Opinião

Catargate: 11 contra 11 e no fim ganha a FIFA

Luís Correia

Luís Correia

Mestre em Relações Internacionais pela Universidade de Wroclaw, Polónia

20 dezembro 2022 9:50

Os casos de corrupção envolvendo o desporto e a política não são novos, nomeadamente quando existe dinheiro à mistura. Lamentavelmente, um dos eventos mais importantes do planeta a nível desportivo ficou manchado por diversas razões. A atribuição do Mundial de futebol de 2022 ao Catar apanhou de surpresa até o próprio presidente da FIFA na altura, Joseph Blatter, que referiu ter sido um “erro”. Um erro reconhecido fora de portas, mas que com uns trocos a mais acabou por ir ao encontro de determinados interesses

20 dezembro 2022 9:50

É preciso recuar a 2010, ano em que surpreendentemente o Catar bateu os favoritos Estados Unidos da América (EUA) para sediar o Mundial de futebol de 2022, causando perplexidade dentro da comunidade desportiva de futebol.

As razões para aquela perplexidade eram diversas:

  • condições climáticas do Catar
  • proibição de ingestão de bebidas alcoólicas naquele país muçulmano
  • falta de liberdades no que toca às orientações sexuais
  • falta de direitos humanos
  • falta de cultura e ambiente desportivo, nomeadamente futebolístico.

Ainda assim, o Catar, uma pequena nação árabe, conseguiu superar os EUA, levantando a questão: Porquê o Catar?

Corrupção na FIFA

As alegações de corrupção caíram sobre a comunidade Catari, com acusações de subornos:

  • pagamentos na ordem de 1,5 milhões de dólares a inúmeros membros africanos do comité executivo da FIFA, incluindo ainda o presidente da Confederação Africana, Issa Hayatou (Camarões)
  • pagamento na ordem de 1,25 milhões de dólares para “patrocinar” o congresso da Confederação Africana de 2010, com o objetivo de dar ao Catar acesso exclusivo a quatro membros africanos do comité executivo da FIFA
  • pagamento de milhões de dólares ao antigo presidente da Associação Argentina de Futebol e antigo vice-presidente argentino da FIFA, Julio Grondona.

Surpreendentemente (ou não), o nigeriano Amos Adamu, um dos acusados, acabou por ser suspenso do seu cargo no comité executivo da FIFA, perdendo a autorização para votar.

E esta história não se ficou por aqui, com os Catari a serem ainda acusados de “patrocinar” um jantar de gala, organizado pelo filho de Adamu, antes do Mundial de 2010. Em troca, Adamu receberia mais de 1 milhão de dólares.

Ficava claro que o Catar começava a atirar biliões de dólares para diversos países e federações em troca de favores políticos, na esperança de que houvesse decisões positivas que abrilhantassem um país com uma economia escravista moderna.

Outro dos visados foi Ricardo Teixeira, presidente da Confederação Brasileira de Futebol, uma figura poderosíssima sul-americana no comité executivo da FIFA. O brasileiro era crucial para decidir que país sediaria o Mundial de Futebol de 2022 e, para isso, os Cataris terão utilizado diversas holdings do Médio Oriente para alegadamente financiar acordos.

Chegada à Europa: uns docinhos a Espanha

A corrupção não se ficou por aqui e chegou à Europa: Angel Maria Villar Llona, presidente da Federação Espanhola de Futebol terá sido visado.

O melhor exemplo foi o amigável Espanha vs Uruguai que se jogou em Doha, no Catar, em 2013, e que foi bastante lucrativo, adoçando o apetite do líder da Federação Espanhola que ficou bastante desagradado com a atribuição do Mundial de 2018 à Rússia.

O doce era tão bom que acabaram por ser trocadas umas prendas: a Federação espanhola apoiaria a candidatura do Catar, enquanto o Catar apoiaria a candidatura conjunta de Espanha-Portugal ao Mundial de 2030.

Catar e França de mãos dadas

A magia de Nicolas Sarkozy, Presidente francês na altura, começou com um truque perante Michel Platini, também ele francês, presidente da UEFA e vice-presidente da FIFA. Sarkozy pressionou Platini para que este mudasse o seu voto dos EUA para o Catar.

Por trás deste pedido estariam razões geopolíticas. Em troca, os Cataris criariam um canal de televisão desportivo por satélite – associado à Al Jazeera Sports – e comprariam o clube francês Paris Saint German (PSG), o que acabou por acontecer em 2011, através da Catar Sports Investments (QSI), uma subsidiária da Catar Investment Authority (QIA) liderada pelo agora Emir do Catar, Tamim bin Hamad Al Thani.

Coincidentemente, a Al Jazeera Sports acabou por ganhar os direitos de distribuição internacional das principais competições do futebol francês: Ligue 1, Ligue 2, Taça da Liga e Troféu dos Campeões. Um acordo no qual a Al Jazeera Sports iria pagar à Liga de Futebol Profissional francesa (LFP) 276 milhões de dólares (46 milhões de dólares por época) que teve início na época de 2012/2013 e teria a duração de seis anos.

Negócios que tiveram como grande objetivo promover o minúsculo Estado do Golfo no cenário mundial.

Apesar de todas estas alegações e coincidências, Sarkozy sempre as refutou, afirmando que o seu objetivo era “abrir países que nunca organizaram grandes eventos desportivos”, e certamente foi por isso mesmo que Sarkozy e Platini se encontraram com o príncipe herdeiro do Catar semanas antes da votação...e não para discutirem possíveis investimentos no futebol francês.

A pequena máfia

A FIFA, apelidada por muitos de “pequena máfia”, conseguiu chegar a todos os lados com os seus tentáculos. Apanhou figuras emblemáticas do futebol, entre os quais o inglês David Beckham, o australiano Tim Cahill, o brasileiro Cafu, o camaronês Samuel Eto’o, o espanhol Xavi Hernández e o neerlandês Ronald de Boer, que alegadamente receberam milhões de dólares para se tornarem embaixadores internacionais do Catar, promovendo assim um torneio num país cheio de interrogações.

A chegada ao Parlamento Europeu: Eva Kaili, a jogadora (quase) perfeita

Considerado um dos mais chocantes escândalos de corrupção em Bruxelas, o Catar chegou ao Parlamento Europeu.

Quando todos pensavam que os culpados eram meros assistentes parlamentares, eis que surge o nome de Eva Kaili, vice-presidente do Parlamento Europeu, uma das pessoas mais poderosas da instituição, e uma defensora do Catar. A prova disso é uma das suas mais recentes declarações, apelidando o Catar de “pioneiro em direitos trabalhistas”.

Apesar das profundas preocupações internacionais sobre as condições inexistentes dos trabalhadores na construção dos estádios, isso não impediu Eva de se relacionar com o Catar.

Nem a ela nem ao seu parceiro, Francesco Giorgi, consultor para a região do Médio Oriente e Norte de África no Parlamento Europeu, também fundador de uma Organização Não-Governamental (ONG) chamada Fight Impunity.

O jogo chegou ao Parlamento e parece ter havido um investimento bastante inteligente por parte de um país tão pequenino, mas com muita fome “de bola”.

Quem foi o vencedor?

O grande vencedor do Mundial de 2022 foi a FIFA: sete mil milhões de euros em receitas e parcerias comerciais, um prémio chorudo que faz as alegrias do génio Infantino.

São 11 contra 11 e no fim ganha a FIFA.