Opinião

As Causas. Podia ter sido pior

27 dezembro 2022 21:00

A luta dos professores devia ser feita em aliança com os estudantes e famílias, apostando no reforço da qualidade do ensino e na exigência de avaliações muito rigorosas, independentes e centradas no sucesso dos estudantes e exigindo progressões na carreira focadas no mérito

27 dezembro 2022 21:00

Em final do ano, infelizmente nem bons balanços nem otimismo nas previsões.

Claro que podia ter sido pior, como escreveu José Cutileiro como título da excecional recolha de muitos dos textos dispersos que escreveu ao longo da vida.

TEMPESTADE PERFEITA NO ENSINO PÚBLICO

Eu há anos que sei que é assim: não há em Portugal grupo social tão sensível a críticas como os professores, sobretudo os que se organizam em sindicatos.

Na passada semana abordei o tema do conflito entre os professores e o governo (incluindo a burocracia que manda no ministério, e que talvez merecesse ser analisada em si mesma), e insisti sobretudo nas seguintes ideias:

  1. O Ministro da Educação – além de chamar mentirosos aos dirigentes do STOP – anunciou um conjunto de medidas que considera excelentes para os professores e eu perguntei a razão para demorar 7 anos a implementá-las, se são tão boas;
  2. Um sindicato (STOP) anunciou greves generalizadas durante todo o mês de janeiro;
  3. Nunca um Ministro da Educação amou tanto o ensino público, se isso for medido pelo que tem feito ao ensino privado, os sindicatos não dizem outra coisa, mas esse amor faz sofrer o ensino público (por isso lhe chamei um “amor sádico”) e leva quem pode a tudo fazer para tirar os filhos e netos do ensino público, desde logo devido às greves.

A perguntas da Clara de Sousa respondi que não percebia que se fizessem greves, que prejudicam os estudantes e as suas famílias e não promovem o ensino público, pelo receio de que a regionalização das colocações seja um meio para compadrios e benefícios a quem seja filiado no partido.

E disse também que os sindicatos discordam de sistemas adequados de avaliação externa para definir a progressão nas carreiras.

Por causa disso recebi muitíssimos mails:

  1. alguns com uma agressividade e intolerância que me espanta, vinda de quem devia usar a pedagogia e promover o pluralismo e a liberdade de expressão,
  2. muitos a assumirem que eu não percebo nada disto e – calcule-se… - que sou apoiante do “monstro” Costa (João ou António, pouco importa),
  3. outros foram mais delicados e abertos ao diálogo, de que destaco um mail enviado por Santana Castilho, com quem com gosto vou em breve conversar partilhando uma sopa e o que mais haja no frigorífico.

GREVES E OUTRAS ESTRATÉGIAS SINDICAIS

O tema merece continuar a ser abordado. Começo resumindo o que em geral penso sobre o tema:

  1. Penso que muitas das críticas dos professores feitas a sucessivos governos – que conheço bem, até por ter familiares na profissão -, são legítimas, justificadas e infelizmente com pouco sucesso;
  2. A estratégia seguida há décadas pelos sindicatos com “maior quota de mercado” (que agora são violentamente atacados pelo STOP, por serem parte do “sistema” e por isso estão a radicalizar-se mais) não tem sido inteligente nem eficaz: o radicalismo isola e nada agrada mais aos governos do que Mário Nogueira e o que ele significa e propõe;
  3. No discurso público e na prática sindical a prioridade é dada aos professores e sente-se a relativa indiferença quanto aos efeitos da sua estratégia no ensino e nos estudantes, que deveriam ser a prioridade de uma carreira que nisso e por isso ao longo de décadas ganhou prestígio e admiração.

