Opinião

Perdoar a tentativa

6 janeiro 2023 0:40

“Roda da Fortuna e da Fantasia” é a obra mais rohmeriana do rohmeriano Hamaguchi

6 janeiro 2023 0:40

Quando escrevi sobre os meus seis filmes favoritos estreados em 2022, queixei-me de que eram poucos, mas nas últimas semanas vi outros que me tinham escapado, o que aumentou a escolha quase para os dez da praxe. O sétimo (sem qualquer ordem hierárquica) é “Um Herói”, de Asghar Farhadi. Muito mais interessante do que o Farhadi “europeu”, “Um Herói” mostra-nos de novo o Irão que desconhecemos, um Irão onde os escândalos nas redes sociais e os vídeos virais destroem reputações, como no Ocidente. E se o protagonista, um homem preso por dívidas que devolve as moedas de ouro que a namorada encontrou, parece um herói altruísta, não terá havido razões egoístas para o seu altruísmo? Mais do que em cinema, este Farhadi faz pensar em teatro, nas moralidades e moralismos de Ibsen e Arthur Miller. O oitavo filme é “Marx Pode Esperar”, documentário de Marco Bellocchio sobre os irmãos Bellocchio, cineastas, escritores, intelectuais, militantes, e sobre um dos irmãos, Camillo, que vivia à sombra deles e desistiu de viver aos 29 anos, sem que os outros tivessem bem noção do que se passava. A angústia individual era para os Bellocchio uma coisa reaccionária, desligada da luta de classes, até que um dia o pobre Camillo disse a Marco, seu irmão gémeo: “Marx pode esperar.” Quanto ao nono filme, estreou em Dezembro de 2021, mas se falei de “Drive My Car” não há razão para deixar de lado “Roda da Fortuna e da Fantasia”, a obra mais rohmeriana do rohmeriano Hamaguchi, espécie de “encontros de Tóquio” com episódios autónomos, cartões a separar os capítulos e os saltos temporais, música de Schumann, ironia, equívocos, e gente a falar incessantemente.

Este é um artigo do semanário Expresso. Clique AQUI para continuar a ler.