Opinião

Tornar a saúde mental e o bem-estar para todos uma prioridade global

Ricardo Gusmão, psiquiatra no Hospital de Magalhães Lemos (Porto) e presidente da EUTIMIA – Aliança Portuguesa Contra a Depressão em Portugal

10 outubro 2022 16:27

A expressão saúde mental não faz confusão às pessoas, mas a expressão doença mental já faz muita. Está carregada de estigma promovido pelo desconhecimento e causando barreiras de todo o tipo ao acesso aos cuidados de saúde de que as pessoas precisam, afirma o presidente da Aliança Portuguesa contra a Depressão em Portugal, no dia em que se celebra o Dia Internacional da Saúde Mental

10 outubro 2022 16:27

A expressão ‘saúde mental’ entrou pela casa adentro dos portugueses durante a pandemia. Semanas e meses a fio, a par do curso do número de infetados, de fatalidades e de vacinados, de modo crescente surgiram conteúdos na comunicação social sobre o impacto da pandemia na saúde mental dos portugueses. A saúde mental passou a ser um problema de saúde publica na cabeça das pessoas. Na realidade, sempre foi mas andava invisível.

Mas como se define saúde mental?

O conceito de saúde mental não se limita ao negativo de doença mental. De facto, comer bem, dormir bem, socializar bem, fazer exercício físico, obter suporte social e afetivo adequados, desempenhar uma ou mais atividades gratificantes e com sentido identitário e de utilidade ou valia reconhecidas na comunidade são características comuns partilhadas pelas pessoas que reportam bem-estar, boa qualidade de vida e saúde mental positiva. Uma questão de higiene e estilos de vida saudáveis, portanto.

Mas todos somos impactados no dia-a-dia por dificuldades e desafios aos quais respondemos através de um processo contínuo de adaptação e subsequente aprendizagem. De facto, é ao experienciarmos dificuldades e aprendermos com o processo de as superar que crescemos e nos desenvolvemos ao longo da vida, biológica e psicologicamente. O stress e a ansiedade (normais) são assim experiências universais às quais não nos podemos furtar nem devemos ter a expetativa de deles proteger os nossos filhos. Queremos que cresçam saudavelmente. Têm de viver e crescer com a exposição a níveis de stress e de ansiedade ditos normais, os quais, em abono da verdade, podem provocar bastante sofrimento, é verdade. Mas este sofrimento é também normal e devemos geri-lo dando suporte e afeto. Não recorramos aos profissionais para o mitigar, para o ‘psicologizar’ ou para o ‘medicalizar’. Se tivermos dúvidas, podemos pedir uma opinião profissional, de preferência ao médico que nos conhece melhor.

Mas quando começa o sofrimento mental a ser patológico?

Realmente, para ter saúde mental é importante não sofrer de doença mental. O sofrimento é patológico e pode ser considerado como representativo de doença mental quando existem sintomas que produzem sofrimento pessoal, há algum tempo, com impacto negativo nas relações interpessoais, nos estudos e no trabalho. Ou seja, só há doença mental se associado aos sintomas e sofrimento houver uma duração suficiente e incapacidades ou disfunção na área socioprofissional.

A expressão saúde mental não faz confusão às pessoas, mas a expressão doença mental faz muita confusão. Está carregada de estigma promovido pelo desconhecimento e causando barreiras de todo o tipo ao acesso aos cuidados de saúde que as pessoas precisam. Equivalentes a doença mental, existem as expressões perturbação psiquiátrica ou doença de funções complexas do cérebro. Algumas profissões, e às vezes só nalguns países, inventam expressões por parecerem ser menos graves, e outros fins, como ‘problemas psicológicos’ ou ‘saúde psicológica’ agravando a confusão.

A saúde mental estende-se desde o estado de excelente saúde mental até à doença mental grave.

O que as pessoas precisam é de melhorar a sua literacia em saúde mental. A literacia em saúde mental é conhecer e ter atitudes e comportamentos que favorecem a saúde mental do próprio e de terceiros. Compreende respostas às seguintes perguntas:

  • “O que posso fazer para me manter mentalmente saudável?”,
  • “Que problemas me podem vir a afetar e como posso reconhecer as doenças mentais mais comuns?”,
  • “Como minimizar ser discriminado e discriminar as pessoas afetadas por doença mental?”,

e principalmente,

  • “Quais são as intervenções e tratamentos eficazes e o que fazer e a quem me dirigir quando suspeito que preciso de ajuda?”.

