do personal trainer do marido, para assumir a direção do departamento de melhoria contínua e sustentabilidade da transportadora aérea portuguesa por €15 mil mensais.” Contratar uma amiga, com qualificações discutíveis para um cargo que nem se percebe o que é, é nepotismo. Na minha opinião, é mesmo a única razão válida apresentada até agora para correr com a senhora.

Mas reconheça-se que acontecer isto num país onde maridos, mulheres, irmãos, filhas, sobrinhos e enteadas de responsáveis políticos são nomeados para tudo quanto é sítio, como se não houvesse pessoas competentes fora da família mais chegada, será o cúmulo da ironia. A ser o caso, que sirva para não voltarmos a aceitar a justificação de que a pessoa não pode ser prejudicada por ser filha ou cônjuge de quem é.

PS: Curiosamente, escrevi esta crónica no dia em que Governo, Presidência e Parlamento se recusaram a dizer quanto custaram as suas viagens ao Catar. Ainda corremos o risco de ficar a saber que é mais do que suficiente para pagar a indemnização e os cheques Uber. Bem sei, bem sei, não tem nada que ver.