Opinião

Inflação e crise climática: a indústria fóssil está a engolir-nos vivos

João Camargo

João Camargo

Investigador em alterações climáticas

17 outubro 2022 15:00

Anúncio de corte da produção de petróleo pela OPEP monta-se em cima da inflação de 10% que varre a Europa. Depois do fim dos Nordstreams por sabotagem, apenas uma certeza fica: não há energia que chegue para manter a normalidade no centro da Europa. A aposta em gás dos últimos anos enfiou o continente nos bolsos da indústria fóssil e dos países que a albergam, enquanto o clima colapsa frente aos nossos olhos

17 outubro 2022 15:00

A indústria fóssil conseguiu, ao longo das últimas décadas, fazer-se confundir absolutamente com o capitalismo global, através da cooptação tecnológica e de compra da política. Durante os últimos 50 anos, as petrolíferas fizeram em média 2,9 mil milhões de euros por dia. Por dia. Construíram um sistema social e tecnológico e um regime político completamente viciados em petróleo e gás. Cada produto, cada viagem, cada moeda que troca de mão ou transação financeira em bolsa, tudo ligado o máximo possível aos fluxos de petróleo, gás e carvão.

A crise climática produziu este verão situações extremas de seca, incêndios florestais e cheias históricas. Tudo isto continua: a seca que atravessa a China não tem paralelo na História, as inundações no Paquistão ocupam um terço do país e colocaram 33 milhões de pessoas sem teto. Em Portugal, avança a desertificação. Os piores cenários são ultrapassados muito antes do tempo. Mas a máquina do capitalismo fóssil não para. Acelera. Lucra como nunca.

Ainda antes da invasão da Ucrânia pela Rússia, um petroestado que depende totalmente da manutenção da indústria fóssil para manter a sua elite capitalista, os preços do petróleo e do gás já estavam a subir. Para compensar todos os lucros que tinham escapado durante o Covid, a indústria decidiu que era altura de lucrar à grande, já que os conselhos de administração destas empresas criminosas acham estatutariamente que estes lucros lhes são sempre devidos.

Com a invasão da Ucrânia, o festim tornou-se obsceno. As ameaças de corte de gás por Putin faziam os mercados de futuros salivar e o preço subia, em simultâneo, por todo o lado. E assim, o primeiro semestre de 2022 foi provavelmente o mais rentável de sempre na história da indústria petrolífera. A Saudi Aramco, a maior petrolífera do mundo, fez 287 mil milhões de euros de lucro nos últimos doze meses, próximo do PIB da Finlândia. A Exxon Mobil fez 23,8 mil milhões de euros de lucro no segundo trimestre do ano, mais de 250% de crescimento em relação ao ano anterior. A GALP fez 420 milhões. As petrolíferas triplicaram os seus lucros no primeiro semestre deste ano, mais de 103 mil milhões de euros.

Quer saber de onde vem todo este lucro? Dos preços de tudo. A inflação com que nos bombardeiam todos os dias tem uma fonte inequívoca: a energia fóssil. A decisão livre por parte das petrolíferas acerca daquilo que produzem, e a influência disto nos preços é que provocou o caos em que estamos mergulhados. Como que para ilustrar ainda melhor a situação, perante a sabotagem dos NordStream 1 e 2, que faz aumentar ainda mais os preços do gás, a OPEP, a organização dos países produtores de petróleo e gás, decidiu cortar drasticamente a sua produção para aumentar os preços de novo.

Estas manobras são a origem da crise de preços que vivemos hoje. Na Alemanha e no centro da Europa, várias das principais fábricas da indústria pesada, ainda totalmente dependentes de gás, já estão a fechar ou fecharão em breve, pelo preço da energia e pela escassez da mesma. A inflação na República Checa está quase nos 20%, a energia está mais do dobro do preço de há um ano atrás e o gás custa três vezes mais. Na Holanda, a inflação está quase nos 15%, com energia e gás a custarem quase quatro vezes o que custavam há dois anos atrás.

A inflação ainda não parou de subir. Prognósticos favoráveis são magia contabilística e cenários irrealistas, que rejeitam a realidade. Os produtos vão ficar mais caros e a comida ainda mais, porque a pulsão especulativa também se encavalita na situação. E não vai parar com a austeridade encapotada de subir salários abaixo da inflação, que é a decisão de quase toda a Europa. A Alemanha já anunciou que vai atirar 200 mil milhões de euros à sua economia.

Temos um problema existencial e conjuntural que se chama a indústria fóssil. Em particular na Europa, a vertente mais clara desse crime chama-se gás “natural” e, perante a aberração económica de nos vermos na sua dependência e a aberração suicida que é continuar a mandar milhões de toneladas de metano e dióxido de carbono para a atmosfera pelo seu transporte e queima, a aposta dos governos capitalistas é a sua expansão.

Somos, há muito, liderados por loucos que obedecem a sociopatas.

As indústrias petrolíferas têm de cessar de existir. Poder-se-ia argumentar a favor da sua nacionalização, e em alguns contextos até se poderia justificar, mas apenas para garantir que uma transição para um sistema socialmente justo e compatível com os cortes que a Ciência Climática exigem - cortar 50% das emissões até 2030 - se fizessem de forma planeada e real.

As empresas fósseis são entidades criminosas, não apenas culpadas do crime de privação generalizada da populações para seu benefício, mas de exercerem uma atividade cujo resultado necessário é o colapso das civilizações humanas. É preciso travá-las.