Opinião

Rui Rio deixou escola

Mariana Leitão

Mariana Leitão

Presidente do Conselho Nacional da IL

10 janeiro 2023 11:24

Nos últimos cinco anos temos assistido a um PSD cada vez mais similar ao PS: mais preocupado com a defesa dos seus interesses e das suas clientelas do que em fazer oposição e escrutínio

10 janeiro 2023 11:24

Uma moção de censura contra um Governo de maioria absoluta tinha, à partida, o seu desfecho definido, mas seria o sinal mais forte que a oposição poderia dar contra um executivo incapaz de reformar o país e uma fonte permanente de instabilidade, fruto das sucessivas condutas erradas dos seus membros e da falta de autoridade do primeiro-ministro. Essa moção seria a demonstração mais clara da defesa intransigente dos interesses dos portugueses, diretamente afetados pela incompetência da governação e por estes constantes atropelos éticos. É irresponsável permitir que este Governo continue em funções.

A moção de censura apresentada na semana passada na Assembleia da República pela Iniciativa Liberal permitiu aos partidos mostrar isso mesmo. Nem um ano se passou desde que o Governo tomou posse e já se verificaram inúmeras situações de abuso da maioria absoluta, sucessivos casos a envolver ministros, secretários de Estado e familiares ou amigos seus e as trapalhadas de um Governo que apenas tem mostrado aos portugueses que não tem soluções. A juntar a isto temos assistido a constantes remodelações, que tiveram início quando a equipa de António Costa ainda não tinha seis meses em funções. A lista é extensa e já contempla remodelações de remodelações, um desnorte total.

No entanto, o maior partido da oposição continua com medo de fazer oposição. Já era assim com Rui Rio, que teve a iniciativa de acabar com os debates quinzenais com o primeiro-ministro, que se manteve ao lado de António Costa nas decisões tomadas na altura da pandemia (mesmo nas mais estapafúrdias e desprovidas de sustentação científica ou legal) e que convergiu com o PS na negociação dos eleitos para as Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR). E continua a ser assim com Luís Montenegro, apesar das sucessivas promessas feitas de que o PSD passaria a fazer uma oposição forte e um escrutínio permanente ao Governo de António Costa.

Porque no momento de mostrar a gravidade das falhas deste Governo, na hora de mostrar que está ao lado dos portugueses, na oportunidade de demonstrar que exige mais a quem governa, ainda para mais com maioria absoluta, o que fez o PSD? Absteve-se. Demitiu-se de fazer oposição, preferiu não tomar posição.

E absteve-se porque, segundo afirmou o seu líder, o PSD não está do lado da inconsequência nem da incompetência. Mas a única coisa que esta abstenção do PSD mostrou foi que está do lado da incompetência de António Costa, porque a valida. E valida sucessivamente um Governo que nunca faz nada, nunca sabe de nada, nunca explica nada. Que omite factos e mente descaradamente aos portugueses, fugindo depois das consequências. Ao validar consecutivamente esta incompetência e esta desagregação do Governo, o PSD está, sim, ao lado da inconsequência. Não está a considerar as consequências que esta governação está a ter para os portugueses e para o país.

O PS, por sua vez, premiou a abstenção do PSD, alcançando logo a seguir o recorde das 25 horas, ou seja, o tempo que demorou a secretária de Estado da Agricultura a entrar e sair do Governo. Mais um escândalo, uma demissão-relâmpago e mais uma ministra socialista a dizer que não sabia de nada. Mais uma demonstração da incapacidade deste Governo e do quão incompreensível foi esta abstenção do PSD - aquele que é, segundo o número de eleitos na Assembleia da República, o maior partido da oposição, mas que, na prática, não faz jus a essa condição e a esse estatuto.

Na verdade, nos últimos cinco anos temos assistido a um PSD cada vez mais similar ao PS: mais preocupado com a defesa dos seus interesses e das suas clientelas do que em fazer oposição e escrutínio. Luís Montenegro não está a romper com esse passado, está a prolongá-lo e a abstenção da semana passada foi prova disso. O melhor que se pode dizer de Luís Montenegro é que não desmerece o trabalho da liderança anterior. Rui Rio deixou escola.