Algumas das minhas conclusões resultam da amostragem que foram as reações que recebi:

  1. Nenhuma reação questiona ou justifica a utilidade das greves para os fins pretendidos, como que assumindo isso como uma evidência;
  2. Nenhuma reação dá relevo – ou sequer faz referência - aos efeitos das greves sobre a qualidade do ensino ou menciona que os estudantes são a razão de ser do sistema educacional;
  3. Nenhuma reação se revolta com o facto do sistema de avaliação não ser favorável a uma seleção baseada na qualidade do ensino medida pelos seus efeitos sobre os estudantes, antes se concentrando na defesa da progressão na carreira como um direito a obter por antiguidade, sentindo-se uma reação contra que a progressão seja mais rápida para quem tenha avaliação de Excelente ou Muito Bom.

No passado domingo Mário Nogueira fez uma entrevista a si próprio, que li no Observador. Vejam esta “pérola”: “A FENPROF não declarou greve por tempo indeterminado porquê?

Porque os professores não podem prescindir do salário por tempo indeterminado”.

Ou seja, em momento algum ele diz – ou sequer sugere – que esse tipo de greves prejudica tanto os estudantes (como aliás acontece com as chamadas “greves intermitentes”) que seriam abusivas.

Em coerência com isso, nas 14 perguntas que faz a si próprio e a que responde, nem uma vez usa a palavra “aluno”, “estudante”, “qualidade do ensino”, “responsabilidade social dos professores”.

Uma professora que me criticou duramente escreveu as seguintes pérolas:

  1. Não, as greves não são para fazer cócegas, mas para doer!” (mas, curiosamente, digo eu, não é o Governo que sofre…)
  2. “Sabe o que lhe respondo? Que as escolas não são depósitos! Os meninos estão lá para aprender, para crescer, para se tornarem cidadãos do mundo!” (ou seja, quanto mais greves, mais aprendem…)

Por isso não tenho dúvidas em insistir:

  1. A estratégia sindical é errada;

  1. A aposta em greves dolorosas para o ensino dos jovens e para as suas famílias é contraproducente;

  1. A luta dos professores devia ser feita em aliança com os estudantes e famílias, apostando no reforço da qualidade do ensino e na exigência de avaliações muito rigorosas, independentes e centradas no sucesso dos estudantes e exigindo progressões na carreira focadas no mérito.

Conheço professores excecionais e que correspondem ao paradigma dos que viabilizaram o elevador social de que a minha geração beneficiou e que infelizmente se está a perder.

Estou convicto de que a grande maioria dos professores merece respeito e consideração, também pela sua moderação, e se pudessem lutariam pelos seus direitos de um modo mais consentâneo com a sua função e responsabilidade sociais.

Espero que em 2023 as coisas comecem a mudar no melhor sentido e direção.

Mas tudo isto me faz lembrar a Balada da Neve, de Augusto Civil (“mas as crianças, Senhor”), infelizmente pelas piores razões.

AFEGANISTÃO, IRÃO, UCRÂNIA… e o KOSOVO

Está a acabar 2022 e a começar 2023. É habitual fazer balanços nesta época. E eu não quero fugir ao hábito, ainda que a previsão do futuro das sociedades humanas seja cada vez mais difícil.

Em curto resumo, no plano internacional acho que o Afeganistão e o Irão continuarão a tratar as mulheres (e os homens) de um modo que é intolerável, e que isso vai definir 2023, ainda que curiosamente sejam menos criticados pela cultura “woke” do que o Catar.

Entre a Sérvia e o Kosovo pode estar a formar-se outra guerra. E continuo a não acreditar que a paz para a Ucrânia esteja próxima.

A não ser que ocorra o colapso de Putin, sacrificado pelos oligarcas do regime, a guerra brutal vai manter-se. Mas a História mostra que esses golpes de Palácio são possíveis, mas raros.

Ainda no plano internacional, a inflação vai manter-se provavelmente acima de 5% (como me disse quem sabe mais disto do que eu) e a recessão na Europa será muito provável.

