Opinião

Sr. Presidente, não seja imprudente, Costa tem de subir a encosta

Costa quer fugir daqui. Não porque o poder que alcançou pelo seu próprio punho não lhe interesse já, mas porque o trabalho que se lhe exige não é coisa ao seu alcance. Sobretudo com um governo exangue de ideias, em falência técnica e em intermitência ética, do qual ele é o máximo, para não dizer o único, responsável

Portugal, com as suas debilidades estruturais e os seus dramas conjunturais, vive, porém, não as suas resoluções e reformas urgentes, mas os dramas egocentristas do legado histórico do Primeiro-ministro e do Presidente da República.

"Será Portugal reformável?" Esta pergunta, formulada por Nikolaus Meyer-Landrut ao Embaixador Luís Almeida Sampaio, e que dá nome a um dos capítulos do seu recentemente publicado, e muito interessante, livro - "Diplomacia em Tempo de Troika" - persegue-nos. E esta é também a questão que Cavaco Silva, num artigo no Público - "Ajudar o Governo a encontrar o rumo certo" - presumindo que a resposta seja positiva, insta António Costa a resolver. Ora, não quero ser desmancha prazeres, mas esperar que António Costa reforme o que quer que seja - com excepção de todos os que se lhe atravessam no caminho - é o mesmo que esperar que uma vaca voe. Eu sei, eu sei, mas o facto de Costa o ter anunciado não só não o torna real, como o mais provável é não ser verdade.

Dizia que o livro de Luís Almeida Sampaio era muito interessante. É mais do que isso: o livro é uma peça invulgar e é um contributo essencial sobre a história recente do país. Apresentado na semana passada no Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica por José Manuel Durão Barroso, conta a história, na primeira pessoa - Almeida Sampaio era embaixador de Portugal na Alemanha durante a vigência do Memorando de Entendimento -, de um dos mais difíceis períodos da história portuguesa das últimas décadas, a partir de um palco privilegiado e vital: Berlim. Digo invulgar e essencial, porque é invulgar um contributo reflexivo tão vívido e recente proveniente da diplomacia e é essencial porque contribui para a reposição de uma certa justiça à história daquele período.

A resposta definitiva à pergunta de Meyer-Landrup fica, porém, por responder. Não obstante, Almeida Sampaio esboçou uma resposta na apresentação do livro: "Tem que ser. Não temos alternativa".

Amigo por quem tenho a maior estima costuma, pelo menos desde os tempos da troika, usar uma lapidar frase que atribui a Jorge Borges de Macedo, sobre os portugueses: “o português cede à menor facilidade.” Nunca confirmei a fonte, porque para mim a frase é do António e retrata como poucas o povo deste país: Adversidades? Venham todas que nós aguentamos. Mas facilidades? Oh, sucumbimos à primeira que nos apareça.

Talvez seja por isso que o país sobreviveu ao programa de ajustamento a que o governo de Sócrates nos obrigou e, depois disso, tenha estoicamente dado a vitória nas eleições de 2015 a quem teve a penosa tarefa de nos guiar por esses anos: Pedro Passos Coelho e Paulo Portas.

Mas facilidades, oh, facilidades… Assim que se anunciam, assim que se avistam, largamos tudo para as abraçar com a dolência própria do Sul.

E eis que é nesta encruzilhada que chegamos inexoravelmente a Costa. Aquele que quis apagar a história dos tempos pré-troika, aquele que quis recontar a história dos tempos da troika, e aquele que quis efabular os tempos pós-troika. E, para o que mais nos interessa - o presente e o futuro - aquele que, no meio da crise e sem escapatória, tem de liderar o país num íngreme caminho de reformas essenciais. Porém, ante a maior crise de que o país terá memória, de Costa só se poderão esperar duas coisas: paliativos que lhe rendam popularidade e uma fuga tão rápida e airosa quanto lhe seja possível.

E é por isso que Marcelo Rebelo de Sousa, quando no seu discurso do 5 de Outubro lembra que "tem o poder de dissolver o Parlamento", faz com que Costa não o entenda como uma ameaça, mas como uma bóia de salvação.

Costa quer fugir daqui. Não porque o poder que alcançou pelo seu próprio punho não lhe interesse já, mas porque o trabalho que se lhe exige não é coisa ao seu alcance. Sobretudo com um Governo exangue de ideias, em falência técnica e em intermitência ética, do qual ele é o máximo, para não dizer o único, responsável.

Cavaco é irónico: sabendo que Costa nunca fará as reformas que o país necessita - na Segurança Social, na Educação, na Saúde, na Justiça, no sistema fiscal - obriga-o a confrontar-se com o seu vão legado e com o seu ameaçado futuro. Cavaco é ardiloso: porque a implícita comparação com o seu próprio legado, torna o de Costa uma pálida sombra, tão fria quanto deprimente.

E eis-nos chegados ao princípio do futuro. A maioria absoluta que alcançou no início deste ano é uma fina maldição dos Deuses: sem desculpas, Costa está amarrado à responsabilidade que não quer ter, porque não tem o que é necessário para a cumprir. Como um Sísifo obrigado a transportar uma pedra encosta acima. Mas Costa não foi talhado para empurrar pedras encosta acima, Costa foi talhado para a descer, com fanfarra e foguetório.

E é bom que, muito judiciosamente, Costa seja forçado a assumir a responsabilidade de limpar o salão de festas. Para isso é imperioso evitar a tentação - a começar no Presidente da República - de lhe dar a liberdade por que ele anseia, permitindo que outros carreguem o ónus que ele não quer suportar. Não tenhamos ilusões: Costa aproveitará todos os pretextos para deixar a culpa no colo de alguém, e Marcelo de salvar o seu canhestro legado. É bom estarmos atentos a isso.

Portugal, com as suas debilidades estruturais e os seus dramas conjunturais, vive, porém, não as suas resoluções e reformas urgentes, mas os dramas egocentristas do legado histórico do Primeiro-ministro e do Presidente da República.

Pedro Gomes Sanches escreve de acordo com a antiga ortografia

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