Opinião

Dá para ir dormir sem que ninguém se demita?

Luís Correia

Luís Correia

Mestre em Relações Internacionais pela Universidade de Wroclaw, Polónia

4 janeiro 2023 10:42

Nove meses de maioria absoluta, onze demissões. António Costa continua a bater recordes durante o seu fascinante mandato onde parece haver um prémio final para o mais resistente. Polémicas atrás de polémicas, o primeiro-ministro, cheio de confiança e de peito feito, mantém-se firme no cargo

4 janeiro 2023 10:42

2022, o ano maravilhoso para o Governo, acaba da melhor forma: mais um ministro que vai passar o período de festas a casa. Apesar da maioria das demissões serem secretários de Estado, há duas baixas de peso que parecem não afetar Costa: a ministra da Saúde, Marta Temido, e agora o ministro das Infraestruturas e da Habitação, Pedro Nuno Santos. (António Costa estará nesta altura a apontar à criação de uma nova pasta: secretário Adjunto das Demissões, já que os dedos das mãos não lhe chegam para as contar).

Vamos então recuar a maio (e desde aí foi sempre em quinta na autoestrada até dezembro):

A 2 de maio, Sara Abrantes Guerreiro apresentou a sua demissão de secretária de Estado da Igualdade e das Migrações. Durou um mês no Governo e pouco ou nada fez num país democrático que se rege pela inclusão, igualdade e integração.

Estava o verão a correr tão bem, quando do nada acontece um hat-trick da saúde: Marta Temido, ministra da Saúde, foi a primeira a abandonar, seguindo-se António Lacerda Sales, secretário de Estado Adjunto e da Saúde, e Maria de Fátima Fonseca, secretária de Estado da Saúde. Duraram meia dúzia de meses, um passo em frente face a Sara Abrantes Guerreiro que só teve cabedal para um mês.

De agosto a novembro, voltou a acalmar (só para não parecer tão mal). A 10 de novembro, Miguel Alves chegou-se à frente e disse adeus à equipa governamental. O secretário de Estado Adjunto do primeiro-ministro, acusado de prevaricação por parte do Ministério Público (MP), está também sob investigação devido ao adiantamento de 300 mil euros que terá recebido enquanto era presidente da Câmara de Caminha para a construção de um pavilhão multiusos (que ao que parece ainda é um projeto imaginário).

No final de novembro, no dia 29, o secretário de Estado da Economia, João Neves, e a secretária de Estado do Turismo, Comércio e Serviços, Rita Marques, foram ambos demitidos por António Costa (este tem-nos no sítio para demitir) Silva, ministro da Economia.

E daqui saiu uma verdadeira remodelação governamental, quando João Nuno Mendes passou a secretário de Estado das Finanças (até então do Tesouro), estendendo a passadeira vermelha para Alexandra Reis, até então presidente do conselho de administração da Navegação Aérea (NAV), para secretária de Estado do Tesouro.

Um mês e mais um escândalo depois, Fernando Medina, ministro das Finanças, correu com Alexandra Reis após ter sido conhecida a indeminização choruda que a governante demissionária terá recebido da TAP (e que pelos vistos ninguém tinha conhecimento). Como 500 mil euros são só uns trocos, também ninguém se preocupou em saber. Mais uma negociata...indemnização, desta vez tratada pela sociedade de advogados do irmão do Presidente das Selfies, Marcelo Rebelo de Sousa que, aparentemente, “engana bem os portugueses, pois fala muito bem, mas não faz nada”.

Em altura de festas, a cereja no topo do bolo chegou tarde (e a más horas), quando a 28 de dezembro, Pedro Nuno Santos, ministro das Infraestruturas e da Habitação, atirou a toalha ao chão, levando consigo Hugo Santos Mendes, secretário de Estado das Infraestruturas, e Marina Gonçalves, secretária de Estado da Habitação.

Pelas infraestruturas e pela habitação nada fez, não resolveu absolutamente nada. A vida dos portugueses continua na mesma (ou pior), já que nada de aeroporto (nem ao fim de 50 anos), a população cada vez tem mais dificuldades para ter acesso à habitação (uma vez que os preços são proibitivos, especialmente em Lisboa ou em cidades com muitos estudantes e muitos migrantes)...Pedro Nuno Santos tanto que prometeu e tanto que não cumpriu, tantos milhões enterrados em reabilitações urbanas e em infraestruturas que não passam do papel, que é impressionante o tempo que durou no Governo.

Depois de tanta polémica e de tanto escândalo, Pedro Nuno Santos parece ter tido um descargo de consciência, sete anos depois, assumindo responsabilidade política do caso TAP.

Bem disse Pedro Nuno Santos, a 13 de outubro, a André Ventura, líder do Chega: “o senhor deputado ainda vai sair deste Parlamento e eu ainda vou cá estar”. Mal ele sabia...

Com tanta corrupção e tanto escândalo, é bom que se habituem a ganhar pouco e a gastar muito, a pagar mil e um impostos e mil e uma taxas, a fazer descontos para pagar a TAP (que supostamente ia ser nacionalizada, parcialmente em 2016, depois totalmente em 2020, de acordo com António Costa, mas que agora já é para privatizar, 3,2 mil milhões de euros dos contribuintes depois), o BES, carros de 50 mil euros a administradores de empresas públicas, indemnizações de 500 mil euros, salários anuais de 500 mil euros (como é o caso de Christine Ourmières-Widener, CEO da TAP), e por aí adiante.

António Costa terá muitas barrigas para alimentar até 2026, altura de novas eleições legislativas. E se tudo correr às mil maravilhas como tem corrido até aqui, teremos Portugal (não na cauda da Europa porque aí já estamos) sem saúde (com hospitais mais dias fechados do que abertos), sem educação (com mais dias de greve do que de aulas)...e podem imaginar o resto, já que aparentemente os portugueses estão satisfeitos.

Resumindo: (para já) vão ser quatro anos, habituem-se.