Desta forma, equipados com as respostas a estas perguntas poderemos fazer o melhor por nós, pelos nossos filhos, pelos nossos familiares e amigos.

E são muitos os que precisam e que beneficiarão da melhoria das nossas competências e literacia em saúde mental: as doenças mentais são as doenças que mais incapacidades geram entre todas as doenças existentes, em todo o mundo. E são uma das mais importantes causas de mortalidade precoce e de causa violenta – suicídio – existente. Em Portugal, mais de um quinto da população adulta sofre de uma qualquer doença mental, das menos às mais graves, e mais de 1% da mortalidade é por suicídio. Três quartos das doenças mentais surgem até aos 25 anos e daí a necessidade de organizar intervenções de promoção e prevenção orientadas para este grupo etário. Mas as demências aumentam à medida que aumenta a esperança de vida dos mais velhos. Entre as doenças mentais é inevitável privilegiar a atenção dirigida à depressão a qual é responsável por metade da incapacidade das doenças mentais e mais de metade dos suicídios. Os vários tipos de depressão constituem a condição individual que maior peso tem entre todas as doenças individuais, no nosso país.

A dificuldade é óbvia: onde e quem me poderá dar informação credível? Onde aprender tudo o que é preciso?

Bom, a resposta é complicada. A passividade perante a qualidade da informação é a regra geral, mas o que está em causa não diz apenas respeito aos indivíduos, mas igualmente às comunidades. Hoje, a informação abunda na internet e na espuma da comunicação social, apresentada por atores e materiais que nem sempre fazem jus às necessidades em conhecimentos, em atitudes e competências em saúde mental dos cidadãos comuns de todas as idades, das suas famílias, das comunidades em que se inserem, deste nosso país. Muitas vezes, a qualidade que não abunda é compensada por conflitos de interesse não visíveis para o leigo que se validam no espaço emocional público da procura de soluções rápidas e mágicas.

As respostas do futuro, as mais-valias na literacia em saúde mental de todos nós, estará na competência e qualidade dos atores, no consenso e colaboração entre diferentes setores e profissionais. As respostas decorrerão nos currículos das escolas e universidades da 1º classe até ao curso de doutoramento. Nas empresas, em currículos de formações obrigatórias. Nos lares e instituições de apoio à terceira idade. Nos centros de saúde, clínicas e hospitais com capacitação dos profissionais e educação dos doentes. Um país moderno investirá nos seus cidadãos e na capacidade de autocuidado e autogestão eficientes como forma de fazer face aos custos esmagadores da ausência de saúde mental. E na capacitação dos profissionais de saúde. No uso apropriado das tecnologias de informação. E na organização da prestação de cuidados em saúde mental nos cuidados de saúde primários e nos hospitais.

Vivemos tempos pós-modernos em que as certezas são mal-amadas e a ciência é posta em causa por via de ativismos e relativização da verdade natural. Todavia, podemos esperar a transitoriedade daqueles e prepararmo-nos para identificar criticamente e rejeitar fake-news e aferir atores cujos interesses poderão prejudicar os nossos.

Por isso, lembre-se: procure aprender mais sobre saúde mental em livros e sites de qualidade, preferencialmente académicos e não corporativos, mantenha o sentido crítico e tenha abertura para que as suas crenças sejam decisivamente desafiadas. E recorra ao médico que melhor o conhece, e esteja atento a sinais de alarme. Mudanças marcadas e demoradas na forma de estar habitual – alimentação, sono, vitalidade, gosto nas atividades habituais, alterações do humor, aparência diferente, manifestação de ideias sombrias ou inesperadas – são esses sinais de alarme e indicativos de dificuldades.

Algumas situações de sofrimento patológico podem ser geridas pelo médico de família ou médico assistente, outras poderão ter de ser referenciadas e avaliadas e geridas por profissionais de saúde mental, frequentemente um psiquiatra, muitas vezes em associação a um psicólogo.

Há um caminho a percorrer para que em todos os dias seja considerada a Saúde Mental.