Opinião

A luta dos povos indígenas pela floresta

Susana de Matos Viegas

Susana de Matos Viegas

Antropóloga, Investigadora no Instituto de Ciências Sociais (Universidade de Lisboa)

8 dezembro 2022 12:41

8 dezembro 2022 12:41

Nenhum de nós, independentemente da filiação ideológica, política ou partidária, deveria identificar-se com aqueles que contribuíram no passado, ou contribuem no presente, para promover o desmatamento e para desvalorizar as formas de regeneração de vidas em biomas tropicais. A floresta que os povos indígenas defendem no Brasil – seja a Amazónia ou a Mata Atlântica – são paisagens no nosso horizonte contemporâneo, entrelaçadas historicamente connosco, portugueses. Temos tudo a agradecer aos povos indígenas - nos últimos anos em contramão às políticas anti-indígenas do governo brasileiro – e temos também a agradecer aos cidadãos brasileiros que se uniram na sua luta, no impedimento do extermínio de civilizações indígenas, da preservação da floresta e contra formas de uso da terra que promovem o desmatamento. Foram e são vários os cidadãos portugueses que se têm envolvido também nesses processos.

Desmatamento e seus contrários

Num artigo de Henrique Raposo publicado no Expresso online em 24/11/2022 “Os portugueses ensinaram os índios a cuidar da floresta (e não o contrário)” faz-se uma afirmação de que “nada bate a destruição ambiental” como aquela feita pelos próprios “povos antigos como o indígena/índios”. O texto dedica-se a este tema. A existência de 305 povos indígenas no Brasil na atualidade com uma população de cerca de 800 mil que falam 160 línguas (ver ISA) e o fato de nos últimos 30 anos o desmatamento em Terras Indígenas no Brasil ter sido apenas de 1,6%, comparados com os 68,4% em áreas privadas (ver MapBiomas) são fatos históricos primordiais sobre o contrário do dito nesse texto.

Figura 1: Imagem satélite das Terras Indígenas Xikrin do Kateté e Kayapó, exemplificando o contraste entre a densidade da floresta dentro das Terras Indígenas (em verde escuro) e fora dessas fronteiras sem remanescentes de floresta (fonte:Google Earth).

Figura 1: Imagem satélite das Terras Indígenas Xikrin do Kateté e Kayapó, exemplificando o contraste entre a densidade da floresta dentro das Terras Indígenas (em verde escuro) e fora dessas fronteiras sem remanescentes de floresta (fonte:Google Earth).

Enquanto antropóloga, o fio condutor para o entendimento destes fatos são as experiências de vidas indígenas. Uma dessas experiências é a prática da agricultura de corte e queima, referida por Raposo como prática de desmatamento. As ciências arqueológicas e antropológicas têm mostrado que os cultivos indígenas de corte e queima são uma forma sofisticada de manejo do fogo que consegue promover a biodiversidade. Eduardo Gois Neves e Manuela Carneiro da Cunha, um arqueólogo e uma antropóloga que visitaram há poucas semanas o nosso país, dizem mesmo que a biodiversidade da floresta amazónica resulta, em parte, de modos indígenas de cultivar. Um famoso antropólogo britânico, Peter Riviére, usou a expressão “votar com os pés” para descrever modos de fazer política entre povos Tupi do Brasil e Caribe nas guianas francesas. Eles literalmente destituem os seus líderes “votando com os pés”, isto é, indo embora, deslocando-se para outro lugar, associando esses deslocamentos aos cultivos de corte e queima. Esses locais que abandonam não são, no entanto, lugares vazios, eles vão pontuando territorialidades e regenerando vidas na distribuição de sementes e outras formas de associação entre o cultivo de árvores frutíferas e outras árvores e animais, integradas em dinâmicas familiares e de relacionamento político.

Figura 2: Fotografia aérea: do lado esquerdo (na linha que diferencia a terra desmatada e a floresta) uma terra privada e do lado direito a Terra Indígena Mebengokre (Kayapó) – Fonte WWF, Brasil (https://www.wwf.org.br/?81588/Com-tecnologia-povo-Kayapo-Mbengokre-tenta-barrar-devastacao-da-Amazonia)

Figura 2: Fotografia aérea: do lado esquerdo (na linha que diferencia a terra desmatada e a floresta) uma terra privada e do lado direito a Terra Indígena Mebengokre (Kayapó) – Fonte WWF, Brasil (https://www.wwf.org.br/?81588/Com-tecnologia-povo-Kayapo-Mbengokre-tenta-barrar-devastacao-da-Amazonia)

wwf brasil

A explicação que encontrei para a capacidade dos Tupinambá de Olivença, sobre quem faço investigação antropológica desde a década de 1990, terem permanecido até à atualidade no mesmo território que foi colonizado pelos portugueses logo no século XVII articula-se com a prática de cultivo de corte e queima, deslocando-se nos interstícios de áreas desmatadas para monocultura de cacau por não indígenas, as quais ficam arrasadas como aquela mostrada no lado esquerdo da figura 2. A Terra Indígena Tupinambá de Olivença deverá ser homologadas por um presidente que volte a respeitar a vida, seguindo, aliás, a voz de Maria Bethânia: “Já que diversos povos vêm sendo atacados; sem vir a ver a terra demarcada; a começar pela primeira no Brasil; que o branco invadiu já na chegada; a do tupinambá; Demarcação já! Demarcação já” (Demarcação já 2017, ver do minuto 0:53 até 1:07).

Aquilo que conhecemos como “destruição ambiental” (mas atualmente é mais correto e descritivo designar destruição planetária) como é o caso do desmatamento acelerado na derrubada intensiva de árvores para cultivo de monoculturas não é resultado, em suma, das queimadas indígenas, mas o seu contrário.

Ser aliado

Nada indica que no período colonial os portugueses, mesmo os mais eruditos, tenham contribuído para a biodiversidade da floresta amazónica. Podem ter contribuído, isso sim, para “romantizar a floresta e a natureza” (cit. Raposo) criando a ideia equívoca de que a floresta seria um local pristino. Os estudos antropológicos mostram que para os povos indígenas a floresta não é nem “amiga” nem “mortífera”. Na antropologia americanista tem-se identificado como eixo central nas formas indígenas de lidar com a floresta uma economia simbólica da predação, isto é, a definição de sujeitos em alteridade num mundo de predadores e de presas cuja sofisticação político-filosófica implica teorias sobre corpo e sobre sujeito que deslocam muitas das fundações da nossa filosofia modernista.

Habitar na floresta implica, em suma, uma sofisticada complexidade e por isso nem todas as sociedades estão aptas para habitar a floresta. Como os fatos históricos nos mostram que ser habitada por povos indígenas promove a biodiversidade da própria floresta, sermos aliados das lutas indígenas já não deveria ser, a rigor, uma “causa” de minorias. Esta aliança deveria ser um passo coletivo e consensual, já que ele é um primeiro passo inevitável para caminharmos na direção contrária à catástrofe climática.