Opinião

Os pacifistas do costume

Os pacifistas do costume

Henrique Burnay

Consultor em Assuntos Europeus

Os que andaram desde o primeiro dia a dizer que a culpa da guerra é da NATO e que a Rússia tinha sido provocada, não defendiam a paz. Queriam que a Ucrânia, através dos Estados Unidos ou da União Europeia, cedesse a Moscovo. E ainda querem

Na guerra da Ucrânia há dois tipos de defensores da paz. Os que querem que a Rússia seja parada, e os que pretendem a rendição da Ucrânia. Uns, reconhecem o direito dos ucranianos a se defenderem, e o nosso dever de os apoiar. Os outros, em suposto nome da paz e invocando as terríveis consequências económicas, promovem a vitória russa.

Desde o primeiro dia da guerra que há quem diga que é a favor da paz. Só a favor da paz. A ideia é convencer-nos de que há uns belicistas que desejam e incentivam a guerra e outros, os promotores da paz, que acreditam em soluções negociadas. A tese tem, porém, dois problemas. A paz que defendem é sempre a da rendição ucraniana, e as negociações só têm esse propósito. E o que os move é o velho ódio à América, de quem nos querem afastados.

Os pacifistas da rendição, mesmo quando reconhecem que a Rússia iniciou a invasão e que a ocupação é ilegal, rapidamente acrescentam vários “mas”. Mas a NATO não tinha nada que se alargar para Leste, mas o governo legítimo da Ucrânia foi deposto por um golpe instigado pelos ocidentais em 2014, que levou à invasão da Crimeia, mas a guerra é no interesse dos americanos e a Europa devia ter interesses próprios que incluem uma relação estreita e autónoma com a Rússia (e com China, talvez?), mas há muitos ucranianos que preferem ser russos (ainda que nenhum referendo o tenha indicado).

A tese fundamental destes supostos pacifistas é que a Rússia invadiu a Ucrânia porque foi provocada. O problema dessa tese é que é falsa.

Do lado da NATO, e da Rússia, desde o fim da Guerra Fria que há algum tipo de colaboração e relacionamento formal. Começou em 1991, com a inclusão da Rússia no Conselho de Cooperação do Atlântico Norte, passou pelo programa Parceria para a Paz (1994), pelo Conselho Conjunto Permanente (1997), pela abertura de uma missão diplomática da Rússia junto da NATO (1998) e, finalmente, em 2002, pelo Conselho NATO-Rússia. Que, obviamente, entretanto acabou.

Claro que a relação entre os membros da NATO e Moscovo não foi extraordinária nem de absoluta confraternização. Mas estas etapas, que incluíam haver pessoal russo em partes do quartel-general da NATO, em Bruxelas, mostram bem que a Aliança Atlântica quis manter relações próximas com a Rússia, na expectativa de que a Rússia se fosse abrindo, liberalizando e democratizando. O problema, o único verdadeiro problema, é que não foi isso que aconteceu.

Não é Moscovo que se sente ameaçada por uma aliança militar defensiva que nunca disparou um tiro contra a Rússia nem forçou um único país a aderir. São os países à sua volta, os que fizeram parte do Pacto de Varsóvia, como a Polónia, e os que fizeram mesmo parte da União Soviética, como os três bálticos, que desde o primeiro dia têm querido assegurar o seu destino enquanto países livres, soberanos e protegidos de qualquer ameaça militar pela participação na NATO, e enquanto democracias ocidentais e economias de mercado, pela adesão à União Europeia. É isso que, legitimamente, os ucranianos também gostavam de poder ser. E que Putin não tolera nem pode tolerar. Sem se reconhecer isto, é impossível perceber os dois lados desta guerra. E sem isso, todo o discurso sobre paz e negociações está irremediavelmente inquinado.

Não sendo, hoje, de esperar que a Rússia consiga invadir toda a Ucrânia e impor a rendição, e sendo evidente que a Ucrânia não pretende chegar até Moscovo e fazer Putin estender uma bandeira branca, o mais provável, e preferível, é que os termos do pós-guerra se definam por negociações. Haverá, naturalmente, um momento para a paz e a diplomacia. O que divide os supostos pacifistas dos outros é sobre quando e como é que esse tempo chega.

Os que andaram desde o primeiro dia a defender que a culpa da guerra é da NATO, quando as negociações chegarem, acorde-se o que se acordar, dirão que foi isso que sempre defenderam. Não foi. O que defenderam, desde o primeiro dia, foi que a Rússia tinha sido provocada e que a Ucrânia, através dos Estados Unidos ou da União Europeia, tinha de ceder a Moscovo. De resto, não são muito diferentes dos pacifistas do tempo da Guerra Fria, que estavam sempre contra as armas da NATO, mas nunca se pronunciavam contra o Pacto de Varsóvia.

Os outros, os que querem a paz e a liberdade da Ucrânia, sabem que em algum momento será necessário negociar. Se isso vai acontecer quando o exército ucraniano chegar às portas da Crimeia, quando estiver a ponto de recuperar os territórios das províncias supostamente separatistas, ou quando o peso da guerra for insuportável, isso cabe aos ucranianos escolher. Mas para que isso aconteça, é necessário que a Ucrânia consiga lutar.

Notar que os aliados da Ucrânia começam a pensar na paz, o que já vai acontecendo, não prova o argumento dos teóricos da razão russa. Prova, apenas, que a resistência ucraniana permite um fim da guerra negociado, em vez da rendição de um país livre.

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