O facto de os governos estarem a montar estabilizadores para proteger os mais fracos – opção social e politicamente compreensível – vai tornar endémica esta inflação… de que os mais fracos são as maiores vítimas, mas isso é para mais tarde.

PORTUGAL E O SENHOR PANGLOSS COSTA

No plano nacional não prevejo grandes mudanças. Como as sondagens demonstram, o PS continua a liderar destacado (à boleia das medidas sociais, como é evidente), a Esquerda voltou a ser maioritária, o PSD continua melhor do que nos tempos de Rio, o Chega está consolidado em 10%, o IL a sofrer com a inexplicada saída do seu líder.

Mas o sinal maior de estabilidade é que os portugueses continuam a amar o Presidente da República e, acima de todos, amam-no os votantes do PS, que em 85% do total só lhe fazem elogios.

É bem verdade que os casamentos felizes não têm história.

Marcelo já percebeu que essa popularidade é o que lhe resta para se aquecer na velhice, pelo que tudo fará para manter a conjugalidade, que o ajuda, para não desiludir a sua base de apoio, incluindo contribuir para que António Costa nos governe até finais de 2026.

Entretanto, também por tudo isto, é provável que em 2023 o deslizar lento e inexorável para a cauda da Europa, a perda de poder compra das classes médias, a emigração dos mais jovens, o ambiente hostil ao mundo empresarial, a fragilidade das empresas devido à crise, tudo se mantenha.

Mas, sendo gradual e lenta a decadência, quase não se nota, até porque a resignação é cada vez mais o que define a alma dos portugueses que por aqui ficam, e quanto aos estrangeiros - sem dúvida que por muitas e diversas razões – eles preferem estar aqui do que voltar aos sítios de onde vieram.

Como diria Leibniz e o seu seguidor Pangloss, e como repete António Costa com o sorriso embevecido de Marcelo, em Portugal “tudo vai pelo melhor no melhor dos mundos possíveis”.

E mesmo Cândido (que foi expulso do castelo onde vivia por causa de um beijo furtivo à prima filha do castelão), o discípulo de Pangloss, é verdade que devido a isso foi obrigado por Voltaire a presenciar as tragédias no Mundo, incluindo o terramoto de 1755, mas acabou a cultivar o seu jardim.

Ora, como dizia Tomás Ribeiro, e se transformou em ideologia no Salazarismo, Portugal é “um jardim à beira-mar plantado”.

Por isso, se o castelo do Barão fosse em Portugal, o beijo à prima não seria um problema (não esquecer os nossos “brandos costumes”, claro) e Cândido não teria de correr um mundo de tragédias para chegar ao paraíso do jardim para cultivar.

Que Deus nos proteja, por isso. É vai proteger: se “Deus é brasileiro” também é um pouco português.

E se o que acabei de escrever é tão cor de rosa que parece ridículo, por favor queixem-se ao Primeiro-Ministro

O ELOGIO

Infelizmente, os elogios costumam ser póstumos. Como reação, raríssimas vezes aqui o faço. António Mega Ferreira merece ser exceção.

Merece-o pelas suas caraterísticas de Homem do Renascimento e pelo que fez pela cultura portuguesa e pela sua gestão, e merece ser lido o que sobre ele se escreveu nos media, como é o caso do Público de hoje:

Mas também pelo que recordo de 45 anos a cruzar-me com ele. Foi ele quem primeiro me levou à televisão, tive com ele deliciosos debates (num deles, provocatoriamente para a assistência, disse que os únicos comentadores de esquerda que mereciam ser lidos eram ele e Eduardo Prado Coelho e a resposta foi de antologia.

Depois, trabalhei anos com ele e Cardoso e Cunha (que improvável dueto os dois fizeram!) como advogado na Expo 98, fui seu advogado num doloroso caso pessoal, propu-lo (e a António Gomes Pinho, outra figura da cultura que merece encómios) para Presidente da Câmara de Lisboa, num texto chamado “um António para Lisboa”, acabando por surgir um terceiro…

Mais recentemente, acompanhei o generoso apoio que deu à minha Mulher em alguns anos no Festival das Artes de Coimbra e tivemos a alegria de almoçar com ele em nossa casa, já com as conhecidas dificuldades de locomoção, mas usufruindo da sua amizade, do seu cérebro privilegiado, cultura cósmica e fina ironia.

