Opinião

Erros meus, má fortuna

José Matos Correia

José Matos Correia

Advogado, presidente do Conselho de Jurisdição Nacional do PSD

21 setembro 2022 9:39

Ao longo dos últimos meses António Costa tem acumulado um registo de falhas que, mesmo para os seus maiores críticos, é, a todos os títulos, surpreendente

21 setembro 2022 9:39

A política tem destes paradoxos. Num dia, obtém-se uma vitória eleitoral indiscutível. Poucos meses depois, as coisas correm (muito) mal e o apoio atrás obtido esfuma-se a uma velocidade surpreendente.

Em 1999, António Guterres ficou apenas a um deputado da maioria absoluta. Em finais de 2001 demitiu-se, após uma derrota pesada nas eleições autárquicas. Pelo meio, deixou uma desagregação completa do Governo e o anúncio de um programa de emergência de controlo da despesa pública, sendo que a solidez das contas do Estado tinha sido um dos trunfos eleitorais acenados…

Em 30 de janeiro deste ano, António Costa conseguiu, surpreendentemente, obter uma maioria absoluta. Pouco mais de sete meses passados, ninguém diria que tal ocorreu. E as sondagens indicam uma queda muito significativa do apoio ao Partido Socialista e um encurtamento progressivo da distância face ao PSD.

Perante este cenário de degradação, há até quem anteveja a hipótese de nos encontrarmos perante o início do fim de um ciclo.

Como não tenho dons adivinhatórios, não sei se será esse o caso. E todos sabemos como os prognósticos de mortes políticas são, frequentemente, prematuros. Mas que António Costa e o PS se encontram numa encruzilhada particularmente difícil, parece-me inegável.

Os mais benévolos dirão que os ciclos políticos são uma inevitabilidade. E que António Costa está a pagar o preço do cansaço gerado por sete anos no cargo de primeiro-ministro.

Não me parece que essa seja a razão. A História recente dá-nos vários exemplos de líderes políticos democraticamente legitimados com mandatos bem mais longos. Felipe Gonzalez esteve em funções quatorze anos como presidente do Governo. Tanto Helmut Kohl como Angela Merkel foram chanceleres por dezasseis anos. Na Holanda, Ruud Lubbers chefiou o Executivo por quase doze anos. E Mark Rutte vai atingir essa marca no próximo mês de outubro.

O que pode explicar, então, a erosão da popularidade de António Costa? Talvez uma parcela do título de um conhecido soneto de Luís de Camões: erros meus e má fortuna.

Comecemos pela segunda parte. É óbvio que a situação que o Mundo atravessa é especialmente difícil e desafiante. E que isso, por si só, não poderia deixar de acarretar repercussões negativas para um país com as características, tanto económicas, como sociais, do nosso. Fosse quem fosse que estivesse no poder.

Mas isso faz parte das condições de exercício da ação política. Umas vezes tem-se o benefício de agir num contexto de confiança e de crescimento, noutras é-se confrontado com crises e pessimismo.

Quando ascendeu ao cargo de primeiro-ministro, António Costa herdou um país em crescimento, que, graças ao esforço e sacrifício dos portugueses e à atuação determinada do Governo liderado por Pedro Passos Coelho, tinha conseguido dar a volta à situação de bancarrota em que o PS nos deixara em 2011. E, com o jeito que lhe é característico (ou era…), foi surfando essa onda. Algo que, de resto, lhe valeu aquilo que não tinha conseguido em 2015: as vitórias eleitorais de 2019 e de 2022.

Só que esse surfar de onda foi conseguido mediante o pagamento de um preço elevado. Ao governar, apenas, para a popularidade fácil, não fez rigorosamente nada do que era necessário para que Portugal se desenvolvesse de forma sustentada e para que estivesse em condições para enfrentar crises que, mais tarde ou mais cedo, pelas razões de agora ou por outras, com dimensão mais ampla ou mais reduzida, inevitavelmente iriam ocorrer.

Quem vai ao mar, avia-se em terra, dizem os marinheiros. É o princípio básico da precaução. Que, também na política, é essencial. António Costa, voluntária e deliberadamente, ignorou-o. E, por causa disso, Portugal chegou ao actual momento em condições muito piores do que as que teriam sido asseguradas por via de uma governação responsável.

Mas, como se isso não fosse já suficientemente penalizador, ao longo dos últimos meses António Costa tem acumulado um registo de falhas que, mesmo para os seus maiores críticos, é, a todos os títulos, surpreendente.

Em vez de um Governo politicamente reforçado e tecnicamente capaz, optou por um Executivo sem rasgo nem fulgor.

Quando os efeitos da guerra da Ucrânia já eram bem visíveis, fez aprovar um Orçamento que ignorou a nova realidade por ela gerada.

É incapaz de inverter a degradação de um Serviço Nacional de Saúde que se vê confrontado com o sistemático encerramento de urgências, os atrasos nas listas de espera ou o agravamento da cobertura de médicos de família.

Em campanha eleitoral, repetiu à saciedade que as pensões eram sagradas. Mas, em absoluta contradição com isso, toma agora decisões que conduzirão a um corte na ordem dos mil milhões de euros.

Confrontado com a necessidade premente de responder às consequências do agravamento da inflação, fê-lo de forma tardia e com medidas que são claramente insuficientes, seja para as famílias, seja para as empresas.

Ou muito me engano, ou doravante a desculpa mil vezes repetida passará a ser a da crise internacional, ou seja, da má fortuna. Mas, muito mais do que isso, António Costa está a ser vítima dos erros seus. E, infelizmente, nós também.