Opinião

Nas bodas de prata da alta velocidade

Nas bodas de prata da alta velocidade

António Filipe

Membro do Comité Central do PCP e professor universitário

Se há meio século se fazem estudos sobre a melhor localização para o aeroporto de Lisboa, há um quarto de século que são feitos anúncios da ligação ferroviária de alta velocidade entre Lisboa e o Porto. Em estudos e anúncios são os nossos governos imbatíveis. Já quanto a obras…

Se há vinte anos me dissessem que em 2022 a viagem de comboio entre Lisboa e Porto ainda demoraria perto de três horas, eu nem acreditaria. Não era possível. Em 1998 já um grupo de trabalho tinha concluído que a ligação iria custar mil milhões de contos (cerca de cinco mil milhões de euros), seria concluída em dez anos e a ligação entre as duas cidades seria feita em 1h15m. No ano 2000 o próprio Primeiro-Ministro António Guterres tinha feito o anúncio de que as obras iam avançar.

Era elementar que assim fosse. Já nessa altura não era admissível que não houvesse uma ligação ferroviária de alta velocidade entre as duas maiores cidades do país que permitisse prescindir do transporte aéreo para fazer a viagem em menos de três horas.

De então para cá os anúncios repetiram-se, com Durão Barroso em 2004 e com José Sócrates em 2008, mas nada avançou e nem o regresso do PS ao Governo em 2015 fez sair o investimento público do sono profundo que lhe havia sido imposto pelos Governos de Passos Coelho e Paulo Portas.

Anuncia agora António Costa o mesmo investimento (4,5 mil milhões de euros), a mesma duração da viagem (1 hora e 15 minutos) e a conclusão para 2030.

Mesmo que desta vez seja de vez, o atraso na ligação de alta velocidade entre o Porto e Lisboa é confrangedor. Desde 2020 que a China tem comboios a circular a 350 Km/hora e testa o protótipo de um comboio capaz de circular a 600 Km/hora por levitação magnética. Na melhor das hipóteses Portugal fará em 2030, apenas entre as suas duas maiores cidades, o que os países mais desenvolvidos já fazem há muito tempo nas principais ligações ferroviárias.

O atraso inadmissível na alta velocidade que afeta não apenas as ligações internas, mas também as ligações com o exterior, é o reflexo da falta de investimento na rede ferroviária em geral. Nas últimas décadas a rede ferroviária, em vez de aumentar, diminuiu. Por todo o país vemos linhas e ramais encerrados. Viseu é a maior cidade europeia sem comboios, desde que em 1990 foram encerradas as linhas do Dão e do Vouga por decisão do Governo de Cavaco Silva.

A falta de investimento público, sobretudo desde a entrada no Euro, devido à obsessão pelo cumprimento dos critérios de convergência ditados pela União Europeia, tem tido consequências dramáticas para o desenvolvimento do país e tem contribuído para acentuar as assimetrias regionais. A falta de investimento na ferrovia, a todos os níveis, tem sido uma consequência evidente dessas políticas.

Em setembro de 2022 temos de novo um velho anúncio. É certo que um dia haverá uma ligação ferroviária entre Lisboa e o Porto que seja mais rápida que a atual. Não sabemos quando, mas sabemos que será sempre tarde. Há muitos anos que deveria existir

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