Opinião

O início do fim de António Costa

Mariana Leitão

Mariana Leitão

Presidente do Conselho Nacional da IL

3 janeiro 2023 9:07

A ascensão do pedronunismo, não tenhamos dúvidas, significará a erosão acelerada e o fim do costismo

3 janeiro 2023 9:07

António Costa tem sido recordista em remodelações, já que em apenas nove meses de maioria absoluta foram 11 as saídas do seu Governo.

Este recorde deixa uma marca incontornável de incompetência e completa desgovernação, da qual o primeiro-ministro dificilmente conseguirá demarcar-se até ao fim da legislatura. António Costa e o seu executivo estão fragilizados e Pedro Nuno Santos percebeu que esta era a altura de abandonar o barco e iniciar o percurso rumo ao seu grande objetivo: ser o próximo secretário-geral do PS e futuro primeiro-ministro de Portugal.

É difícil encontrar outra razão para esta saída inesperada, face ao lastro que o ex-ministro das Infraestruturas e da Habitação deixa destes sete anos em que integrou o Governo e que, aparentemente, só o levaram a sair nesta fase por iniciativa própria.

Pedro Nuno Santos deixa o Governo na sequência do caso da indemnização de meio milhão de euros a Alexandra Reis, mas tem no seu currículo governativo ficam bem marcados os 3,2 mil milhões de euros que os portugueses pagaram pela TAP - uma absurdamente cara renacionalização "estratégica" que, afinal, vai acabar com nova privatização da companhia aérea -, bem como a ausência, ao fim de vários anos, de qualquer solução concreta para o novo aeroporto de Lisboa, processo que representou também uma humilhação pública, em direto, e testemunhada por todos os portugueses, que lhe foi imposta por António Costa.

Qualquer uma dessas situações poderia e deveria ter levado à demissão de Pedro Nuno Santos, mas foi apenas com o caso Alexandra Reis que o ex-ministro decidiu bater com a porta, revelando que os seus motivos, mais do que a assunção de responsabilidades políticas, foram, sim, uma jogada estratégica para começar a manobrar nos bastidores do PS e dar início ao fim do costismo.

Enquanto António Costa continua à frente de um Governo incompetente e desgastado, sem soluções para a crise económica e social que os portugueses enfrentam, marcado pelos casos polémicos e remodelações sucessivas num período tão curto e em perda nas sondagens, Pedro Nuno Santos vai dedicar-se ao Partido Socialista. Vai afastar-se das crises governativas, vai demarcar-se dos casos e casinhos, vai evitar o escrutínio diário, vai procurar o conforto da perda de popularidade. Sempre o cálculo partidário, sempre o partido à frente do país.

Pelo caminho fica também Fernando Medina, o primeiro na linha de sucessão de António Costa e que conta com o apoio do ainda líder do PS. Medina continua com a pasta das Finanças, a mais delicada e mais problemática de todas, considerando o período de crise e a asfixia que os impostos representam para todos os portugueses, e ainda com a cabeça a prémio também por causa da polémica em torno da indemnização a Alexandra Reis, na qual as suas justificações foram manifestamente insuficientes. O caso está longe de estar encerrado e ao Governo, sobretudo a Medina, ainda se exigem muitas explicações.

Acabou, assim, o ciclo governativo de Pedro Nuno Santos, que inicia agora a fase de oposição interna no PS, aproveitando o crescente desgaste de um Governo irreformável e em implosão. Começa, deste modo nebuloso, o ciclo de implementação da estratégia para se tornar o próximo secretário-geral do PS e putatitvo candidato a primeiro-ministro.

A ascensão do pedronunismo, não tenhamos dúvidas, significará a erosão acelerada e o fim do costismo. Resta saber o que daí poderá resultar. Se mais do socialismo de estagnação que temos tido com António Costa ou, por outro lado, a radicalização do PS e a reedição da geringonça para tomar novamente o poder de assalto. Os cenários estão lançados. Pelo bem do país, que nenhum deles vingue. Que o fim de António Costa seja mesmo o fim destes longos e dormentes anos do PS no poder.