Agradecemos-lhe então pelo que lhe devíamos, e como Cidadãos, pelo tanto que lhe ficou a dever a Pátria, como sempre ingrata para os seus maiores.

Há seguramente um Céu para quem nos elevou com os seus textos, que tem de ser diferente do 1º círculo do Inferno que Dante reservava para os virtuosos pagãos. Aí repouse em paz em intermináveis diálogos com todos os que leu, comentou, traduziu e recriou.

LER É O MELHOR REMÉDIO

Foi presente de Natal e comecei a lê-lo: “Metamorfose Necessária – reler S. Paulo” do Cardeal Tolentino (Quetzal), que se misturou no meu dia a dia com outro livro, que me acompanha e cuja leitura também sugiro a crentes e a todos, “Christendom – The Triumph of a Religion”, de Peter Heather (Chair de História Medieval no King’s College em Londres), um estudo seminal sobre os primeiros séculos do Cristianismo, e os desafios e causas do seu sucesso.

A PERGUNTA SEM RESPOSTA

Na passada semana o Público titulava “SNS bate recorde da década com média mensal de 55 mil cirurgias” e o Expresso, no mesmo dia referia também a informação oriunda do Ministério da Saúde que cito “A atividade assistencial nos cuidados hospitalares no SNS evidencia o esforço de recuperação que tem sido desenvolvido ao nível de todos os cuidados prestados pelo SNS”.

Curiosamente, o elogio ministerial era para o SNS, sem qualquer referência oficial ao papel dos profissionais nesse notável resultado, que teve de ser realçado pelo Bastonário da Ordem dos Médicos e pelo presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares.

As perguntas são simples: será que é o SNS que fez as operações ou elas são feitas por médicos com a ajuda de enfermeiros, técnicos e assistentes operacionais?

E não seria boa ideia revelar– como lembrou um médico que me escreveu - que apesar de haver “menos produção de base e menos profissionais de saúde”, esse sucesso se deveu a que há 384 mil cirurgias (70%) feitas em ambulatório (cirurgias de baixíssima complexidade), produção adicional até à meia-noite e aos domingos em alguns hospitais”?

E, já agora, seria possível realçar que estes resultados apenas são possíveis com muita dedicação e justificam incentivos?

A LOUCURA MANSA

Alexandra Reis terá sido afastada da administração da TAP antes do final do mandato (que renovara em julho de 2021) e por isso foi indemnizada com o pagamento de 500 000 euros, que seria menos do que aquilo a que teria direito contratualmente.

Seguramente por mérito, mas também – não sejamos ingénuos apesar da quadra natalícia – devido a ser parte da nomenclatura que gravita à volta de PS, foi de imediato nomeada para presidente do Conselho da NAV– Navegação Aérea de Portugal, SA (uma empresa pública), 4 meses de sair da TAP, e depois subiu a Secretária de Estado do Tesouro passados outros 4 meses.

A loucura não é exercer os seus direitos, nem sequer – se calhar – que ganhasse o que justificou a indemnização milionária, apesar de ser estranho que uns meses depois do acionista Estado/Ministro Pedro Nuno Santos a reeleger para novo mandato para a TAP fosse descartada, seguramente com o acordo do Ministro.

A loucura é que Alexandra Reis não percebesse que politicamente não devia ter aceitado ir para o Governo, desse modo criando mais uma irritação que, apesar de não afetar a visão que do País tem o Primeiro-Ministro, cria ruído que perturba o silêncio de que ele precisa para descansar e recuperar as energias para mais 4 anos de maçadas.